Saia justa na assembleia do condomínio? Fuja das armadilhas

Escrito por 

Síndico mal-humorado não combina com assembleia, assim como condôminos que tentam colocar problemas pessoais em pauta. Ao decidir sobre os temas mais importantes do condomínio, essas reuniões devem funcionar como exemplo de harmonia.

No Condomínio Cinderela, em Higienópolis, a síndica Maria das Graças e sua equipe procuram conferir objetividade às assembleias

Psicóloga com experiência na área de Recursos Humanos em empresas privadas, a síndica Maria das Graças Amaral de Mello observa uma diferença fundamental entre o ambiente corporativo e o dos condomínios: “Na empresa, quando você convoca um treinamento, as pessoas comparecem de forma mais comprometida. Já numa assembleia de condomínio, onde deveria haver um vínculo maior, elas não se sentem comprometidas, a maioria sequer olha para os balancetes demonstrados no boleto”.

Aí reside, em sua análise, uma das principais razões para a falta de popularidade das assembleias, independente do porte e perfil dos condomínios. O curioso é que a maioria não comparece e “depois se sente no direito de reclamar”, diz Maria das Graças. Também falta “profissionalismo” no momento de o condômino se posicionar diante do síndico, em geral considerando-o um “empregado” contra quem se descarrega o nervosismo acumulado ao longo do dia, avalia.

Ela acredita que um dos desafios dos organizadores é tornar esses encontros objetivos, em que o síndico demonstre autocontrole para “desarmar o espírito conflituoso”. “Um síndico mal-humorado passa isso para a assembleia.” Se ocorresse no campo profissional, uma postura assim, vinda de um chefe autoritário, demonstraria insegurança e fragilidade, e comprometeria a produtividade da equipe, emenda a síndica. Segundo ela, o raciocínio se aplica a uma assembleia, por isso a síndica orienta que seus colegas procurem conciliar firmeza e autoridade com a disponibilidade para ouvir. O ideal é assegurar a tranquilidade da reunião, onde “os ânimos estão mais exaltados”, diz.

Uma das estratégias é jogar peso sobre as figuras do presidente e secretário da mesa, especialmente se estiverem afinados e coesos com o síndico. “Caso ocorra uma saia justa, a equipe defenderá a posição dele.”

Maria das Graças é síndica desde 2010 do condomínio onde reside, o Edifício Cinderela, em Higienópolis, área central de São Paulo. Com 34 unidades e dez andares, o edifício data de 1957 e traz a assinatura do arquiteto João Artacho Jurado, que fez história na paisagem urbana da cidade. No ano passado, Maria das Graças assumiu a gestão de outro residencial do bairro como síndica profissional. Em ambos os condomínios, ela procura conferir transparência e divulgar com antecedência as assembleias para cada condômino, com pautas claras e bem definidas. “Buscamos ter objetividade, não fugir do foco”, afirma.

VITRINE

“A assembleia é a vitrine da gestão administrativa”, observa Cristiano De Souza Oliveira, consultor e advogado especializado em condomínios. “Deve ser planejada, organizada e controlada, no sentido de não se deixar assuntos soltos, paralelos ou estrangeiros entrarem na discussão, bem como se manter a ordem relativa aos bons costumes. Precisa ainda, principalmente, ser harmoniosa com o interesse coletivo.” Cristiano reconhece, porém, que o bom andamento dos trabalhos costuma ser prejudicado por armadilhas como:

- Falta do hábito de se escutar o outro;

- Ausência de transparência e de informações precisas sobre os assuntos em pauta; e,

- Excesso de ‘achismos’ entre os participantes, com predomínio de motivações emocionais sobre fatos e argumentos racionais.

São elementos com potencial de “provocar ataques diretos, ou pior, discussões acaloradas em torno dos ‘achismos’”. Perde-se então o foco e, não raro, se avança na noite em uma reunião desgastante para todos. Para evitar o quadro, é importante que o síndico esteja “cercado e calçado de informações corretas”.

Cristiano justifica que as assembleias representam o espaço definido em lei para que o condomínio decida coletivamente sobre os assuntos de seu interesse e “legisle” pela solução de causas comuns. “A assembleia do condomínio é um híbrido. Além de definir, por exemplo, sobre horários de funcionamento de uma área comum do prédio, ela funciona como instituição interna que delibera sobre a prestação de contas, multas punitivas e transferência de poderes ao síndico, entre outros.”

Matéria publicada na edição - 196 de nov/2014 da Revista Direcional Condomínios