Jardim Paulista & Cerqueira César: Síntese urbana de São Paulo (Breve perfil do Condomínio Conjunto Nacional)

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Entre os meses de dezembro e o aniversário de São Paulo, em 25 de janeiro, a Av. Paulista se converte no principal passeio de moradores, visitantes e turistas, que vão ao local conhecer o colorido e as luzes das fachadas dos prédios, na celebração ao Natal, Réveillon e à data comemorativa da cidade.

Se a moradia na região é para poucos, já que bairros como Cerqueira César e Jardim Paulista concentram um dos metros quadrados mais caros de São Paulo, a população que transita por seus espaços comerciais - como galerias e shoppings, escritórios, clínicas, hospitais, hotéis, estações de metrô, bares, restaurantes, cinemas, teatros e livrarias - carrega o traço cosmopolita que caracteriza a ocupação urbana da metrópole.

Para quem se identifica com o ritmo acelerado da vida citadina, estar ou visitar a Av. Paulista e o entorno é como recarregar as baterias, apesar do vai-e-vem agitado dos carros e ônibus, dos riscos de assaltos e sequestros- -relâmpagos a cada esquina, do dos congestionamentos, e dos empreendimentos imobiliários que insistem em subir nas alturas e ocultar cada vez mais o horizonte.

Para o síndico Cláudio Ferreira Barbosa, que há 20 anos mora no bairro, no Condomínio Edifício Memphis, o local é imbatível em termos de acesso ao transporte público, ao comércio, lazer e serviços. Perde, no entanto, na locomoção com automóvel e começa a enfrentar de maneira acentuada a invasão de suas calçadas pelos bares, que provocam muito barulho, sob omissão da Prefeitura. “Mas tudo isso tem sido compensado pela mobilidade”, afirma.

O gerente predial Celso Daniel também elogia a mobilidade e a facilidade de encontrar serviços de qualidade. “Os melhores restaurantes de São Paulo estão aqui”, aponta. Ele trabalha e mora há dez anos na região, diz que o “custo de tudo é muito elevado”, mas curte rituais já enraizados no bairro, como a feira dominical na Alameda Lorena, recheada de “vips e famosos”, o lanche em padarias tradicionais e o passeio ao Parque do Ibirapuera, que fica bem próximo. A segurança é outro ponto favorável. Por enquanto, a soma dos aspectos positivos tem compensado o custo de vida e o trânsito caótico das ruas e avenidas locais.

CONJUNTO NACIONAL, UM MARCO

A síntese deste cotidiano pode ser encontrada no Conjunto Nacional (Foto montagem ao lado), que ocupa um quarteirão na Av. Paulista. Oficialmente inaugurado em 1956, o projeto do arquiteto David Libeskind ganhou corpo em etapas. Sua galeria foi entregue em 1958; ela forma uma espécie de praça coberta, com terraço, e liga as quatro ruas ocupadas pelo empreendimento. Em 1962, foram concluídas as torres, que originalmente abrigariam hotel e flat, mas foram convertidas em dois prédios comerciais e um residencial.

O Conjunto inspirou o surgimento de outras galerias no centro de São Paulo nos anos 50, representou o primeiro shopping center da América Latina e, ainda hoje, serve de parâmetro para a política urbana da cidade. De acordo com a síndica Vilma Peramezza, a concepção “multiuso” do espaço está servindo “de base para o novo Plano Diretor”, que pretende estimular a construção de empreendimentos de uso misto, agregando emprego e moradia próximos a estações de metrô e demais pontos de acesso fácil ao transporte público e à infraestrutura urbana.

Tombado como patrimônio histórico e urbanístico, o Conjunto Nacional protagoniza outros pioneirismos, como a decoração natalina feita com materiais reciclados e a coleta seletiva. A decoração natalina de sua fachada começou há 15 anos, 14 dos quais concebida pelo artista plástico e cenógrafo Silvio Galvão. Neste ano, por exemplo, ela homenageia a cultura árabe sobre os brises da fachada voltada à Paulista, reproduzindo uma espécie de persiana característica de sua arquitetura, denominada “muxarabi”. Foi produzida com mais de 20 mil tampinhas de garrafa, 13 mil CDs, 10 mil garrafas pet, quatro mil galões de água e 600 metros de mangueira, por artesãos ligados a entidades como o CAPS Itapeva (Centro de Atenção Psicossocial), o CRATOD (Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas), Grupo Fênix e RECIFRAN (Serviço Franciscano de Apoio à Reciclagem).

Também presidente da Associação Viva São Paulo, Vilma Peramezza observa que o Conjunto Nacional reúne a diversidade cultural e social que caracteriza São Paulo. “É um lugar da comunidade da população paulistana; nos elevadores podemos encontrar, no mesmo momento, do office-boy ao ex-presidente da República”, ilustra. O local estabelece um diálogo constante com o bairro, não apenas através da moradia e do trabalho, como pela galeria que atrai visitantes, e abriga exposições, campanhas educativas e de saúde, cafés e lojas; ou pelo terraço superior, aberto ao público, com bancos para descanso e paisagismo acolhedor. O convívio é pacífico, sem registros de violência ou atos de vandalismo. “Se você trata essa população com atenção e respeito, cria-se um clima de respeito”, ensina.

Vilma Peramezza é contra o fechamento total da Avenida Paulista aos domingos para a circulação de veículos automotores. Considera que a medida “discrimina e exclui as pessoas de um direito que elas têm”. Vilma lembra, por exemplo, que mudanças e entregas de materiais de reformas nos prédios só podem ser feitas aos domingos. De outro modo, ela teme migração maior das sedes de grandes empresas, que já começam a deixar a Paulista, hoje palco de manifestações “quase diárias”, que, de acordo com a síndica, diminuem a “mobilidade, a capacidade de ir e vir”.

COLETA SELETIVA, PIONEIRISMO

Há 25 anos o Conjunto Nacional implantou a coleta seletiva dos resíduos (Fotos acima), iniciativa pioneira em São Paulo adotada pela síndica Vilma Peramezza. Todo material é separado na origem (escritórios, lojas, restaurantes e apartamentos). Uma central instalada no subsolo compacta papel, papelão, alumínio e garrafas pet; guarda resíduos de produtos médicos em freezer; e armazena o conteúdo orgânico, proveniente dos restaurantes, em uma câmara fria. Vidros, lâmpadas e eletrônicos também são mantidos separadamente, para posterior destinação. Segundo Vilma, no cargo de síndica e gerente há 31 anos, “pagamos a retirada e a taxa de aterro, mas diminuímos muito o volume, nesses 25 anos calculo que deixamos de mandar para o aterro dois ‘conjuntos nacionais’ inteirinhos”.

Matéria publicada na edição - 208 de dez/jan-2016 da Revista Direcional Condomínios

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