Quinta, 02 Abril 2020 00:00

O condomínio na pandemia do Coronavírus (Covid-19): Consumo maior de energia nas unidades traz riscos?

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Será que a instalação elétrica foi projetada para tanta gente usando eletroeletrônicos ao mesmo tempo no prédio?

Quando se projeta uma instalação elétrica corretamente e com base nas normas técnicas vigentes, realizamos cálculos que levam em consideração:

- As cargas (equipamentos que serão ligados nas tomadas);

- A distribuição das tomadas;

- Os tipos de tomadas (se serão usadas para cargas maiores, como chuveiro e torneira elétrica, aquecedores; ou só para cargas simples, como TV, carregadores de celular etc.);

- O tipo de tensão que será usada (115, 27 ou 220 Volts);

- E alguns outros fatores importantes.

Dentre estes, quero destacar um fator de correção, usado para que a instalação não fique “superdimensionada”. É o fator de simultaneidade, que leva em conta quantos equipamentos estarão ligados ao mesmo tempo. Este fator considera dados estatísticos para calcularmos as cargas. Além disso, o fator de simultaneidade (com características relativamente diferentes) é utilizado para o dimensionamento das redes de distribuição de energia, na definição de geradores, sejam eles solar, à diesel, a bateria (UPS) e outras ações.

Pois bem, qual o motivo desta introdução?

É demonstrar as razões das preocupações que devemos ter com a instalação elétrica de nossa casa ou apartamento e, consequentemente, do prédio.

Entre elas, a primeira preocupação que devemos ter é: “Quando a instalação do meu prédio / apartamento / casa foi revisada e atualizada para as condições atuais de utilização?”.

Vale lembrar que o uso da eletricidade cresceu muito nos últimos anos, com vários equipamentos instalados e sendo utilizados simultaneamente. Então, se a resposta é “mais do que cinco (5) anos”, comece a desconfiar que algo pode estar errado.

A segunda preocupação que devemos ter é: “Qual fator de utilização foi usado no projeto da casa ou do prédio em que você mora? Será que levou em consideração várias pessoas utilizando a energia ao mesmo tempo?”.

Cenário atual

Vamos falar do cenário atual: O mês de fevereiro de 2020 começou a trazer uma mudança de comportamento das pessoas impostas pela pandemia do Covid-19. Gradativamente elas foram colocadas dentro de casa para se protegerem, em isolamento e distanciamento social, e, consequentemente, diminuírem a possibilidade de contágio. Isso nós sabemos bem, mas com esta mudança de cenário, pessoas que trabalhavam em escritórios passaram a trabalhar em casa, utilizando equipamentos que normalmente não usavam durante o dia, o que inclui computadores, aparelhos de ar condicionado, monitores etc.

Também começou a haver a permanência em casa por mais tempo. Em função disso, surgiu a necessidade de preparar as refeições, onde equipamentos de micro-ondas, fornos elétricos, panelas elétricas e até as torradeiras e cafeteiras passaram a estar ligadas durante o dia em uma residência onde, antes do atual cenário, ficavam poucas pessoas ou nenhuma durante boa parte do tempo; consequentemente, com pouca utilização simultânea desses aparelhos.

E é aí que mora o perigo!

Primeiro, porque se a instalação elétrica do imóvel e/ou prédio não foi revisada nos últimos 5 anos, você já está correndo um sério risco de tê-la subdimensionada para a sua utilização normal. Segundo porque, conforme expusemos em relação à situação gerada pela pandemia, você e mais pessoas estão demandando a rede elétrica ao mesmo tempo. Neste caso, mesmo que tenha sido feita uma revisão anterior das instalações, não foi considerado este fator de simultaneidade. Então, estamos em um ambiente de risco, o qual exige seguir várias recomendações, para que não haja sobrecarga e, em consequência, um aquecimento que possa evoluir para um incêndio.

À propósito, confiram os dados sobre a ocorrência de incêndios no Brasil em 2019, publicados no Anuário Estatístico de Acidentes de Origem Elétrica da Abracopel. Estes incêndios cresceram muito de 2018 para 2019 e a maioria aconteceu em ambientes residenciais.

Lembrando que a “quarentena só aconteceu agora”, então, a chance de aumentarmos este número é grande. Os dados mostram que 39% dos acidentes de origem elétrica foram causados por incêndios (Gráfico 1).

Causas de incêndios em 2019 no País

Gráfico 01

Gráfico total de acidentes elétricos
Fonte: Abracopel


Gráfico 02

Dados totais de acidentes elétricos
Fonte: Abracopel

Se olharmos o detalhamento dos incêndios, veremos que a maioria deles ocorreu em ambientes residenciais, situação que acende um alerta maior ainda. No gráfico 2 acima, é possível verificar que nos incêndios gerados a partir da eletricidade em 2019 ocorreram 74 mortes, sendo que 25 delas foram em ambiente residenciais. Nestas mortes, muitas crianças e idosos foram as principais vítimas.

Gráfico 03

Grafico incêndios por sobrecargas
Fonte: Abracopel

Tomadas: Sobrecarga e choque elétrico

Mas não é só com a sobrecarga que devemos nos preocupar neste momento de quarentena. Com a adaptação para o trabalho em casa, vem naturalmente a “falta de tomadas” e, então, a solução é usar dispositivos como benjamins, TE´s e extensões ou filtros de linhas, como também são conhecidos. E aí existem dois riscos, o primeiro é a sobrecarga na tomada, que pode gerar um incêndio; o segundo é com o choque elétrico, pois o uso destes dispositivos pode reduzir a segurança das tomadas, possibilitando que as pessoas levem choque ao conectar ou desconectar os equipamentos. Há ainda o risco de choque em extensões danificadas e distribuídas pelos ambientes, através de fios expostos energizados.

Ainda usando o Anuário da Abracopel, observamos que em 2019, 697 pessoas perderam a vida por choque elétrico e, a maioria delas (228), sofreu o problema dentro de casa. Observe no gráfico 4 que as extensões e benjamins causaram 25 mortes, enquanto os fios partidos dentro de casa (que representam as instalações elétricas mal cuidadas) vitimaram quase 100 pessoas.

Gráfico 04

Acidentes por choque elétrico
Fonte: Abracopel

Neste momento, precisamos ter cuidado redobrado com o Coronavírus (Covid-19), mas não podemos esquecer de verificar que o ambiente onde vivemos pode esconder outros riscos, os quais também nos levam a situações de acidentes, muitas vezes fatais. Recomendo a necessidade de os síndicos (para o prédio) e condôminos (para as unidades) revisarem a instalação elétrica, contratando um profissional habilitado e atualizado para avaliação imediata.

Mas, por enquanto, cuide das coisas básicas como fios soltos ou desencapados, não conecte muitos equipamentos nas tomadas, evite o uso de aparelhos mais potentes como micro-ondas, chuveiro e torneira elétrica por um período longo. Além de economizar energia, você contribuirá para evitar acidentes.


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Edson Martinho

Engenheiro Eletricista, é diretor-executivo da Abracopel (Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade). Professor, palestrante e articulista. Escreveu e publicou o livro "Distúrbios da Energia Elétrica" (Editora Érica, 2009)
Mais informações: edson@lambdaconsultoria.com.br