Você sabia que depois das dez da noite não pode?

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Quer gritar o gol de seu time predileto (vá lá que seja o Palmeiras na segundona), mas, deve gritar pra dentro, socar o travesseiro, xingar em braile. Depois das dez não pode.

A pessoa batalhadora chega tarde do serviço e ou da faculdade em casa, e, toc toc toc, desapercebida e cansada, imprudentemente soca o sapatinho de salto alto no assoalho de carpete de madeira fina, que ressoa no piso residencial imediatamente abaixo. Não pode. Depois das dez da noite tem que usar chinelo soft de feltro, mesmo que seja às vezes algo brega.

Imagine então puxar móveis como sofás, bicamas, armários, ligar rádio, derrubar objetos, falar alto, gritar pela janela, atirar cigarro prédio abaixo, ouvir walkman (o barulhinho propaga na sonoridade do prédio), pois os vizinhos do andar de baixo, de cima ou das laterais vão chiar barbaridade, com razão até, plenos de direitos.

Se formalizar reclamação por escrito, toma multa alta, no mínimo um valor de condomínio. Na reincidência, o dobro. E se houver reincidência costumeira, despreparo para viver em comunidade, em condomínio civilizado, a polícia é chamada - há uma lei municipal a propósito de barulho após as 22.00 horas - e o Condomínio via Síndico é acionado para, incontinente multar o locatário e acabar com o problema, ou até há base legal transitada em instância superior para uma ação indenizatória contra todos os envolvidos diretos e indiretos (parentes menores, empregada) até uma final ação de despejo contra os barulhentos da Família Buscapé depois das dez.

Claro que o pai às vezes não sabe o que o Júnior apronta nas quebradas do condomínio enserenado, nem que chega de supetão e quer assobiar um rock pauleira, puxar o som pra perto, armar um circo que, embalado de alguma maneira pode nem sacar que faz barulho fora de hora e fora de propósito. Mas faz. Quando me pagaram para escrever esse artigo para a revista Edifícios e Condomínios, comecei a lembrar as experiências que tive morando em prédio pop, afinal, quem mora num apê tem que sacar que ele não é um conglomerado mal-feito e superfaturado como um Cingapura qualquer, mas um edifício residencial e que, os guerreiros urbanos depois das dez querem descansar na moleza restauradora para um novo dia de trampo, de batente. Se for tomar uma cerva papeando, não faça barulho alto. Cuidado ao abrir a latinha. Muito menos se quiser namorar a patroa-musa-vítima com exagerados afetos explícitos. Cuide-se. Mostre educação básica e cidadania vivencial. Viver em grupo exige harmonia, e, claro, um mínimo de princípio ético-plural-comunitário. Tudo é uma questão de educação, claro.

De berço mesmo. Os pais devem sondar os problemas. Conversar com os teens, os que chegam tarde, os que abusam, provocam vizinhos. Já soube de autoridade babaquara aí querendo salvar denúncias assim na carteirada, mas foi só acionar a imprensa e ou a corregedoria da justiça, e a presunção de impunidade cessou, afinal, qualquer autoridade é uma autoridade assim apenas em seu mister e ofício de contexto técnico-funcional, no recesso social de um condomínio é um cidadão-contribuinte como qualquer outro, com direitos, deveres e, bobeando, claro, sofre sanções legais. Claro que, o primeiro toque é sempre numa boa. Faz parte. Via interfone, vigia, zelador, porteiro, cartinha ou acionando a Síndica que está mesmo para descascar o abacaxi, mas, se não houver jeito, prova testemunhal vale e uma perícia hábil vai provar que o gaiato chega tarde, puxa coisas, tosse, pisa duro, arrasta cacarecos, faz um tropel e, claro, isso não pode em hipótese alguma, muito menos cachorro latindo. Quem gostar de bagunça pra se coçar, folgado que seja ou aéreo, que vá ser um ermitão pós-moderno na selva distante de animais irracionais, entre antas e gambás. Porque na selva de pedra de Sampa todos têm que trabalhar e estudar todo santo dia, porque os caraminguás andam rareando e todo mundo na verdade tem direito ao descanso noturno, ao sagrado sono aliviador, não que uma empregada mal controlada abra portas ou varra a casa tarde da noite, um moleque radical sem controle puxe coisas, uma filha birrenta e sem educação ponha toda uma convivência familiar a perder, acabando por dar prejuízo no bolso do chefe do clã. E quem não tiver saco para agüentar a falta de educação toda, o banzé fora de hora, depois das dez da noite, que disque logo 190 e chame a Polícia!

PS: Uma tipa aí, via e-mail, me reclamou - na defensiva errada - tipo assim, "o incomodado que se mude(...)". Erradíssimo! Não funciona assim. Ninguém pode alegar desconhecimento ou ignorância da lei, isso é preceito constitucional. O errado que se enquadre. Regras existem para serem cumpridas. O incomodador, portanto, que sofra as conseqüências legais, ou, dê no pira...

Poeta Silas Corrêa Leite - Educador, Jornalista, Crítico Social.

Pós-graduado em Educação, Filosofia e Literatura na Comunicação (ECA/USP)
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Fonte: Poeta Silas Corrêa Leite - Educador, Jornalista, Crítico Social (Texto da Série: Ética e Cidadania Social, livro inédito do autor).

São Paulo, 7 de outubro de 2009