Por uma convivência pacífica

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Com muito diálogo e participação, além da ênfase no lazer e nos esportes, é possível diminuir os conflitos e garantir uma melhor qualidade de vida no condomínio.

A psicóloga e psicopedagoga Silvia Bedran mora, há um ano, no Residencial Interlagos, um condomínio com sete torres, 728 apartamentos e aproximadamente 3.500 moradores, na zona sul de São Paulo. Sua filha de oito anos, Lia Carolina, encontrou uma ótima forma de fazer amizade com as outras crianças: freqüentando as aulas de futebol que acontecem no próprio condomínio. Para a psicóloga, é fundamental que a criança se enturme no condomínio, tanto quanto na escola: “O que a criança gosta, não destrói. O prazer de participar, de fazer vínculos, possibilita o cuidado com o que utilizamos e respeito com quem convivemos.” 

A síndica do Residencial Interlagos, Maria Virgínia P. Santos, lembra que, antes da instituição das aulas de futebol, há cerca de dois anos, eram comuns pichações nas áreas comuns e plantas danificadas. “O condomínio é quase uma cidade, mas conseguimos diminuir muito o vandalismo. O professor de futebol também é morador, e pensamos até em ampliar o projeto, com mais opções de lazer e esportes”, conta. Há uma verba autorizada em assembléia para pagar o professor. Custos com material esportivo, como bolas e uniformes, são cobertos com festas e eventos organizados para arrecadar dinheiro. “Não queremos onerar quem não tem filhos”, explica a síndica. 

O resultado positivo das aulas também rendeu títulos ao condomínio. “Já fomos campeões de campeonatos inter-condomínios”, diz Virgínia. Além das quatro quadras do condomínio (de tênis, vôlei, futebol de salão e basquete) e do campo gramado de futebol society, foi construída uma pista de skate atendendo a pedidos dos adolescentes. “Qualquer buraquinho que apareça no cimento é percebido pelos garotos, que nos avisam. Eles cuidam da pista. Explico aos jovens que, se eles querem morar num lugar elogiado por seus amigos, eles próprios têm que cuidar”, esclarece Virgínia. 

O dia-a-dia dos condomínios mostra que experiências como a do Residencial Interlagos infelizmente não são a regra. Crianças sem limites, pais que não admitem os erros dos filhos e síndicos intransigentes são personagens comuns na rotina dos edifícios. Para o psiquiatra especializado em crianças e adolescentes Içami Tiba, os pais são as primeiras vítimas da má educação dos próprios filhos. “Uma criança que não obedece as regras do condomínio também não obedece as próprias regras de casa”, afirma Içami. “Os pais devem ter humildade para ouvir que o filho errou. Os que não aceitam também não sabem viver em condomínio. E o condomínio nada mais é do que um ensaio da grande sociedade”, completa. 

Em seu último livro, “Quem ama, educa”, o psiquiatra trata justamente dessa realidade familiar: os pais se preocupam apenas em criar os filhos, dando proteção e provendo-os de tudo que ele precisa. “Isso é criar, e não educar, o que dá muito mais trabalho mas resiste a vida toda. Ao ir para a sociedade, o jovem que não foi educado vai predá-la”, explica. Na opinião do profissional, não é função do síndico corrigir uma situação sustentada pela família. A psicóloga Silvia Bedran completa: “Os pais são modelos para os filhos. Por isso, é importante que as orientações sejam ressaltadas no lar.”

Autoritarismo x autoridade

Envolver as crianças e adolescentes em projetos e ações no condomínio costuma dar bons resultados. “Posturas autoritárias do síndico revoltam os moradores. As crianças precisam ser ouvidas. Muitas vezes, o que elas querem pode ser simples de realizar, como uma sala para ver TV”, orienta Celise Govea, psicóloga. Segundo a psicóloga Silvia Bedran, é preciso distinguir autoritarismo de autoridade para que síndicos e pais possam agir da maneira mais adequada: “Quando pensamos em autoridade, nos vêm à lembrança queridos idosos com prestígio, competentes, e que nos causaram influências positivas. Se a regra  de um condomínio é viver feliz, é evidente que o síndico, os pais e os que têm a tarefa de educar repensem suas atitudes e papéis perante as crianças e adolescentes.” Para Silvia, os problemas de convivência são consequência do papel inadequado de síndicos e pais. “A rebeldia pode ser um grito de pedido de ajuda”, completa.

As crianças, impulsivas por natureza, adoram participar. A psicóloga Celise dá algumas sugestões: por que não envolvê-las em iniciativas de reciclagem do lixo do prédio, por exemplo? Ou então instituir a eleição de um síndico mirim, que ficaria encarregado de levar ao síndico as sugestões e necessidades das crianças? Silvia tem ainda outras idéias: montar uma sala de brinquedos educativos e criativos, para que os pequenos façam novos amigos e aprendam desde cedo a cuidar dos brinquedos comunitários; ou ainda organizar gincanas com monitores contratados pelo próprio prédio. 

Foi justamente a ociosidade de jovens numa grande área verde a origem de muitos problemas para o Condomínio Residencial Portal da Cantareira. Localizado no Tremembé, com oito torres e aproximadamente 2.500 moradores, o residencial dispõe de cinco mil metros quadrados de verde e praticamente nenhuma área de lazer para crianças e jovens. A iluminação precária estimulou o uso de drogas nas áreas comuns mais escondidas do condomínio. O trabalho foi grande para a síndica Luzia Helena da Costa. “Há cinco anos sou síndica e levei praticamente dois anos para melhorar a situação. Consegui com muita conversa, impondo uma certa autoridade mas nunca faltando com o respeito aos jovens. Se formos autoritários e batermos de frente com os adolescentes, perdemos feio”, conta Luzia.

Para solucionar o problema, o condomínio investiu na iluminação das áreas comuns e em 120 câmeras (incluindo os blocos e as áreas comuns), além de cerca elétrica e seguranças circulando pelo condomínio durante a noite. “Com muita cautela, controlamos o problema da permanência nas áreas comuns após as 22 horas, sem conflitos e jamais perdendo a razão”, conclui a síndica.

Matéria publicada na revista Direcional Condomínios, edição abril/2003