O Síndico no espelho: Comportamentos, Autoconhecimento & Equilíbrio

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Síndicos e síndicas encarnam diferentes personagens em seu dia a dia, conforme os desafios enfrentados e também suas características pessoais: eles podem ir do típico faz-tudo ao delegado, mestre, tirano, amigo, fiscal, ouvinte e conselheiro. É possível equilibrar esses papéis através do autoconhecimento, importante para evitar o "sequestro emocional e o roubo de seu tempo".

A tarefa parece exaustiva, porém, administrar as finanças do condomínio, as questões jurídicas, serviços, obras, manutenção e compras compõe a "parte mais fácil" da vida de um síndico e síndica, avalia a psicóloga Wanda Sanchez Peters, instrutora da Universidade Secovi-SP e especialista em gestão de relacionamentos. "Os grandes desafios vêm mesmo da área comportamental", analisa Wanda, ao explicar que o lado mais desgastante deste cotidiano está na relação com as pessoas, porque "elas desconhecem o que é um condomínio", e também pelo despreparo de muitos gestores para lidar com o ingrediente humano.

O fato é que diante da complexidade dos condomínios e das idiossincrasias de cada gestor, múltiplos papéis são desempenhados pelos síndicos, tanto de maneira positiva quanto negativamente. De um lado, mesmo trabalhando muito, ele pode se estagnar como um mero "apagador de incêndio" e "sair atropelando tudo", de maneira "autoritária"; ou, de outro modo, desenvolver um lado educativo, como um líder que se organiza em prol do condomínio e de um maior protagonismo dos moradores e funcionários.

A síndica Mitsuko Fukuzato identifica-se principalmente com o papel educativo, vocação que ela traz da profissão de pedagoga, afinal, se aposentou como professora na rede pública e desde 1996 atua nos prédios em que mora ou morou. Acumula hoje a administração de dois condomínios e deverá assumir um terceiro, em implantação. Pode ainda ser considerada obreira, fiscal e executiva, como alguém que cobre a falta de porteiro em um domingo, controla as finanças, investe nos edifícios e acompanha o dia a dia das obras. Da mesma forma, o síndico Cláudio Ferreira Barbosa, em seu terceiro mandato no Edifício Memphis, um residencial localizado no bairro de Cerqueira César, diz que alterna diferentes papéis, do fiscal de obra ao delegado.

Eles colocam que o "síndico de boa vontade" não funciona mais. Segundo a especialista Wanda Sanchez, é hora de aposentar esse perfil (“despreparado para as adversidades e os conflitos”), conferir assertividade e equilíbrio às posturas, e superar o "gap" que ainda persiste na transmissão do conhecimento de um síndico para outro e na comunicação com os condôminos. "O condomínio se assemelha a uma 'nanocidade', com prefeitos e delegados, entre outros. Ele tem suas alegrias e sofrimentos, e as pessoas tendem a despejar todos os acontecimentos da vida dela, como crises familiares e financeiras, de dores muito fortes, sobre o síndico." Daí a necessidade de que este gestor se prepare.

"CONHECE-TE A TI MESMO"

A alternativa é apostar no caminho do "autoconhecimento, fazer uma reflexão sobre o quanto se conhece para assumir o cargo de síndico", recomenda Wanda Sanchez; "um exercício de consciência para ter cuidado consigo mesmo, vejo muitos adoecerem ou fazerem coisas danosas", argumenta. A ideia é identificar os modelos comportamentais predominantes, seguindo o aforismo grego "conhece-te a ti mesmo". A frase inspirou inúmeros filósofos, como Sócrates, a defender que o homem cuide de si e para isso investigue sua verdade interna como caminho de preservação e crescimento. No ambiente do condomínio, isso se torna premissa essencial para que o síndico evite "o sequestro emocional" pelo outro, "o roubo de seu tempo", que ele compreenda que o condômino poderá culpá-lo - "despejar a raiva ali" - por situações que fogem às atribuições de um gestor, analisa Wanda. Isso o ajudará a "não levar a reação do condômino como algo pessoal". Ao síndico compete, sobretudo, "ter maturidade para lidar com o estresse sem responder com agressividade".

COMPETÊNCIAS

A estratégia, prossegue Wanda, é "mapear o cenário de quem sou e do próprio condomínio, saber que há pessoas que vão te testar o tempo todo, ter foco na solução e estabelecer prioridades”. Nesse exercício, o síndico poderá desenvolver competências como assertividade, proatividade, autodisciplina, controle emocional (e resistência à pressão), maturidade, tolerância (mas com firmeza), docilidade, conhecimento, organização, abertura e eficiência, enumera a especialista. Traços que contribuirão para impedir, por exemplo, que assembleias de condôminos se transformem em verdadeiros campos minados. "Ele deve se organizar para o momento, preparar apresentações, levar os planos A, B e C, e não se deixar provocar pelas intrigas nem se render às pressões – sempre há pessoas que o testam para ver até onde ele vai. Precisa ser transparente.”

Segundo a psicóloga, a principal fonte do desequilíbrio em todo condomínio vem do medo com a questão financeira: “As pessoas se armam e estão sempre desconfiadas, esse é um dos principais prejuízos emocionais que recai sobre o síndico e o equilíbrio do ambiente”. “Muito dinheiro envolvido e pouca transparência" serve de gatilho para as desconfianças, emenda Wanda. Portanto, o "desafio é orientar e informar, quase como um educador, quebrando paradigmas comportamentais e de comunicação”, completa a especialista.

A síndica Mitsuko Fukuzato afirma que tirou "grande proveito” da sua experiência profissional, “tanto na parte de RH (Recursos Humanos) quanto financeira”. “Procuro o equilíbrio entre ambas, ao mesmo tempo em que observo o perfil dos moradores, dou valor a cada detalhe do dia a dia, ao conforto deles, adequando o condomínio às suas necessidades", relata. Ela transpôs para o condomínio a filosofia educacional de atuar na formação e aquisição da autonomia dos indivíduos, no caso, dos funcionários. "De dependentes, eles se tornam eficientes na ação, damos essa base sólida", arremata.

MULTIPLICIDADE DE PAPÉIS

"Claro que há momentos em que sou emotiva, mas sou disciplinada, tenho autocontrole e procuro dar um tempo e repensar as situações; em caso de atrito entre moradores e/ou funcionários não assumo nenhum lado e busco uma solução que satisfaça, da melhor forma possível, a ambos", pondera Mitsuko, em um típico papel de mediadora. Ou ainda de ouvinte, conforme pontua Venâncio Pereira, sócio da administradora que atende aos condomínios representados pela síndica. Segundo ele, “o síndico que não sabe ouvir cria celeumas e dificuldades”.

E além do diálogo, também o conforto, a transparência e o equilíbrio financeiro ajudam a diminuir os conflitos, completa Mitsuko. "Trabalho muito para que as contas fiquem no positivo, o condômino está muito direcionado para essa parte, por isso o síndico tem que ir junto e se envolver com tudo." Prestar contas com frequência é parte de seu ritual administrativo, mobilizando o conselho, informando os condôminos e conferindo todo pagamento feito. “Amo o que faço e fico realizada quando há um equilíbrio financeiro das contas do condomínio”, justifica Mitsuko.

Para seu colega, o síndico Cláudio Ferreira Barbosa, a realidade multifacetada de um condomínio, com desafios provenientes de diferentes flancos (financeiro, comportamental, de manutenção etc.), leva os gestores a desempenhar uma multiplicidade de papéis. “Vejo-me em vários deles, como no de conciliador, juiz, advogado, ouvinte, fiscal e, às vezes, delegado, porque há coisas que precisam ser impostas, sempre com o respaldo da Convenção, do Regimento Interno e do Código Civil”, afirma.

No Condomínio Edifício Memphis, onde mora há duas décadas, inexiste, por exemplo, vagas de garagem para todas as unidades. Com 50 anos, o prédio passa por amplo processo de modernização, porém, não tem espaço ou possibilidade de mudar a situação da garagem. É preciso, assim, postura firme diante de abusos e desrespeitos no uso do estacionamento. “Já notifiquei e multei muita gente por causa disso, principalmente por guardar moto de visitante no prédio ou ocupar a vaga de emergência”, diz. “Síndico ‘quebra-galho’ não existe no meu vocabulário”, tampouco o “síndico mordomo”, disponível 24 horas para resolver os problemas dos moradores, explica Cláudio. Ele defende que o síndico assuma posturas profissionais, firmes, ao mesmo tempo conciliadoras, adquirindo a confiança do condômino.

Fotos: Rosali Figueiredo

Matéria publicada na edição - 208 de dez/jan-2016 da Revista Direcional Condomínios

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