Personagens do Condomínio

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SOBRA PARA O SÍNDICO. SEMPRE!

O ‘alienado’, ‘rancoroso’, ‘comodista’ e ‘incomodado’ são alguns dos perfis comuns dos condôminos que desafiam diariamente os síndicos. Só muita calma e jogo de cintura resolvem as situações mais polêmicas.

Viver ou trabalhar em condomínio é, mais do que tudo, conviver com a diversidade humana. Nem todo mundo tem os mesmos gostos, os mesmos hábitos, e nem é esperado que tenha. Mas, se todos tivessem, ao menos, boa educação, a vida do síndico seria bem mais fácil... Alguém discorda? Patada, cara feia, respostas grosseiras, questionamentos fora de hora são situações que comumente os síndicos enfrentam. “Eu não tenho medo de cara feia”, me disse certa vez um síndico experiente. “Respondo à altura e pergunto logo se o morador não quer ficar um pouco no meu lugar. Normalmente a pessoa desiste da encrenca rápido.”

Portanto, lição número um para os síndicos: paciência. Número 2: paciência. Número 3: paciência. “É importante ressaltar que a figura e função do síndico não é, de forma geral, uma função agradável de ser cumprida, pois é certo que ele terá que lidar com as mais diversas, difíceis e delicadas situações que envolvem a diferença entre os seres humanos – um dos fatores que mais dificultam uma boa convivência ou bons relacionamentos”, pondera a psicóloga Patricia Vieira Spada. Para a profissional, é necessário preparo psicológico ao síndico para enfrentar as situações de crise, de pressão. “Ele deve ter como princípio transmitir aos moradores que seu papel é de ajudar, orientar e colocar ordem (na medida do possível) para que se tenha uma boa convivência, amigável e quem sabe até pacífica.”

Mas, como ser pacífico até mesmo com o morador constantemente irritado, que chega a ser violento e agressivo? Casos extremos podem exigir a presença da polícia no condomínio (principalmente se houver uso de armas de fogo por algum morador ou atitude mais violenta). A polícia pode verificar se o condômino tem porte de arma e orientá-lo a não colocar em risco a vida de vizinhos. “Todos, inclusive esse morador, estão sujeitos a situações imprevisíveis que podem causar estresse e/ou alguma desestrutura emocional levando-os a agir de forma impensada podendo trazer profundos danos e/ou arrependimentos futuros”, constata Patrícia.

A síndica Carmen Mendes Pagan, há 14 anos no comando de um condomínio na Bela Vista, com 160 apartamentos e população estimada em 500 moradores, é mestra em enfrentar com ponderação situações extremas: “Sempre converso com o morador. Quando alguém reclama, sempre acha que está coberto de razão. Fica alterado, grita, mas procuro agir com calma. Geralmente o condômino fica até envergonhado por ter feito tanto barulho por tão pouco.” Carmen procura não se abater nem com as pequenas picuinhas cotidianas. “Cumprimento sempre, mesmo que não me respondam. Procuro agir como profissional. Quando sei que alguém está comentando algo da administração, chamo para conversar e não abro exceções no regulamento. Ninguém pode dizer que se um pode, ele também pode burlar as regras. Digo a todos que não sou polícia, que não estou aqui para tomar conta da vida dos outros, mas apenas para regular a comunidade.”

ENFRENTANDO AS DIFERENÇAS

Dos edifícios da classe AA ao mais simples prédio de periferia, nenhum está isento de ter entre seus moradores figuras problemáticas. Raríssimos são os condomínios que não reúnem alguns personagens emblemáticos: o advogado que demonstra autoridade e conhecimento das leis nas assembleias; o morador que continuamente desacata o regulamento interno e enfrenta funcionários; o fora-da-lei, que quebra, suja e danifica o patrimônio sem o menor pudor; e o inadimplente contumaz, que não paga condomínio há anos mas vive pedindo favores pessoais para os funcionários e reclama se não é atendido.

Cleide Alcini é síndica há 24 anos de um condomínio em Moema com 56 apartamentos. Poucos moradores causam conflitos, admite Cleide, para quem o mais difícil na função de síndico é manter as regras do dia a dia. “Há moradores que pouco vão a assembleias, não dão palpite e nem participam. Mas, se há interesse próprio em, por exemplo, abaixar o preço do salão de festas porque usará o espaço, ele pede uma reunião urgente.” Em tantos anos na função, Cleide já enfrentou todos os estilos de morador, mas o arrogante é o que ela menos tolera: “Não admito o estilo ‘sabe com quem está falando?’.”

É claro que síndico algum agrada 100% da população condominial. É preciso jogo de cintura para lidar até mesmo com as críticas mais destrutivas. “O síndico é o representante dos moradores e, como tal, representa tanto a parte boa quanto a parte ‘menos humana’ das pessoas. Mais cedo ou mais tarde ele terá que se defrontar com situações desagradáveis e com indivíduos que não têm interesse em vê-lo como semelhante, com sentimentos, limites pessoais, valores, entre outros aspectos”, orienta a psicóloga Patrícia. A melhor forma de enfrentar situações adversas é, recomenda, sempre tentar manter a calma. “O síndico deve se situar, o mais possível, longe de ‘panelinhas’. É importante que se mostre (e seja, de fato) uma pessoa trabalhadora e engajada na função”, define.

Lidar com o imediatismo das pessoas também exige atenção. Afinal, todos julgam seu problema o mais importante da face da Terra e, por isso, deve ser resolvido na hora pelo síndico. O morador não quer saber se o síndico está trabalhando, ocupado ou se simplesmente não pode atender o morador naquele instante. Reclama e vocifera com o zelador: “Cadê o síndico? Afinal, ele não paga condomínio pra quê? Ele tem que estar aqui para resolver o meu problema!” Se o problema for realmente imediato o síndico deve pedir manifestações por escrito e se reunir com os envolvidos. Se houver tempo e for necessário, o caso pode ser encaminhado para a próxima assembleia. “É importante que o síndico envolva as pessoas que o solicitaram, no sentido de se mostrar disponível para encontrar a melhor forma de solucionar as questões”, salienta a psicóloga.

QUEM É QUEM

Com certeza, você, caro síndico, já encontrou esses tipos em seu condomínio...

O ALIENADO

Este parece ser atualmente o tipo de condômino mais comum. Afinal, pra que se envolver? Ele chega de carro e o portão da garagem está funcionando. Vai à piscina e a água está límpida e os móveis em ordem. A sala de ginástica está cada vez melhor, ganhou até esteira nova, profissional! E os elevadores, então? Passaram por modernização estética e estão lindos. Se tudo vai bem, para que então perder a novela ou o jogo de futebol e enfrentar uma assembleia enfadonha? O problema é que há casos em que mesmo quando as coisas vão de mal a pior a alienação impera... e aí o espaço está aberto para síndicos e administradoras inescrupulosos.

O RANCOROSO

O morador cismou com o vizinho de garagem. Ele o culpa por qualquer grão de poeira que apareça em seu carro. Em muitas brigas de vizinhos, é perceptível que há questões pessoais envolvidas nas queixas. E sobra para o síndico, cobrado para advertir e multar. Nesse caso, tente mostrar para o reclamante que o síndico não pode advertir ou multar quando bem entende – mas quando o regulamento interno é burlado.

O COMODISTA

O banco em frente ao condomínio, localizado em um valorizado bairro da zona Sul de São Paulo, foi assaltado com cenas dignas de TV: bandidos com armas em punho correndo pelas calçadas, pânico e gritaria entre os moradores, pedestres e motoristas. A moradora, indignada, questiona o síndico: “Como você não avisou os moradores que corríamos riscos nesse bairro? Eu não sabia, senão não deixaria minha filha pequena sair sozinha à rua.” O caso é real e demonstra a carga imensa que é depositada nos ombros dos síndicos. Até mesmo a violência urbana é responsabilidade deles! Talvez o síndico pudesse ter sido prudente e distribuído o comunicado: “Prezados condôminos, aviso a todos que nosso bairro está na rota de assaltantes, por isso tomem cuidado com suas bolsas e pertences quando estiverem na rua.” É fácil jogar a culpa no síndico para toda e qualquer situação. Que tal participar mais, até mesmo da vida comunitária, indo a reuniões do Conselho de Segurança (Conseg) ou da associação de moradores do bairro?

O INCOMODADO

Todo prédio tem um morador que se incomoda até mesmo com o barulho da água correndo pelos canos... Geralmente, aqueles com ouvidos mais sensíveis encontram vizinhos com hábitos noturnos mais agitados, e aí é confusão na certa. Como resolver? Para o síndico, resta enviar notificações aos barulhentos, multas na reincidência, tudo dentro do regulamento de cada prédio, e torcer para que os próprios vizinhos se acertem entre si, numa conversa civilizada.

Matéria publicada na Edição 150 de setembro de 2010 da Revista Direcional Condomínios.