Perfil do zelador - Sílvio Roberto de Sá

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Um profissional empreendedor

A direcional condomínios presta homenagem aos zeladores pelo seu dia (comemorado em 11 de fevereiro), trazendo nesta edição o exemplo vitorioso de um profissional empreendedor e multitarefas, qualidades valiosas ao exercício da função.

Todos os dias, Sílvio Roberto de Sá levanta às 4h20, sai do bairro de Pirituba, periferia Oeste de São Paulo, onde mora de aluguel com a segunda mulher e a filha de 5 anos, e chega pouco depois das 6 horas ao Edifício J. I. Arbex, um prédio comercial localizado na Rua Vergueiro, próximo à estação Ana Rosa do metrô. A rotina é quebrada somente aos domingos, único dia em que tira para curtir mais a família e outra filha, uma adolescente de 16 anos. Isso, quando não pega serviços extras. No mais, de segunda a sábado, o zelador cumpre uma jornada extensa e bastante variada, atuando em várias frentes e encarando desde a lavagem do edifício aos serviços de elétrica, hidráulica e pintura; da feitura de contratos de locação das salas comerciais à cotação de preços de serviços; e dos pequenos reparos nos elevadores e portões à administração da garagem, fazendo também, neste caso, o papel de manobrista, de eletricista e pintor.

Aos 36 anos, 1º grau completo, exbombeiro civil em feiras e eventos, Sílvio se autodefine como um “trabalhador multitarefas”, mas na verdade, atua mesmo como um empreendedor. “Para mim não existe obstáculo, procuro transformálo em sucesso”, diz o zelador, que além do salário recebido pela função, multiplica a renda com a administração das vagas de garagem do prédio e pega serviços extras para executar. Habituado ao trabalho duro de quem cresceu na roça e aprendeu desde pequeno a batalhar pela própria vida, Sílvio é muito prestativo. Está sempre pronto para agir, com disposição e muita, “muita paciência”.

Até os doze anos, quando veio a São Paulo, Sílvio viveu em um sítio em Mato Grosso do Sul, plantando e colhendo feijão ou algodão, arando a terra, tratando dos animais, fazendo almoço e andando quilômetros para ir à escola ou levar marmita ao pai na roça. Nascido no Paraná, órfão de mãe desde bebê, diz que foi criado como “escravo”.

“O sofrimento me deu esse gás de querer vencer na vida. Na verdade, pelo que sofri desde muito pequeno, percebo que já venci”, analisa o zelador. Mas em lugar de estender a conversa sobre o passado, Sílvio prefere falar do futuro, do sonho de se tornar patrão de si mesmo, o que lhe dá combustível para cumprir com retidão e naturalidade esta jornada de doze, treze horas diárias.

UM ZELADOR GOVERNANTE

Portanto, é preciso se concentrar no presente, extraindo dele as oportunidades para construir o futuro. Sílvio, por exemplo, está em contagem regressiva para deixar de vez o aluguel, a periferia e o seu despertar nas madrugadas. Conseguiu de seu patrão a cessão de uma casa para morar na Vila Mariana, próximo ao Edifício J. I. Arbex, o que lhe dará mais horas de sono ao dia e uma grande economia, pois também gastará bem menos com combustível e alimentação. O imóvel foi recentemente retomado de uma ocupação, ocasião em que Sílvio sentiu uma grande oportunidade: propôs bancar a sua reforma em troca da moradia. Um investimento que fará o salário render pelo menos 50% a mais no final do mês.

Um prêmio justo para um funcionário que trabalha há sete anos com o síndico e construtor do edifício, José Ibrahim Arbex, seis deles como um zelador “quase síndico”, com autonomia para decidir, comprar, consertar e organizar o serviço dos outros dois funcionários do condomínio, uma recepcionista e um vigia. Segundo Sílvio, o zelador é, na verdade, uma espécie de governante, pois não pode deixar a vida de uma coletividade parar. Afinal, é preciso que os condôminos e demais usuários tenham acesso aos seus locais de trabalho, além de segurança, comodidade e garantia de pleno funcionamento da rede elétrica, hidráulica etc. “O zelador precisa ser bem atirado, senão as coisas não andam. Tem que ser articulado e manter boa relação com todo mundo. E não pode cruzar os braços nem resistir a gastar com o que é necessário”, acredita.

Sem “cruzar os braços”, sua jornada diária se estende até pelo menos 19 horas, mas ele somente encerra o expediente quando o último condômino presente no prédio conclui os trabalhos, apaga as luzes, fecha o escritório e vai embora, deixando para trás um profissional empreendedor que não perde a disposição, nem o bom humor, nem a determinação de construir uma história cheia de conquistas.

Matéria publicada na Edição 154 de fevereiro 2011 da Revista Direcional Condomínios.