Diálogo e mediação na resolução de conflitos. Um perfil da gestão do síndico profissional Adriano Santos

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O imediatismo que marca a vida atual, somado a problemas construtivos nos novos prédios, elevou o potencial de conflitos no condomínio. O síndico profissional Adriano Santos fala sobre sua experiência com o diálogo e a mediação no ambiente coletivo.

Relacionamento humano é a parte que exige hoje mais atenção e trabalho do gestor

Os problemas são os de sempre, vagas de garagem e barulho, acrescidos de um novo ingrediente: falhas ou características construtivas nas novas edificações que potencializam os primeiros. A eles se somam ainda expectativas não cumpridas na casa nova, além de empreendimentos muito povoados e falta de cultura para o convívio coletivo. Está feita a mistura que tem elevado a fervura dos conflitos nos condomínios, impondo um desafio extra aos gestores no capítulo reservado ao relacionamento humano.

A maior parte dos conflitos vem da relação entre as unidades, especialmente no quesito barulho, afirma o síndico profissional Adriano Santos, que atua há 15 anos na área, primeiro na administração de condomínios e agora na sindicância, com seis empreendimentos tipo clube em carteira. “A qualidade [falta] na entrega das obras tem influenciado bastante na geração de conflitos entre os moradores, por causa da acústica, que não é tão boa quanto antes.”

Adriano exemplifica: “Temos condôminos que não conseguem dormir porque o morador de cima possui hábitos noturnos, como cuidar de um bebê”. Ou seja, até momentos triviais vividos em uma unidade acabam incomodando o outro pela interferência do projeto construtivo e da baixa qualidade dos materiais utilizados na edificação. Nesse sentido, Adriano destaca ainda que alguns novos residenciais dispõem de plantas que colam a parede do dormitório de um apartamento com a cozinha do vizinho. Se este resolve cozinhar às 22h, o indivíduo ao lado tem dificuldade para dormir.

“Antes o problema do barulho vinha de pontos que podiam ser trabalhados pelo Regulamento Interno, que são até mais fáceis de gerenciar, como o uso de uma furadeira fora de hora. Hoje entram questões relacionadas aos hábitos, é o grande problema que temos em condomínio.”

Em um condomínio-clube localizado no bairro da Mooca, o síndico encontra-se há meses envolvido com as discussões entre duas famílias, que ocupam unidades uma acima da outra. O morador de baixo alega não conseguir dormir, porque a outra família tem um bebê. “Este é um problema decorrente de hábito, pois ali existem limitações na estrutura do empreendimento, tornando-se perceptível qualquer barulho, como a abertura de uma gaveta.” De acordo com o síndico, o ruído reverbera também através da tubulação do banheiro ou se torna perceptível no arrastar de uma cadeira alguns andares abaixo da unidade de origem, criando um cenário imbrincado.

DA ORIGEM DO ‘BARULHO’

Na tentativa de solucionar o conflito estabelecido no residencial da Mooca, o síndico já promoveu inúmeras rodadas de conversa entre os envolvidos, primeiro para conhecer o problema e, depois, promover o diálogo. Como a temperatura dos encontros subiu e não houve consenso, ele acabou contratando uma profissional para fazer a mediação entre as partes. Também foi solicitado o parecer técnico de um engenheiro. “Chamamos terceiros para que o conflito não tenha o caráter de uma pendência pessoal do gestor contra um ou outro. Não podemos proibir as pessoas de terem seus hábitos quando esses estão dentro da normalidade. Não há como multar isso. Mas claro que a unidade pode tentar mudá-los para amenizar o ruído, assim como o morador de baixo pode tomar providências para melhorar a acústica de seu imóvel.”

Neste mesmo condomínio, Adriano Santos contabiliza uma vitória na solução de conflitos decorrentes de atos de vandalismo de jovens e adolescentes nas áreas comuns e que aconteciam havia meses, antes de ele assumir a gestão. A estratégia adotada foi conhecer a causa “de tanta depredação”, chamando-os para conversarem, juntamente com os pais. “Identificamos que uma das motivações disso estava no fechamento constante do campo de futebol para manutenção, este tinha um piso em grama natural que o obrigava a ficar dois dias sem uso, depois de um com atividades. Percebemos que os adolescentes não tinham onde queimar energia.” Após os encontros, o gestor propôs e conseguiu aprovar a troca do revestimento do campo, incrementando o espaço com a construção de um novo salão de jogos. “Com isso resolvemos quase todos os problemas de áreas comuns”, afirma Adriano.

RECEITUÁRIO

Graduado em administração e com experiência em gerência, Adriano Santos criou um receituário próprio para atuar diante dos conflitos, baseado nas posturas abaixo:

– Comunicação: “O gestor deve estar atento a todos os problemas e reclamações, mesmo àquelas informais. Com isso já é possível perceber algum ponto de conflito e trabalhar a informação através de comunicados.” Por exemplo: Enviar a todos um alerta sobre determinado problema de acústica relacionado à estrutura do prédio, devidamente corroborado por laudo técnico, evitando que isso se torne um problema pessoal entre moradores e orientando-os a abrir chamados junto à construtora;

– Imparcialidade: “Escutar sobre o problema, tentar uma solução entre as partes, agir de acordo com as informações que o síndico dispõe [como Regulamento Interno etc.], evitando julgar e ser tendencioso”;

– Equilíbrio e assertividade: “Conduzir as reuniões demonstrando que se está agindo de acordo com as informações disponíveis, sempre com educação, mas firmeza, para que as partes entendam o seu papel de síndico do condomínio”;

– Suporte: “Trabalhar sempre dentro do Código Civil, Convenção, Regulamento Interno, laudos técnicos etc.”; e,

– Mediação: “Quando necessário, utilizar os recursos e os espaços de mediação de conflitos.”

ANSIEDADE DO IMEDIATISMO

O síndico reconhece, no entanto, que atua hoje em um cenário de “muita impulsividade por parte das pessoas”. “Elas estão agindo mais com a emoção do que razão, mais focadas no ‘eu’ que no coletivo. Com a atual facilidade de acesso à informação, as pessoas acham que sabem tudo e entram numa conversa ou discussão desconsiderando o embasamento técnico. Além disso, o conflito não se resolve com imediatismo. Há uma expectativa de que tudo seja resolvido na hora e, mesmo que haja um processo em curso, para o morador é como se o síndico não estivesse fazendo nada.”

Em um livro recém-lançado nos Estados Unidos e em Portugal, “A estranha ordem das coisas”, o médico neurologista e neurocientista António Rosa Damásio pontua que, de fato, na atualidade, as pessoas têm tido pouco tempo e calma para o discernimento. Português, Damásio é um dos principais nomes da neurociência no mundo, estuda sentimentos, representações e emoções, e leciona na Universidade do Sul da Califórnia. Ao ouvir a citação a este autor pela reportagem da Direcional Condomínios, Adriano arrematou: “Nossa área exige hoje que se faça mais gestão de pessoas que do empreendimento em si, portanto, se o síndico não tiver equilíbrio para lidar com as reclamações, ele não conseguirá cuidar do condomínio”.

Perfil construtivo dos novos residenciais é potencial fonte de conflitos entre moradores; problemas com acústica são recorrentes

Saiba+

- Síndico Adriano Santos: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. .


Matéria publicada na edição - 230 - janeiro/2018 da Revista Direcional Condomínios

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