Drogas no condomínio: o perigo mora ao lado

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Nunca é cedo ou tarde demais para prevenir. Muitos fatores determinantes, como por exemplo juízo de valores e auto-estima, vão se formando desde a mais tenra idade

A personagem Mel, vivida pela atriz Débora Falabella, na novela O Clone, um dos maiores sucessos de audiência da Rede Globo, não será esquecida tão cedo. Afinal, ela se tornou um ícone na luta contra as drogas, fazendo muitas famílias acordarem para um problema real. O drama vivido pela jovem rica e viciada em drogas, neta de um poderoso empresário, fez ver que o vício pode atingir jovens de todas as faixas sócio-econômicas.

Nem mesmo os equipamentos de segurança e a privacidade dos condomínios residenciais livram seus moradores das drogas. Infelizmente, o uso das drogas é democrático, atingindo diversas faixas etárias, classes sociais e econômicas. Segundo José Elias de Godoy, oficial da Polícia Militar do Estado de São Paulo e consultor de segurança em condomínios, a história dos personagens Mel, Regininha e Nando em, O Clone, mostrou a realidade e despertou as famílias para o fantasma das drogas: “O drogado não é um marginal. É um doente e precisa de ajuda. A família não pode se omitir. E, muitas vezes, é o que os pais fazem, por não querer ver seus filhos expostos.” 

Nos condomínios, o uso de drogas pode ocasionar furtos de objetos, como toca-fitas, por exemplo – o viciado rouba para sustentar o vício. Os usuários (principalmente jovens a partir dos 14 anos) costumam se reunir em locais escuros e menos movimentados (como escadas). O cheiro, no caso da maconha ou do crack, costuma denunciar o uso dessas drogas. A solução é iluminar os pontos escuros e colocar câmeras geradoras de imagens para um circuito interno de TV. Essa é a primeira medida que o condomínio pode tomar, evitando que o prédio ofereça um local adequado ao consumo de drogas. Já a prevenção deve começar, em primeiro lugar, na família. “Toda e qualquer prevenção deve vir do lar, com muita conversa e nunca com violência”, explica Godoy.

Na opinião do médico psiquiatra Cláudio Elias Duarte, coordenador do setor de ensino do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea) da Universidade de São Paulo (USP), nenhuma ação preventiva que o condomínio promova, por melhor estruturada que seja, substitui a necessidade dos pais estarem atentos à questão das drogas dentro de seus lares. Segundo o médico psiquiatra, um dos fatores de proteção dos jovens em relação às drogas é uma boa monitoração dos pais: “Isso não significa um clima de perseguição, terrorismo, desconfiança ou hiperproteção. Mas sim interesse, disponibilidade, carinho e atenção nas atividades dos filhos. Pais que estão por dentro da vida de seus filhos, que mantêm um diálogo aberto e franco, que conhecem as suas companhias e facilitam o desenvolvimento da auto-estima, com certeza terão maior facilidade para lidar com a questão das drogas.” 

Ao lado da prevenção dentro de casa, o condomínio pode e deve se organizar antes mesmo de detectar o uso de drogas no ambiente. A prevenção é, inclusive, mais barata. Dados americanos informam que a cada dólar gasto com prevenção, 5 dólares são economizados no tratamento de jovens já dependentes. “Uma microsociedade organizada, como um condomínio, pode estabelecer um projeto de promoção de saúde e prevenção do uso nocivo de substâncias psicoativas”, opina o médico. Segundo Duarte, esse projeto deve mobilizar todos os moradores, sendo planejado e executado por todos, inclusive os jovens, contando ainda com a participação e consultoria de especialistas da área. 

Rita de Cássia Ferreira, terapeuta ocupacional do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de medicina da USP, com experiência em prevenção nas escolas, acredita que não se deve esperar pelo aparecimento do problema, no condomínio, para tentar remediá-lo. “Já temos dados científicos que comprovam que prevenir é mais barato e eficaz do que investir na reabilitação. Além disso, quanto mais for postergada a experimentação de alguma substância, quer legal ou ilegal, melhor será para a vida do indivíduo, ou seja, menor o risco de dependência química”, conclui a terapeuta.

Organização e integração

É importante que o condomínio tenha definida uma regra, estabelecendo como agir ao detectar um usuário ou dependente de drogas nas dependências comuns. “Quando o problema vem à tona, a única coisa a fazer é o encaminhamento do jovem e de toda a família a um especialista, para orientação e tratamento, o que deve ser feito da forma mais ética possível. Não considero adequado alertar ninguém indevidamente. Acredito que os moradores devem decidir, previamente, que postura desejam que o condomínio tenha nesses casos”, opina o médico psiquiatra Cláudio Duarte. O profissional completa, informando que cada fase do contato com a droga – que vai da experimentação, passando pelo uso regular, uso freqüente, abuso até a dependência – precisa de uma estratégia de intervenção específica.

Para a terapeuta Rita de Cássia, devem ser respeitados os direitos do indivíduo ao sigilo: “Se o problema já existir, não devemos agir com preconceito, mas sim, oferecendo ajuda e tratamento, se este for o caso.” Os mesmos cuidados valem para o caso de um funcionário do condomínio estar envolvido com álcool ou drogas.

Um ponto importante é iniciar a prevenção inclusive do uso de substâncias permitidas, como o álcool e o fumo. Dados americanos do NIDA – National Institute on Drug Abuse, de levantamento domiciliar do uso de drogas de 1991 a 1993, apontam que o uso de álcool ou tabaco leva a um risco 65 vezes maior ao uso de maconha. Já o uso de maconha, leva a um risco 104 vezes maior ao uso de cocaína. No Brasil, também há dados alarmantes: segundo o CEBRID – Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas, mais de 50% dos estudantes, entre 10 e 12 anos, já fizeram uso de álcool. Portanto, quanto mais se retardam os primeiros usos, menor é a chance do jovem desenvolver dependência no futuro.

Prevenção, portanto, parece mesmo ser a palavra-chave na luta contra as drogas. Na opinião da terapeuta Rita de Cássia, a preocupação maior deve ser trabalhar pelo bem comum e pela qualidade de vida de todo o condomínio. “Todos são responsáveis, sem discriminação. Um funcionário deve se sentir tão responsável quanto qualquer morador ou síndico. Bons vínculos e trocas são fatores relevantes, quando falamos em prevenção. Limites, organização, clareza na comunicação e integração de medidas no condomínio também”, finaliza.

Fonte: GREA – Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto e Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. 


Três regras básicas na luta contra as drogas

- Nunca é cedo ou tarde demais para prevenir: muitos fatores determinantes, como por exemplo juízo de valores e auto-estima, vão se formando desde a mais tenra idade;

- Nada sai bem feito sem informação e planejamento: o ideal é estar sempre atualizado e supervisionado por especialistas;

- Coerência e constância são essenciais: vale mais um exemplo que mil palavras, e os resultados são visíveis a longo prazo.

Quando começar a se preocupar com drogas?

Preste atenção a alguns fatores de risco para o uso de drogas:

  • > Ambiente caótico: pais que usam drogas ou têm problemas psiquiátricos.
  • > Paternidade ineficaz, especialmente com crianças de temperamento difícil ou com transtorno de conduta.
  • > Falta de apego e carinho mútuo.
  • > Companhias com atos anti-sociais.
  • > Timidez e agressividade inapropriadas.
  • > Falha na performance escolar.
  • > Pobres habilidades sociais.
  • > Percepção de aprovação do uso de drogas na escola, entre amigos ou no ambiente comunitário.
  • > O condomínio deve ser hábil em identificar e auxiliar essas famílias e pode diminuir os riscos de seu ambiente para os jovens.


Matéria publicada na revista Direcional Condomínios edição 54 - julho/2002