Sustentabilidade: O Case do Edifício Cidade Nova (RJ)

Escrito por

O arquiteto Ruy Rezende conquistou o prêmio Greening 2011, considerado o Oscar da sustentabilidade, e possui, em seu currículo, entre outros, o projeto do Edifício Cidade Nova, no Rio de Janeiro, o primeiro certificado pelo US Greenbuilding Council como LEED Core & Shell da América Latina e o segundo fora dos Estados Unidos. Em entrevista concedida à Direcional Condomínios, Ruy Rezende apresenta a seguir um conceito amplo de sustentabilidade e fala da experiência do Cidade Nova.

DC - Quais ações envolvem a sustentabilidade? O conceito abarca desde aspectos pré-construtivos (análise de impacto urbano), construtivos (geração de resíduos), de ocupação (tráfego, lixo, uso água e energia, etc.) a questões sociais, de saúde e ambientais?

Ruy Rezende - A sustentabilidade, como conceito norteador, permeia todas as etapas de um projeto construtivo, uma vez que buscamos uma coerência completa entre o que projetamos, o que é construído e como é utilizado pela sociedade. Podemos resumir algumas das ações sustentáveis feitas nas diferentes fases de uma edificação (projeto, construção e uso).

Na fase de projeto se analisam as características do local e do entorno (aspectos sócio-ambientais como traçado urbano, acessibilidade, vegetação, água, entre outros) e os dados climáticos, visando traçar estratégias de desenho que levem em conta a eficiência energética, o baixo impacto ambiental dos materiais e o conforto ambiental interno (visual, olfativo, auditivo e hidrotérmico).

Na fase da construção se controlam questões como segurança e saúde dos trabalhadores e a gestão eficiente dos resíduos gerados.

Na fase de uso se monitoram as melhorias obtidas nas questões de energia, água, resíduos e conforto ambiental interno, de acordo com as respectivas simulações feitas na fase de projeto.

Lembrando sempre que nosso objetivo final é diminuir o impacto ambiental de nossas construções.

DC – Como foi realizado o projeto e a execução dos trabalhos no Edifício Cidade Nova?

Ruy Rezende - No Edifício Cidade Nova, a preocupação com os conceitos de sustentabilidade foram observados desde a sua localização, que visava o melhor aproveitamento de um terreno subutilizado em região com total infraestrutura e permeabilidade.

No controle do solo foram aplicados métodos rigorosos e criteriosos para descontaminação e descarte do mesmo, além dos cuidados com a escavação no terreno. O projeto priorizou o uso de materiais reciclados e recicláveis, sendo que os materiais novos deveriam ser alinhados com créditos de carbono e/ou certificados. Materiais com baixa emissão de COVs (Compostos orgânicos voláteis - gases liberados por determinados tipos de tintas e colas) também tiveram prioridade na escolha quanto aos fabricantes.

Durante toda a construção do empreendimento, houve a preocupação com o descarte do lixo e entulho, através de programas de coleta seletiva na obra e reciclagem de materiais. Todo entulho gerado pela obra foi selecionado e encaminhado para empresas de reciclagem credenciadas.

A preocupação com o uso predominante da iluminação natural foi uma das premissas do projeto, visando não só a eficiência energética como a integração dos usuários. O controle de insolação foi feito por tecnologia aplicada à construção, entre elas o uso de vidros de baixa emissividade e o sistema de dupla fachada de vidro. Houve ainda uma preocupação com o tratamento paisagístico urbano pela inserção do prédio em relação à incidência dos ventos.

A eficiência energética, ponto notável do projeto, foi conseguida focando no principal consumidor de energia desse sistema, o ar condicionado, cujo consumo é responsável por 50 a 60% em uma edificação deste porte. Neste sentido, em complemento às medidas tomadas para o conforto térmico, foi projetado um sistema de condicionamento que visa: a redução de emissão de CFC pela escolha do gás; a eficiência energética do equipamento em si; a geração de água gelada por múltiplos chillers a ar, com ampla capacidade de modulação; o tratamento de ar exterior e; o sistema de distribuição do ar pelo piso elevado atribuindo zonas diferentes de uso e combate ao calor. O sistema da clarabóia, que aumenta a eficiência energética pelo efeito day light, emprega calor natural e não energia elétrica no seu sistema de proteção térmica.

A otimização do uso das águas se dá através da coleta das águas de chuva e das águas de condensação do sistema de ar condicionado. Isto é responsável pelo atendimento de 40% do consumo diário previsto, através do reuso dessas águas em atendimento às lavagens, irrigação e bacias sanitárias. Além disso, foram usados mecanismos visando a redução do consumo, como por exemplo torneiras temporizadas.

A responsabilidade social se fez presente em todas as etapas do empreendimento. Pela ação projetual visando à valorização do bem-estar dos funcionários e do público em geral, pela conduta das empresas envolvidas que refletiu no desenvolvimento do empreendimento, e ainda nas ações de recuperação social e urbana de entorno.

 

DC – Existe agora um projeto de retrofit sustentável, de um edifício na Zona Portuária do Rio de Janeiro (edifício V43) para a construtora São Carlos S A. Fale um pouco deste projeto.

Ruy Rezende - Quanto ao edifício V43, será o primeiro prédio certificado LEED na renovação da Zona Portuária do Rio. Trata-se do retrofit de uma edificação antiga e subutilizada, com adaptação do antigo uso para escritórios. O projeto mantém as linhas gerais art déco do edifício original, resgatando elementos e características como os revestimentos da fachada. Lembrando que retrofit trata-se sempre da "modernização" de um prédio já ultrapassado, aliando novos conceitos arquitetônicos, novas tecnologias e novos usos.

 


Por Ruy Rezende

Ter, 31 de Maio de 2011


Anuncie na Direcional Condomínios

Anuncie na Direcional Condomínios