Pintura, textura e revestimento nas fachadas: É preciso cuidar da capa protetora dos edifícios

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Demãos em branco alvo nas fachadas das quatro torres do Condomínio Trianon II, no Jabaquara, zona Sul de São Paulo, estão dando uma nova cara ao empreendimento, depois de quase dez anos sem repintura. Os serviços foram iniciados em maio de 2014 e estão praticamente concluídos. A obra valorizou as grades das varandas, bem como as molduras inferiores das janelas e o desenho artístico das colunas laterais. “Pintura de prédio é uma questão de manutenção. Estávamos com as paredes escuras, bem destruídas, o reboco caindo”, observa a síndica Maria da Guia Pereira, do empreendimento de 30 anos e 256 unidades.

Recuperar periodicamente essas superfícies é tarefa inevitável pelo desgaste da vida útil do material, afirma Gisele Bonfim, gerente técnica e de Assuntos Ambientais da Abrafati (Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas). Mais do que propriedade estética, a fachada tem o objetivo de proteger as estruturas. Assim, a ação do tempo (sol, chuva e vento), a formação de fungos, o acúmulo de fuligens e a movimentação natural da estrutura deterioram essa camada protetora, mas poupam a alvenaria. “Se não houvesse a proteção, tudo que se acumula na tinta degradaria a estrutura.”

A ex-síndica Ivonete Pereira Coelho, do Condomínio Edifício Santorini, conta, por exemplo, que os apartamentos da cobertura chegaram a apresentar trincas internas quando houve certa demora em contratar a repintura. No entanto, a estratégia do condomínio tem sido a de providenciar a obra a cada quinquênio e, no terceiro ano, um hidrojateamento. “É uma questão de manutenção, se não cuidar da fachada do prédio, ocorrem problemas nas unidades”, diz. Ivonete permaneceu no cargo durante 13 anos, onde ficou até abril passado, desligando-se por causa de problemas de saúde na família. Ela contratou os serviços em andamento na torre única do condomínio de 31 anos, localizado na Vila Alexandria, zona Sul de São Paulo. Nem todos, porém, seguem uma cartilha mínima da manutenção. “Por economia, muitos condomínios não executam os procedimentos como deveriam”, comenta o engenheiro civil Jerônimo Cabral Pereira Fagundes Neto, mestre pelo IPT em tecnologia das edificações e pós-graduado em avaliações e perícias. Jerônimo, que atua junto à Comissão de Normas da ABNT para as construções, afirma que o intervalo ideal de repintura oscila entre quatro e cinco anos (dependendo da incidência de poluentes), exigindo lavagens a cada biênio. “Na segunda lavagem, é preciso promover a calafetação das janelas, esquadrias, grades, redes de proteção, tubulações aparentes etc., ou seja, de todas as interferências.”

REVESTIMENTO CERÂMICO

No caso de paredes revestidas, o engenheiro recomenda “um trabalho de recuperação dos rejuntes, além da lavagem periódica e calafetação”. Isso se não houver anomalias mais sérias, como grandes áreas com pastilhas descoladas (e de difícil reposição) ou cerâmicas em processo de desplacamento. Segundo Jerônimo, “às vezes as placas de cerâmica apresentam problema intrínseco ao próprio material, como a expansão por umidade”. As normas técnicas brasileiras estipulam um índice de segurança para essa expansão e, se ela vier a ocorrer fora dos padrões, “não adiantarão reparos localizados”.

Jerônimo Cabral elenca três requisitos mínimos para uma boa condição das fachadas revestidas, provenientes da época da construção: aplicação de argamassa própria para cerâmica; que o fornecedor do material (cerâmica) tenha respeitado os índices normativos de expansão por umidade; e que haja espaçamento adequado das juntas de dilatação, também conforme previsão das normas. Sem esses quesitos, poderá ocorrer desplacamento acentuado, justificando, inclusive, eventual substituição do perfil de acabamento da superfície, de revestimento para pintura, observa.

O engenheiro civil Roberto Boscarriol Jr. reforça que “a troca de materiais de acabamento não é uma obra simples, ela deve ser precedida de um projeto arquitetônico, levando-se em conta o aspecto estético, de manutenção e de custo”. Segundo ele, o desplacamento em paredes revestidas pode ocorrer ainda pela “falta de preparo do substrato” (durante a fase de construção), situação posteriormente agravada pela variação da temperatura e interferência dos agentes agressivos ao meio ambiente (como a chuva ou o ar poluído). “Outro problema é o choque mecânico ou reformas com troca de caixilhos, venezianas e portas-balcão”, acrescenta.

VIABILIZANDO AS OBRAS

Para saber lidar com todas as patologias possíveis (fim da vida útil da tinta, trincas, desfolhamentos e desplacamentos), o engenheiro Boscarriol defende que os síndicos contratem o diagnóstico de um especialista, que ajudará também a equalizar as propostas dos fornecedores. No Condomínio Trianon II, Maria da Guia diz que levantou oito orçamentos, mas acabou optando por uma empresa que já prestava serviços ao condomínio. Além disso, ela pôde parcelar os trabalhos em 24 meses e contar com o uso de água de mina para a lavagem das paredes das quatro torres. No Edifício Santorini, a água de reuso foi levada pelo próprio fornecedor, diz a ex-síndica Ivonete, incluindo a previsão de novo hidrojateamento daqui a três anos, sem custo extra.

Outras dicas são importantes para assegurar um bom resultado. Pintura, por exemplo, não combina com época de chuva, destaca o engenheiro Boscarriol Jr. Gisele Bonfim ressalva, por sua vez, que dois erros bastante comuns podem comprometer a qualidade dos serviços: o emprego de massa niveladora (antiga massa corrida) em superfícies externas; e aplicação de tinta sem esperar pelo tempo indicado de secagem das paredes pré-lavadas. No primeiro caso, a massa corrida absorve mais água do que a argamassa apropriada para esses ambientes, levando à desintegração do revestimento. No segundo, “a parede úmida dificulta até mesmo o trabalho do pintor, que tem dificuldade para passar o rolo; e ela absorve menos tinta que a parte seca”. Gisele ressalta a necessidade de os síndicos ficarem atentos ao uso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI) pelas equipes da empresa contratada, bem como ao cumprimento das normas de trabalho em altura.

Finalmente, orienta para o correto descarte das sobras de tinta. “É importante medir duas vezes a superfície a ser pintada, para comprar o material na medida certa e evitar resíduos."E se houver sobras, o síndico poderá reaproveitá-las em outros ambientes, doá-las ou fazer a destinação conforme cartilha online publicada pela Abrafati, incluindo resíduos de texturas, entre outros (Confira em http://bit. ly/1c17egW).

Matéria publicada na edição - 202 de jun/2015 da Revista Direcional Condomínios

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