Síndico: Vida pessoal x condomínio: quem vence essa disputa?

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Ser síndico é despender tempo e energia para resolver os problemas da comunidade. Saiba como não tornar sua vida um inferno, separando vida particular das atividades condominiais.

No meio da madrugada, o interfone toca. Você acorda sobressaltado e corre para atender. O porteiro conta que há uma briga feia entre convidados de um aniversário no salão de festas e que a polícia foi acionada. A polícia chega, leva os briguentos embora, tudo se resolve sem maiores consequências. Mas cadê a noite de sono tranquila?

Você está em uma reunião de trabalho e o celular toca. É o zelador do seu condomínio, para contar que aquele vazamento de gás era mais grave do que se imaginava: a companhia de gás, por segurança, cortou o fornecimento do condomínio e só poderá fazer o serviço no dia seguinte. Como explicar aos moradores que o banho vai ser frio e que comida, só no microondas?

Situações como essas acontecem com os melhores síndicos. Afinal, fazem parte do inevitável: as pessoas discutem e os canos furam. Não há o que fazer. Mas é possível, sim, minimizar os efeitos danosos desses problemas na saúde e na vida cotidiana do síndico. Como não se deixar abalar e enfrentar os problemas com tranquilidade? Para o administrador de condomínios Sérgio Meira, os síndicos se envolvem demais com o dia a dia do prédio e afetam muitas vezes sua vida pessoal. “Vestir a camisa do prédio 24 horas por dia não é o que traz a eficácia na gestão do condomínio. O síndico deve entender que também precisa de momentos de sossego com a família. Muitos absorvem os problemas do cargo, mas precisam saber equilibrá-los. Ou seja, nem minimizar uma questão muito séria, nem aumentar aquilo que não é necessário”, pondera.

Em seu dia a dia como administrador condominial, Sérgio tem se deparado com um tipo muito comum de síndico: aquele que vive afirmando “que não é empregado dos moradores”. “A função de síndico é uma doação, por isso não gosto dessa postura. Ele também não é o dono de tudo, mas apenas o porta-voz dos condôminos, o operacional. Por isso, é fundamental para o síndico saber ouvir e se comunicar, inclusive para diminuir sua carga. Muitas coisas boas acontecem no prédio sem que os moradores saibam”, constata. Sérgio resume em uma frase: saber delegar, mas não “delargar”.

COMPARTILHAR A GESTÃO

O síndico Newton Xavier de Almeida Junior, há três anos na função no Condomínio Villaggio di Anália Franco, divide as tarefas com os subsíndicos das três torres do empreendimento, que tem 180 apartamentos. Mas, nem por isso deixa de se desgastar com os problemas cotidianos da comunidade. Newton explica a dinâmica da sua administração: um dos subsíndicos cuida da parte de pessoal (funcionários próprios e terceirizados), outro levanta orçamentos para melhorias e obras e o terceiro fica mais com a parte administrativa. Para Newton sobra justamente o contato direto com a administradora e os moradores. “Nunca havia morado em prédio e não imaginava que a vida em condomínio fosse tão complicada. A carga é muito grande para o corpo diretivo. É comum meu interfone tocar à noite, principalmente por reclamações de barulhos nos apartamentos, já que nosso condomínio foi construído no sistema de alvenaria estrutural e o barulho se propaga demais. Também temos muitos atritos entre moradores na garagem. Eu já precisei até ensinar morador a manobrar carro”, lembra.

Newton usa a comunicação visando diminuir os problemas. Coloca nos elevadores avisos solicitando que os condôminos coloquem feltros nos móveis e silicone nas portas dos armários, tentando minimizar as reclamações por barulhos. Também atende os moradores toda quarta-feira à noite no salão de festas. “Já cheguei a subir para meu apartamento às duas horas da manhã. Ou seja, abro mão da minha vida pessoal e do meu descanso depois de um dia de trabalho em função do condomínio.” Newton se considera uma pessoa tranquila e sossegada, mas mesmo assim diz que é muito difícil separar sua porção síndico da vida particular. “Hoje mesmo acordei nervoso, chateado. Ontem fui pedir a uma moradora que cooperasse com sua vizinha de baixo, cuja filha havia acabado de sair do hospital e precisava de descanso. Ela me respondeu que não iria amarrar seus filhos, nem impedi-los de brincar no apartamento. Eu só havia pedido um pouco de colaboração, por uma noite apenas. Percebo que atualmente o ser humano não dá valor ao bom senso, nem à coletividade, cada um só pensa em si mesmo.”

Mesmo síndicos de edifícios com uma rotina mais tranquila às vezes se deparam com situações inusitadas e de difícil controle. Arrigo Terni, síndico há seis anos do condomínio onde mora, no Jardim Paulistano, viveu no último verão um verdadeiro drama: durante uma chuva torrencial, a garagem do edifício alagou, causando a perda de 15 carros. A água chegou a 80 centímetros de altura. “O prédio foi construído há 36 anos e nunca havíamos tido problema semelhante. A água subiu muito rápido. Aquela foi uma noite complicada. O motor do portão da garagem ficou submerso, os elevadores não funcionavam, havia lama por toda a garagem. Gostamos R$ 5 mil só com a contratação de uma empresa para cuidar da limpeza. A maioria dos moradores entendeu a situação, mas tive que enfrentar uns 10% que ficaram muito irritados.”

Lidar com imprevistos como a enchente não foi pior, para Arrigo, do que o dia a dia como síndico profissional de outro prédio, vizinho ao seu. O edifício, com alta inadimplência e muitos problemas administrativos, causava a Arrigo um estresse contínuo. “Pedi demissão depois de um ano e meio. Havia moradores que se viam no direito de me ligar de madrugada porque o vizinho estava fazendo barulho. Explicava que síndico não é polícia. No prédio onde moro, consegui ‘arredondar’ a administração, também porque conto com um conselho que me apóia.” Para Arrigo, o sossego do síndico depende muito da comunidade e de ter um conselho pró-ativo, com o qual “se afine”.

Já a síndica Mariângela Iotti acredita que é preciso saber administrar bem os conflitos. Síndica há sete anos de um edifício com apenas 20 apartamentos, ela acredita que os problemas costumam ser proporcionais ao tamanho do prédio. Mas, há épocas piores, comenta. “Há momentos em que a inadimplência aumenta, outras em que surgem brigas entre determinados vizinhos. Mas, sempre acredito que tudo tem uma solução. O síndico deve focar e buscar um caminho.” Mariângela fala com a tranquilidade de quem é praticante e professora de yoga. “A yoga se torna uma atitude, um modo de vida, e nos dá dinamismo e foco. Dificilmente me desespero, porém também sei ser enérgica. Como síndica, não admito que questionem meu trabalho de forma desrespeitosa, enquanto estou dando o melhor de mim”, explica.

Ela lembra situações difíceis, como a noite em que um morador, ainda mal acostumado ao câmbio automático de seu novo carro, destruiu o portão da garagem. “Era quase meia noite, precisei descer para tomar as providências necessárias, e no dia seguinte acionar o seguro. Mas acredito que quando concordamos em ser síndicos, sabemos que isso faz parte da função. É preciso respirar fundo e cumprir as tarefas, desde, é claro, que não haja abuso por parte dos moradores”, arremata.

REGRAS IMPORTANTES

Confira algumas dicas para que as tarefas diárias não resultem em danos à saúde e à vida particular do síndico:

- Combine com o zelador o melhor horário e os dias da semana em que vocês conversarão sobre o prédio. “Muitos zeladores consomem o síndico e não distinguem o momento certo de abordá-lo. É melhor marcar uma hora em que o síndico esteja focado no condomínio para dar atenção total ao assunto”, orienta o administrador Sérgio Meira.

- Faça do e-mail seu maior aliado, inclusive com o zelador. Ajuda a organizar e a registrar tarefas e prazos de execução.

- “Hoje, tempo vale ouro. Por isso, defina quando e como você atenderá os moradores”, orienta o administrador. “Cada morador quer que o síndico reserve um horário exclusivo para o seu problema. Mas o síndico deve destinar o seu tempo como for melhor para ele e orientar que coisas urgentes devem ser sempre registradas no livro de reclamações.”

- Regra básica: ter equilíbrio emocional para enfrentar as diversas situações, sem absorver cada problema como se fosse o único e sem sair do prumo. “É preciso dar tamanho e peso para cada situação e desligar do prédio em alguns momentos.”

- Extrair dos condôminos as prioridades e elencá-las por ordem de execução são iniciativas que ajudam a diminuir conflitos. “Faça uma pesquisa e leve a decisão para assembleia. É melhor passar por três horas de assembleia e cumprir a decisão da coletividade do que depois sofrer com as queixas e reclamações”, finaliza.

 

Matéria publicada na edição Nº 152 em novembro de 2010 da Revista Direcional Condomínios