Sistemas de informação, redes & internet: uso na dose certa

Escrito por 

Boa parte da vida moderna acontece hoje em rede, seja através de sistemas fechados de gestão da informação ou de praças virtuais aonde se expõem fatos, emoções e opiniões. O condomínio também está conectado, por necessidade administrativa ou para ampliar suas relações, algo que merece ponderação.

O fato aconteceu com uma loja de varejo de Brasília, mas serve de exemplo para que condomínios e condôminos repensem seu tom usual nos espaços de comentários de sites ou redes sociais: o Tribunal de Justiça do Distrito Federal confirmou condenação de consumidora “por abuso do direito de reclamar”. Segundo o desembargador Hector Valverde Santanna, "o excesso de linguagem em publicações nas redes sociais e sítios de reclamações de consumidores desborda da mera exposição do pensamento para tornar-se ofensa à honra objetiva”. Assim, a ré teve que arcar com indenização de R$ 2 mil por danos morais ao lojista.

Em outra decisão recente, o Tribunal de Justiça de São Paulo confirmou pagamento de R$ 5 mil por danos morais por condômino que ofendeu uma síndica. Desta feita, o ilícito aconteceu no âmbito presencial, na frente de outros moradores, mas o fato é que as redes sociais potencializam o que “as pessoas já fazem na vida off-line”, define a psicóloga Wanda Sanchez Peters, especialista em gestão de relacionamento.

“A rede ampliou o que é característica do ser humano: expor vaidade, medo, vingança e raiva. Nós somos tudo isso e não tem nada de ruim. O que precisamos é aceitar, controlar e não exacerbar”, acrescenta Wanda. Nos condomínios, “as pessoas que já odeiam o vizinho começam a usar termos pejorativos, preconceituosos e homofóbicos contra ele nas redes, são os haters [pessoas que odeiam], isso tem aumentado.” O antídoto a esse movimento marcadamente emocional, segundo Wanda, é procurar reforçar os laços de amizade e sociabilidade nos condomínios, através de confraternizações e festas. “Nesses espaços, as pessoas percebem que são iguais. Os eventos coletivos minimizam as emoções que costumam exacerbar, principalmente, nas assembleias e redes sociais.” A psicóloga acredita, inclusive, que recursos como o Facebook possam ser utilizados de forma proativa pelos gestores.

Para o advogado Paulo Caldas Paes, “é preciso cuidado com o que se fala”. “Rede social não é a plataforma adequada para expor problemas do condomínio, isso precisa ser algo interno, como o livro de ocorrências ou a conversa direta com o síndico. Na internet, há o risco de se denegrir a imagem do prédio e de incorrer em crimes como calúnia, difamação e injúria”, observa. Por isso, reforça o advogado, a falta de cuidado naquilo que se publica em rede tem potencial explosivo e pode dar visibilidade a algo que nunca aconteceu. “É o caso de acusar o vizinho de fazer barulho, mas o ruído se propaga e é difícil identificar sua verdadeira origem.”

No Condomínio Ville Belle Époque, que ganhou uma página no Facebook há pouco mais de um ano, o canal tem sido utilizado de forma serena pelos condôminos, afirmam o síndico Alex Lucinski e o gerente predial Cristovão Luís Lopes, responsáveis pela gestão da ferramenta. O grupo é secreto e voltado apenas a “compartilhar o que está sendo executado e ajudar a planejar o que precisa ser feito”. Ou seja, o espaço visa a aumentar o envolvimento e a participação dos moradores, observa o síndico. “Depois do Facebook, houve muita adesão nas assembleias, a vida condominial ganhou corpo, os assuntos já são previamente comunicados, o que permite às pessoas formar opinião e trocar ideia. As assembleias ficaram mais leves.” Todos, no entanto, são orientados a evitar “abordagens destrutivas, críticas pessoais e assuntos que devem ser resolvidos em ambientes restritos”, bem como a respeitar as decisões estabelecidas pelos fóruns adequados (assembleia, síndico, conselhos e administrador).

Mas é preciso controle, ressalva o administrador Marcelo Mahtuk, que considera grande o risco de os espaços migrarem da informação para a discussão em redes abertas como o Facebook, quando são tratados assuntos internos. “Há condomínios com quatro páginas no Face, uma brigando com a outra”, ilustra. Ao optar pela ferramenta, o administrador sugere que os síndicos aprovem em assembleia a criação de página oficial, predefinindo objetivos e conteúdo. “A tecnologia é muito rápida, as pessoas são impulsivas e o papel do gestor é unir e não desuni-las”, justifica Mahtuk. Assim, sua recomendação é empregá-la “com transparência, competência (exatidão) e ética (verdade)”.

CANAIS PRÓPRIOS

“Temos que pensar como usar todas as ferramentas digitais, esse é o maior desafio”, pondera, por sua vez, Flávio Martins, diretor de Produtos, Serviços e Tecnologia da Aabic (Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo). “A tecnologia deve ser vista como algo positivo, como facilitadora e solução, e não como uma ouvidoria, um muro de lamentações”, completa Flávio, lembrando que muitos ambientes interativos, abertos à participação e comentários de condôminos, acabaram descambando para o “espírito do assembleísmo”.

“Observo situações que não cabem nas redes sociais, as pessoas vão direto para a crítica pessoal, em vez de propor soluções ou mudanças. Como esse tipo de postura pode trazer benefícios?”, questiona. Flávio Martins destaca que as administradoras ou o próprio condomínio dispõem de redes de intranet, com fóruns adequados à participação dos moradores, “organizando o fluxo de reclamações e demandas”. “É interessante que o condomínio mantenha esse canal próprio, que fale com todos seus entes (administradora, síndico, zelador e morador) e disponha de uma política de resposta, de follow-up.” Apesar dos excessos, o diretor da Aabic avalia que a internet tem sido uma aliada dos condomínios, “um canal para outros serviços, como a emissão de boletos”. “Ela facilita a gestão”, diz.

Marcelo Mahtuk completa que esses recursos se dividem hoje em dois grandes grupos:

1) Tecnologias disponibilizadas pelas administradoras, até para atender a obrigações legais, como o e-Social (Sistema de Escrituração Digital das Obrigações Fiscais Previdenciárias e Trabalhistas, programa do Governo Federal junto aos empregadores), bem como prestar serviços aos condôminos (assembleias digitais, emissão de boletos, acesso a atas e prestação de contas etc.); e

2) Plataformas paralelas que os condomínios adotam para gerenciar sua vida interna, como o controle de acesso de moradores e visitantes e locação de espaços. Tanto os serviços disponibilizados pelas administradoras quanto os softwares independentes oferecidos pelo mercado variam bastante e podem contemplar ferramentas muito parecidas.

O importante é que a administração do condomínio defina um responsável para gerenciar toda essa informação, já que o feedback é essencial ao processo, ressalva o síndico profissional Paulo Eduardo, com experiência no uso de ambas as plataformas.

Matéria publicada na edição - 207 de nov/2015 da Revista Direcional Condomínios

Não reproduza o conteúdo sem autorização do Grupo Direcional. Este site está protegido pela Lei de Direitos Autorais. (Lei 9610 de 19/02/1998), sua reprodução total ou parcial é proibida nos termos da Lei.