Incêndio: Um ano depois da tragédia na boate Kiss, improvisos continuam e afetam também condomínios

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As notícias de incêndios nas edificações continuam frequentes no Brasil, mesmo depois de o País ter sido sacudido por uma tragédia irreparável: o fogo na Boate Kiss, em Santa Maria (RS), que provocou a morte de 242 jovens, a maioria universitários, e deixou ao menos 42 com graves sequelas físicas ou respiratórias. O sinistro ocorreu na noite de 27 de janeiro de 2013 e, de lá para cá, mesmo que debates acalorados tenham dominado a mídia, poucos resultados concretos foram gerados. Ainda não houve nenhum responsável preso ou condenado em Santa Maria (e qualquer autoridade pública indiciada), e os incêndios prosseguem, fazendo vítimas ou deixando prejuízos.

No último dia 22 de janeiro, por exemplo, o fogo atingiu apartamentos em dois andares de um prédio residencial próximo da estação de trem Júlio Prestes, centro de São Paulo. Dois meses antes, em novembro passado, outro edifício de moradias teve que ser evacuado também na área central, depois que o fogo se alastrou a partir de uma academia de ginástica localizada no térreo. E o Auditório Simon Bolívar, pertencente ao Memorial da América Latina, foi devastado pelas chamas. Segundo a cobertura dos jornais da época, o incêndio no auditório foi agravado por uma conjugação de fatores negativos, como brigadistas mal preparados, falta de água nos hidrantes e inexistência de saída de emergência, o que dificultou o trabalho dos bombeiros.

PROBLEMAS EM USOS E COSTUMES

Para a arquiteta Vanessa Pacola Francisco, que coordenou uma cartilha de inspeção para os sistemas de incêndio, lançado há pouco tempo pelo Ibape-SP, falta uma cultura preventiva aos brasileiros. De outro lado, sobram improvisos. No caso dos imóveis residenciais, Vanessa pontua que a principal origem das ocorrências vem do mau uso da rede elétrica e dos equipamentos, bem como da mania de se apelar às velas em situações de apagões. “Não existe entre nós, por exemplo, a cultura de usarmos blocos autônomos nas unidades, uma solução bastante empregada nas saídas de emergência para a falta de energia. Dentro de casa deveríamos ter pelo menos um bloco autônomo, apropriado, carregado, que substituísse a vela”, explica Vanessa.

Coordenadora da Câmara de Inspeção Predial do Ibape (Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia de São Paulo), Vanessa preocupa-se, também, com a sobrecarga da rede. “Há prédios que sequer foram dimensionados para ter micro-ondas. Assim, na posição do síndico, ele deve ter claras as alterações que estão ocorrendo nas unidades, verificando se estão ou não compatíveis com a rede elétrica da edificação.” O ideal seria promover um levantamento dos aparelhos domésticos em uso em cada unidade e atualizá-lo periodicamente, defende. Outra medida importante seria tornar obrigatória a notificação de toda obra ou reforma elétrica que o morador vier a promover no imóvel.

AVCB, UM ATESTADO DE SEGURANÇA

Do ponto de vista do conjunto da edificação, o subsíndico e engenheiro eletricista Jair de Andrade propõe aos gestores ficarem especialmente atentos aos condutores elétricos antigos, os quais devem ser substituídos pelo menos a cada 15 anos. Uma dica é checar o consumo, que aumenta nas situações de superaquecimento (e há vários sinais indicando picos de consumo, como desarmes de disjuntores, lâmpadas piscantes e mau funcionamento dos aparelhos). É indispensável ainda observar “remendos” ou “gambiarras”, mas, de outro lado, sempre buscar laudos de especialistas, baseados nas normatizações.

O Estado de São Paulo possui uma das legislações mais rígidas na área, o Decreto 56.819/2011, que é acompanhado de dezenas de Instruções Técnicas baixadas pelo Corpo de Bombeiros. Tudo isso está respaldado em parâmetros técnicos da Associação Brasileira de Normas Técnicas e representa um bom guia para que o síndico obtenha e mantenha atualizado o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), documento obrigatório às edificações. Ele representa um bom atestado de que o sistema preventivo e de combate ao fogo encontra-se em dia.

REFORMAS

O prédio do subsíndico Jair de Andrade, condomínio de 50 anos e 40 unidades localizado em Pinheiros, São Paulo, terá que passar por muitas adequações para ficar em dia com o AVCB. Ele já começou o processo, através de uma ampla reforma elétrica, que tomou como base um laudo desenvolvido por um especialista, além de um levantamento dos equipamentos em uso nas unidades. Também foram analisadas as ligações entre as prumadas e cada uma das unidades, onde se descobriram emendas indevidas e precárias.

“Fizemos um estudo de carga, depois confrontamos com o consumo dos moradores. Percebemos aí que nosso centro de medição estava fora dos padrões. Quanto à carga, não havia necessidade de seu aumento e o dimensionamento da energia entregue pela concessionária estava correto.” Como resultado de toda essa auditoria, o condomínio partiu para as obras: substituiu o centro de medição e as prumadas de elétrica e agora irá implantar o hidrante, intervenção cara e complexa. E buscará aprovar junto ao Corpo de Bombeiros um projeto preventivo, o qual servirá para orientar obras futuras, até que o condomínio esteja pronto para receber o AVCB.

Matéria complementar da edição - 187 de fev/2014 da Revista Direcional Condomínios