Hidráulica: Conta d’ água alta estimula reformas e caça-vazamentos

Escrito por 

Os síndicos dão hoje atenção extra ao sistema hidráulico dos prédios, principalmente depois que as contas de consumo da água chegaram a dobrar em alguns locais com o fim da política de descontos da Sabesp, acompanhado da elevação das tarifas, a partir de maio passado.

No Condomínio Conjunto Brasil Pitoresco, o custo d’água cresceu quase 100% em ambas as torres, no intervalo de cinco meses (entre março e julho deste ano). Mas o consumo manteve-se estável e até caiu em alguns períodos, face a dois programas aplicados pela administração: reforma hidráulica para eliminar vazamentos e campanhas educativas.

A conta poderia ser ainda mais elevada se não tivesse havido troca das tubulações em ferro por cobre, aponta o síndico Wilson Meireles. “Antes da substituição, gastávamos 3.300 m3 de água e agora estamos em 1.800 m3, consumo ainda elevado”, analisa. O condomínio localizado no bairro do Paraíso, São Paulo, fez outras intervenções no sistema, como implantação do registro geral por prumada (são cinco em cada torre), substituição de todas as bombas d’água e a instalação de mais válvulas redutoras de pressão. De outro modo, a administração apela às campanhas de conscientização para que os condôminos controlem torneiras e chuveiros. A estratégia tem sido bem-sucedida, afirma Wilson Meireles, que fica de olho nas médias de consumo dos prédios.

Em um condomínio com seis banheiros por unidade, localizado na Rua Haddock Lobo, região dos Jardins, em São Paulo, a estratégia principal recaiu sobre a troca de reparos ou mesmo dos aparelhos de válvula de descarga de todos os sanitários dos 52 apartamentos, diz o síndico Roberto Piernikarz. No prédio, de 63 anos, foram instalados ainda redutores de vazão para os chuveiros. O impacto foi significativo: o consumo caiu “em mais de 60%”, anota.

Para a síndica profissional Lígia Ramos Volpi, os problemas, entretanto, “não são exclusivos das edificações antigas”. Os prédios mais novos também reservam sustos com vazamentos, a partir de “conexões malfeitas”, entre outras falhas de projeto ou execução. “Observamos erros grosseiros em angulações ou tubulações de água quente que não suportam a temperatura”, ilustra. Síndica profissional há 20 anos, Lígia Volpi aponta medidas básicas e inevitáveis para a manutenção ou reforma hidráulica:

-> Leitura diária dos registros de entrada d’água, com vistas, entre outros, a identificar “vazamentos ocultos”;

-> Evitar remendos, que podem comprometer o restante da tubulação;

-> Em prédios muito antigos e mau estado de conservação, projetar uma nova prumada técnica, abandonando a original;

-> Nos edifícios em implantação, “receber bem a obra, ficar atento aos estouros frequentes nas tubulações e controlar o uso”; e,

-> Contratar sempre mão de obra qualificada.


Barrilete do Condomínio Brasil Pitoresco: "vitrine" de uma manutenção hidráulica em ordem, como registros corretamente identificados e tubulação de incêndio na cor adequada (vermelho)

 

AJUSTES PARA EVITAR SUSTOS E CONTROLAR CONTAS

Segundo o engenheiro Ayrton Barros (Foto acima), que atua com engenharia diagnóstica e segurança do trabalho, “a manutenção inadequada é o motivo dos problemas de hidráulica em um condomínio”. “Barrilete, tubulações, reservatórios d’água, tudo é fonte de problema”, observa o especialista, que ainda inclui na lista válvulas reguladoras de pressão e mecanismos de descarga das unidades.

Seguem abaixo dicas do engenheiro para operação e manutenção dos principais componentes do sistema hidráulico ou daqueles considerados vilões do consumo:

 

- Válvulas tipo hydra

“Em edifícios mais antigos, que utilizam descarga de vaso sanitário com válvula tipo hydra, normalmente elas são as vilãs do consumo elevado. O tempo de fechamento da descarga pode estar aumentado e, por falta de referências, os moradores se acostumam com o funcionamento inadequado, não percebem a demora para fechar a água. Isso ocorre devido à falta de manutenção, que pode ser desde uma simples regulagem à necessidade de substituição do reparo.”

- Caixas d’água: impermeabilização

“Infiltrações acontecem sob os reservatórios. Sua impermeabilização tem garantia de até cinco anos, segundo o Código do Consumidor. Na prática, porém, o cloro contido na água pode desgastá-la e comprometer sua funcionalidade, logo recomenda-se a renovação a cada dois anos, dependendo da concentração do cloro.”

- Tubulações em ferro

“A tubulação de ferro se oxida com o passar dos anos e também fica obstruída pelo depósito de sais minerais contidos na água. Estes também são agressivos a determinadas tubulações, assim como carbonatos e bicarbonatos de cálcio e magnésio. Não podemos deixar de citar ainda a corrosão galvânica em caso de contato direto com materiais diferentes. Historicamente, o cobre é a escolha ideal para substituí-la, mas existem tubulações de PVC, PPT, CPVC, PEX ou PPR. Não se tem ainda um tempo de utilização suficiente para avaliar a vida útil desses materiais, mas se estima que a de PVC atinja de 20 a 25 anos. O ferro galvanizado tem vida útil estimada entre 12 e 18 anos. Já o cobre ultrapassa 80 anos.”

- Barriletes

“Os registros normalmente só são manuseados em caso de algum problema na rede, quando, muitas vezes, encontram-se travados. A manobra inadequada de registro tipo gaveta, deixando-o meio aberto no lugar de totalmente aberto, favorece o depósito de sais e calcificação e perda de funcionalidade. A ABNT NBR 5674/2012 prevê testes de abertura e fechamento dos registros dos subsolos e cobertura (barrilete) a cada seis meses.”

- Válvula redutora de pressão

“Em geral, mais pressão significa mais vazão e consumo maior. Essas válvulas devem ser reguladas conforme a orientação de cada fabricante; o usual é a cada ano. Também de acordo com esta orientação, periodicamente (em intervalos de três anos, em média) deve ser efetuada a manutenção da válvula com a substituição do reparo.”

- Medida preventiva: Controle diário do registro de entrada d’água

“Esse é o principal e mais fácil meio de avaliar se existe algo de anormal. O aumento da média de consumo diário, não havendo motivo que o justifique, indica alguma anormalidade, que pode ser um vazamento. É importante que essa média diária seja também comparada a leituras de outras datas, pois pequenas evoluções no consumo podem passar despercebidas, porém, elas podem ser causadas por vazamento ainda pequeno.”

Matéria publicada na edição - 216 - set/16 da Revista Direcional Condomínios

Não reproduza o conteúdo sem autorização do Grupo Direcional. Este site está protegido pela Lei de Direitos Autorais. (Lei 9610 de 19/02/1998), sua reprodução total ou parcial é proibida nos termos da Lei.