Acessibilidade, barreiras também para os síndicos

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Acessibilidade, barreiras também para os síndicos Ilustração: Cybele Belschansky

A reportagem da Direcional Condomínios procurou três síndicas que possuem características comuns de gestão: nos anos em que têm estado à frente de seus condomínios, elas vêm promovendo inúmeras reformas, atualizações e recuperações de seus prédios, em diversos setores, sempre disponibilizando um tempo a  mais para esse cuidado. Carmen Mendes Pagan, por exemplo, transformou o Condomínio Edifício Itororó, no bairro da Bela Vista, em São Paulo, em um agradável lugar de se viver, trocando o que era preciso (as instalações elétricas, por exemplo), mas revitalizando áreas comuns, além do belo piso interno que dá vida aos amplos halls internos da construção de 60 anos.

Ângela Merici Grzybowski, por sua vez, fez recuperação da fachada, renovou os espaços de lazer e conseguiu um upgrade na valorização dos imóveis das duas torres do Condomínio Residencial Maresias, empreendimento de 22 anos do bairro Perdizes. E Cybele Belschansky, síndica do Condomínio Edifício Residencial Jupiá, está tratando de colocar as contas e a manutenção em ordem no pequeno, mas bonito prédio localizado em uma das regiões mais valorizadas de São Paulo.

Obreiras e dedicadas, elas esbarram em uma série de barreiras quando o assunto é acessibilidade. A seguir, as síndicas resumem as principais dificuldades que encontram hoje para adaptar os empreendimentos.  

ÂNGELA MERICI GRZYBOWSKI – Rampa invadiria terreno vizinho - A rampa com a inclinação indicada exige grande área e nem sempre temos isso disponível. Enfrentei esse problema, fiz a rampa do bloco A, mas ela está fora das especificações, pois iria invadir o terreno do condomínio vizinho se seguíssemos tal qual a norma manda. Nossa rampa é plenamente utilizável por cadeirantes, mesmo tendo uma inclinação um pouco diferente da recomendada, mas há dúvidas se corremos ou não o risco de alguma autuação; - E nos elevadores, o que fazer se a cadeira de rodas não gira dentro da cabina? Acredito que as construtoras tenham que se preocupar em entregar os condomínios adequados, porque, para nós, síndicos de prédios antigos, é muito complicado promover a adaptação.

CYBELE BELSCHANSKY – Elevadores, só se forem externos. Mesmo assim, não chegariam ao subsolo

Nosso maior problema para a acessibilidade é estrutural e financeiro. O condomínio tem 40 anos e foi projetado em um terreno em declive. A entrada fica ao nível da rua, mas a partir da porta principal as coisas se complicam, pois imediatamente temos que subir quatro degraus construídos em uma laje (que é o teto da garagem A e o piso das unidades térreas). Para "nivelar" essa entrada, teríamos que deslocar a porta principal até o portão de entrada da rua e conseguir inclinação acessível. Entretanto, mesmo que se faça isso, o acesso aos demais andares e mesmo às garagens e apartamentos do subsolo se dá por uma única escada em caracol. Poderíamos instalar, caso o poder aquisitivo permitisse, elevadores externos do térreo ao 3º andar, o que implicaria em mudança estrutural e necessidade de concordância da maioria dos proprietários (o que é muito difícil). Mamas não resolveria o problema de acesso às garagens. De outro lado, a acessibilidade implica em pensarmos não só em nosso apartamento ou condomínio, como também nas calçadas, ruas e bairro, abrindo um leque de interferências. Com a verticalização, nosso bairro está ficando "doente", com suas artérias (ruas) entupidas e cheias de gordura (prédios). Onde irá esse povo todo? Como circular pelas ruas estreitas? Onde fica acessibilidade?

CARMEN MENDES PAGAN – Prefeitura veta alargamento de calçada

Em primeiro lugar, destaco que as questões legais nem sempre estão disponíveis, são claras ou facilitam sua execução. Mas uma das primeiras providências que adotei ao assumir o condomínio foi rebaixar a entrada na portaria, pois havia um degrau que dificultava o acesso de pessoas com dificuldades físicas. Na época tínhamos dois cadeirantes, além dos idosos. Eliminamos também os capachos de borracha da portaria e no entorno dos elevadores. Demos ainda prioridade de instalar primeiro alguns equipamentos nos andares onde residiam os cadeirantes. E travei uma batalha com a Subprefeitura da Sé para alargar a calçada em frente ao prédio [padronizando-a com o restante da rua], mas nosso pedido, acompanhado de abaixo-assinado, foi indeferido. Há outras dificuldades, como as enfrentadas com os próprios condôminos, que não aprovaram em Assembleia Geral Extraordinária a instalação de corrimãos para segurança da população idosa do prédio. É preciso obter compreensão daqueles que não necessitam da mudança, bem como, muitas vezes, do próprio poder público, como o nosso exemplo da calçada.

Matéria complementar da edição - 184 de out/2013 da Revista Direcional Condomínios