Água

A água que escapa do rumo segue rotas imprevisíveis nos veios das estruturas, nos furos das tubulações e nas fissuras quase invisíveis do entorno de piscinas, ralos, esquadrias etc. Imprevisíveis são também os problemas gerados aos síndicos pela água incerta, conforme relata Cristovão Luís Lopes, personagem desta edição.

Síndica local no prédio em que mora e profissional em quatro residenciais, a administradora Patrícia Rodrigues adota um mix de iniciativas para controlar o consumo d’água e fazer economia.

Síndica do residencial Arboris Essentia até abril passado, Sandra Tarcha protagonizou missão árdua pelo início da leitura individualizada da água no condomínio. "Mas foi uma experiência também de vitórias, principalmente pela redução do consumo", avalia.

As chuvas ajudaram a recompor o volume dos reservatórios que abastecem São Paulo e Região Metropolitana, mas os condomínios se mantém vigilantes quanto ao consumo d’água. Com o aperto, desde fevereiro último, das metas de redução impostas pela Sabesp, para efeitos de descontos e/ou multas, a conta tem chegado mais salgada. “Temos que fazer ainda mais economia para não pagar multas; se continuar assim, vamos acabar devolvendo todos os bônus que recebemos nesses dois últimos anos”, afirma a síndica profissional Patrícia Rodrigues. Segundo ela, muitos condomínios vêm cobrando as contas de consumo (água e energia) separadas dos rateios ordinários, face aos aumentos contínuos.

No mês em que se comemora o Dia Mundial da Água, em 22/3, inicie uma campanha em seu condomínio pela racionalização do consumo desse bem finito e precioso à vida. Ações possíveis: Controle do consumo, individualização, reuso e tratamento da água de mina, captação da água da chuva, aproveitamento da água cinza, poço artesiano, equipamentos economizadores, alternativas à limpeza das áreas comuns, economia nas unidades, manutenção da rede hidráulica, vazamentos e reutilização da água do tratamento da piscina.

A atual disponibilidade hídrica da Região Metropolitana de São Paulo, bem como as medidas de economia adotadas pelos domicílios, especialmente condomínios, abrandam o cenário da crise d’água em 2016. Porém, a Sabesp apertou a política tarifária, com intuito de forçar o consumo racional. Saiba por que manter a vigília.

Aumentou em 2015 a procura pela medição individualizada do consumo d’água em prédios da RMSP, de acordo com a Sabesp. O mercado oferece duas opções em São Paulo: a primeira homologada pela concessionária pública, que emite as contas para cada cliente; outra com gestão das contas contratada junto às empresas de tecnologia na área. Gerente de produtos de um fornecedor, Marco Aurélio Teixeira observa que softwares e aplicativos permitem registrar hoje o consumo a cada hora, dados que são utilizados para caçar vazamentos e disciplinar o consumidor, levando-o a gastar menos.

Boa parte dos paulistanos continua economizando água da rede pública, conforme balanços periódicos divulgados pela Sabesp, concessionária responsável pelo sistema.

A possibilidade aventada pela Sabesp de que a cidade de São Paulo poderia enfrentar até cinco dias seguidos de torneiras secas em 2015 assustou síndicos e condôminos. Eles aceleraram a implantação de soluções para ajustar o consumo e ampliar as reservas, como sistemas de reuso e de captação da água da chuva; perfuração de poços artesianos; individualização dos hidrômetros; identificação e correção de vazamentos nas unidades e prumadas; instalação de redutores de vazão em torneiras, chuveiros e descargas; monitoramento diário dos relógios; e campanhas por mudanças em hábitos de consumo.

A seca dos reservatórios que abastecem São Paulo tem levado muitos gestores a providenciarem caixas d’água extras para armazenar a água da chuva e utilizá-la na rega de jardins e limpeza das áreas comuns. A providência foi tomada, por exemplo, pela síndica Agnes da Silva André, do Condomínio Edifício Minás, em Santana, zona Norte. Ela implantou três cisternas com capacidade total de seis mil litros na garagem, captando o volume que desce pelo sistema pluvial da cobertura, através de uma adaptação na tubulação.

A rotina do Condomínio New York Club, na Vila Romana, zona Oeste de São Paulo, mudou bastante desde que as reservas d’água do Sistema Cantareira baixaram ao nível do segundo volume morto. O gerente predial Sérgio da Silva Viana afirma que as regas dos jardins foram espaçadas e a lavagem da garagem foi cortada, assim como o serviço de lava-rápido que era disponibilizado aos moradores. Por outro lado, os espelhos d’água decorativos do condomínio-clube agora abrigam as reservas compradas de caminhões-pipa, devidamente tratadas com cloro.

A seca nos mananciais de água em São Paulo coloca a sustentabilidade à prova e gera dúvidas entre os síndicos. Seria possível dispensar a lavagem das fachadas antes da pintura? Caso não, como garantir o serviço sem pagar multas à Sabesp ou evitar tornar-se o vilão do consumo diante dos vizinhos? A legislação paulistana (Lei 10.518/1988) obriga à pintura ou lavagem das fachadas das edificações a cada cinco anos, deixando os síndicos em uma situação desconfortável, um verdadeiro dilema.

Desde o início da crise d’água, os moradores do Condomínio Absolute Moema começaram a diminuir o consumo em suas unidades de quatro dormitórios, o que os contemplou com o bônus da Sabesp e levou a uma queda de 50% no gasto mensal do condomínio, afirma a síndica Elisa Malizia Gonçalves. “Não temos poço artesiano, nem água de mina ou individualização da leitura dos hidrômetros”, observa. O jeito foi apostar principalmente na tomada de consciência de cada uma das 26 unidades do prédio de quatro anos, ajudando-as inclusive a localizar vazamentos.

O aproveitamento de água da chuva tem sido cada vez mais uma opção para os condomínios, devido à crise hídrica e pelo benefício altamente sustentável que o sistema oferece. A água da chuva pode ser utilizada para inúmeras finalidades, porém, todas não potáveis. Ou seja, não é possível beber, tomar banho, lavar louças ou roupas com essa água, uma vez que ela vem de um contato direto com o telhado, jardins e pisos.

Um condomínio da Zona Oeste de São Paulo, com torre única e 30 apartamentos, utilizava havia anos a água que vertia de seu subsolo, a partir do lençol freático (também chamada água rasa). Ela era destinada em tubulação e torneiras próprias, devidamente lacradas e identificadas, para a limpeza das áreas comuns e rega do jardim.

O Condomínio Edifício Fernando Thomé, na Vila Mariana, em São Paulo, adotou uma solução simples, mas bastante eficaz, para reduzir o consumo da água e manter os reservatórios minimamente abastecidos, mesmo em caso de interrupção do abastecimento na rede pública. Desde janeiro, ele faz um controle diário do gasto, através de planilha atualizada e afixada nos elevadores, apontando sua correlação com a meta estabelecida pela administração.

"Só quando a água chega lá, aprende-se a nadar. Em nosso caso, é a falta dela que nos tem forçado a buscar um uso mais racional do precioso líquido."

Como fala o dito popular, “só quando a água chega lá, aprende-se a nadar”. Em nosso caso, é a falta dela que nos tem forçado a buscar um uso mais racional do precioso líquido.

Disponíveis para descargas diretas, torneiras e chuveiros, dispositivos economizadores da DRACO são de fácil instalação e acabam com o desperdício.

Software é gratuito e pode gerar economia de 20% nos edifícios

O ambientalista Gilmar Altamirano, fundador da organização não-governamental Universidade da Água, compara a seca atual nos reservatórios de São Paulo a um cenário de escassez de guerra. Com um agravante estrutural: “Em todos os lugares do mundo, 70% da água é destinada à agricultura, 20% à indústria e 10% às residências. Em São Paulo e região metropolitana, inverte-se o processo: são 22 milhões de pessoas bebendo água. Se cada um economizasse 30%, não precisaríamos, talvez, fazer rodízio.”

Durante a realização da 5ª Edição de Homenagem às Síndicas pela Direcional Condomínios, no dia 11 de fevereiro, em São Paulo, a principal solução debatida para o enfrentamento da crise da água foi a implantação de processos de reuso e também de captação da chuva. Por exemplo, a síndica Nelza Huerta instalou, bem antes da escassez atual, um sistema sofisticado de reuso (de água descartada pelas máquinas de lavar roupa e também da limpeza das áreas comuns) e de armazenamento pluvial. Os projetos do condomínio de Nelza, o Maison Du Rhone, no bairro do Campo Belo, foram acompanhados por técnicos e têm sido mostrados ao longo do tempo pela mídia.

A cidade de São Paulo possui aproximadamente 25.000 piscinas de variados tamanhos em uso nos condomínios residenciais, clubes, associações e outros. Todas as piscinas necessitam de manutenção e limpeza semanal, procedimento no qual se estima ocorrer um desperdício de aproximadamente 1,2 bilhão de litros por ano, o que corresponde a 120.000 caminhões pipas de 10.000 litros cada.
A água da piscina sofre ação de ventos e chuva e se contamina com poeira, folhas e também com a gordura liberada dos protetores e bronzeadores e pela própria pele dos usuários, além de suor e urina.

A adoção de medidas de economia d'água é realidade em alguns condomínios desde muito antes da atual escassez dos reservatórios que abastecem as grandes cidades brasileiras, especialmente São Paulo. Além da preocupação com a sustentabilidade, elas foram motivadas pela necessidade de os gestores baixarem os custos e fazer caixa para investir em obras e manutenção.

O tema água se encontra no topo das prioridades dos síndicos para 2015. Eles precisam correr contra o relógio para baixar o consumo e garantir o abastecimento interno, com medidas que incluem da gestão diária do hidrômetro à individualização, poço artesiano, reuso etc.

O aproveitamento de água da chuva tem sido cada vez mais uma opção para economizar água em condomínios. Devido à crise hídrica houve um aumento na procura por este sistema, pelo benefício altamente sustentável que o mesmo oferece.

O Departamento de Água e Energia Elétrica do Estado de São Paulo (DAEE) registrou neste ano aumento do número de pedidos para exploração de poços artesianos nas cidades atingidas pela falta d’água. Para o geólogo Everton de Oliveira, secretário executivo da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (ABAS), parte significativa do consumo da população vem hoje dos poços. Na Capital paulista, a proporção atinge a 25% dos domicílios.

As reservas dos mananciais que abastecem São Paulo e a região metropolitana apresentam os piores níveis de sua história. A escassez torna imperativa a economia de água pelos condomínios.

Está lançado o desafio: 15 condomínios de Moema, bairro da zona sul de São Paulo, fazem parte da Disputa de Condomínios, campanha que tem como objetivo estimular os moradores a utilizar água de maneira racional, sem desperdícios.

O reuso da água da chuva para fins não potáveis é uma das boas alternativas que os síndicos encontram para diminuir o consumo de água nas edificações. Além de configurar prática socioambiental responsável, ao contribuir para reduzir os impactos sobre o patrimônio natural, a medida pode resultar em uma economia média de 20% sobre a conta ao final do mês. Mas o sistema de captação tem que estar adequado à realidade do empreendimento. Segundo o engenheiro Paulo Augusto Romera, do Centro Tecnológico de Hidráulica (CTH) do Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo (DAEE), o mais utilizado é o de captação simples, que emprega caixas d’ água. “De qualquer maneira, a instalação vai depender das condições de nível do terreno e das necessidades dos moradores”, esclarece.

As outorgas dadas pelo DAEE de São Paulo para exploração de poço artesiano aumentaram quase 10% neste ano. Com o uso desta fonte, condôminos pagam apenas taxa de esgoto.

ECONOMIA E QUALIDADE NAS EDIFICAÇÕES COM TUBULAÇÕES EM FERRO

A água turva ou amarelada que costuma sair das torneiras nos prédios com encanamento em ferro galvanizado provocam insegurança entre os usuários, temerosos de eventuais danos à saúde. “A primeira impressão é de que as tubulações estão enferrujadas, mas na verdade o que está ocorrendo é o arraste das incrustações formadas no seu interior”, informam os técnicos da Acquality. Eles lembram que essas formações têm origem nos próprios minerais da água, podem trazer problemas ao organismo humano, mas que seus principais prejuízos recaem sobre o bolso.

Uma das possibilidades de economizar água está no seu reaproveitamento, especialmente da pluvial. A engenheira civil Andrea Françoise Sanches de Sousa, autora de um estudo de mestrado defendido na USP sobre o reuso no Condomínio Residencial Valville I, em Santana do Parnaíba, produziu um texto para os síndicos a pedido da Direcional, apontando benefícios, mas também os procedimentos necessários. Confiram aqui o texto feito exclusivamente pela engenheira para a Revista Direcional Condomínios.

Do monitoramento diário à individualização, os síndicos buscam a racionalização do consumo e uma conta menor no final do mês, mas ainda têm muitas dúvidas sobre as soluções possíveis. A convite da Revista Direcional Condomínios, técnicos da Sabesp visitaram um condomínio e mostraram como vencer a batalha contra o desperdício. Confiram.

Em lugar dos transtornos causados pela reforma das instalações hidráulicas, o tratamento físico-químico pode garantir a qualidade da água consumida pelos condomínios que costumam ter problemas com ferrugem. Também pode ser adotado por aqueles que pretendem utilizar poços semiartesianos ou adotar a prática do reuso de água de mina. No primeiro caso, a Acquality, empresa com treze anos de mercado, oferece tratamento químico no combate às incrustações que se formam no interior das instalações hidráulicas em ferro galvanizado e deixam a água com turbidez e coloração ferruginosa.

Tratar a água é ser responsável

Item de maior importância dentro dos condomínios, a caixa d´água muitas vezes é relegada a segundo plano pelo síndico.

Uma alternativa viável

A cultura da abundância cede lugar à preocupação com a sustentabilidade ambiental e com a saúde financeira dos condomínios. Confira algumas das soluções existentes.

A conta de água representa de 10% a 15% do total das despesas ordinárias de um condomínio. Portanto, mesmo uma pequena economia no consumo pode representar uma boa redução de custo. Segundo um relatório coordenado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), se medidas urgentes não forem tomadas para implementar o uso racional dos recursos hídricos, até 7 bilhões de pessoas poderão conviver com a falta de água no ano 2050. O número corresponde aos habitantes de 60 países, ou 75% da população mundial. "Nenhuma região será poupada do impacto dessa crise, que toca todas as facetas da vida, da saúde das crianças à capacidade das nações de providenciar comida", disse o japonês Koichiro Matsuura, diretor-geral da Unesco. Conforme o relatório, "problemas de postura e de comportamento estão no centro dessa crise: inércia dos governantes e uma população que ainda não se deu conta da escala da calamidade".