Funcionários: Em busca do profissionalismo na relação com o condomínio

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À frente da gestão de trabalhadores próprios e terceirizados, a síndica Ângela Merici Grzybowski relata a sua jornada de aprendizados, visando ao profissionalismo de suas equipes nos condomínios.

 

Síndica profissional há dez anos, gestora de três residenciais, Ângela Merici Grzybowski convive com as mais diferentes situações quando se trata de colaboradores. Ela administra contratos diretos, alguns de novatos, outros com muitos anos no emprego, em prédios com e sem zeladores. Também atua com terceirizados. E diz que toda essa experiência a tem ajudado a moldar uma relação mais profissional com os funcionários, já que os condomínios custam a se colocar - ou a serem vistos - como empresas (com suas incontáveis demandas e compromissos legais).

Analista de sistemas aposentada, Ângela tinha experiência anterior com trabalho em equipe, mas não na parte operacional. Ela observa que “no condomínio muda tudo”, como a linguagem (menos técnica e mais pausada) e a forma de cobrar o serviço do trabalhador. E diz que esse foi seu primeiro grande aprendizado desde que se tornou síndica. Também compreendeu a importância de sempre ajustar rotinas e estratégias de trabalho conforme as necessidades dos condomínios. É o caso do recurso que utiliza hoje de contratar um trabalhador temporário para cobrir as férias da equipe permanente, tiradas em meses sequenciais.

No momento, Ângela faz a gestão de seis funcionários próprios tanto no Condomínio Residencial Maresias (quatro porteiros e dois auxiliares de serviços gerais) quanto no Condomínio Edifício Rossini (quatro porteiros, o zelador e um faxineiro); e de um contrato de terceirização com dez colaboradores no Condomínio Smart Perdizes, onde existe apenas a subordinação direta do zelador.

POSTURAS

O fato é que Ângela aprendeu gradativamente a administrar o setor, entendendo que deveria também ensinar. Daí o treinamento anual que oferece para orientar e corrigir as posturas dos funcionários no posto de trabalho. “Eles precisam ter claro que o prédio é como uma empresa. Não se atende, por exemplo, o telefone ou mesmo interfone com um simples ‘alô’, é preciso se identificar. No trato com as pessoas, eles são orientados a evitar comentários, conversas e fofocas com os moradores, coisas que você corrige com o tempo, porque algumas pessoas [colaboradores] tendem a ver o condomínio como uma casa, mas não é. Os funcionários trabalham e têm que encarar isso pelo lado profissional”, observa.

Segundo ela, outras dificuldades encontradas junto aos funcionários estão no cumprimento do horário e no uso de uniformes. “Muitos acham que podem sair antes sem avisar porque ‘não têm chefe’! Mas as regras são iguais às das empresas. Até porque eles têm espaço e horário para refeição e descanso.”

MAPEAMENTO DA ROTINA DE TRABALHO

É importante ainda acompanhar durante um tempo o profissional para mapear sua rotina, afirma. “Precisamos conhecê-la para poder cobrar, incluindo as empresas de terceirização. Por exemplo, só podemos cobrar que uma área esteja limpa se soubermos que tem uma periodicidade definida para que ela seja trabalhada.” Isso ajuda, prossegue a síndica, a desenvolver um plano de atividades, contemplando a divisão das tarefas, os dias de execução etc.

APRENDIZADOS & ESTRATÉGIAS

Conforme o síndico esquadrinha as necessidades e rotinas de áreas como limpeza, portaria e manutenção, ele consegue desenvolver novas estratégias para a equipe, anota. No entanto, ela ressalva que “aprender leva tempo, pois cada condomínio tem suas necessidades, rotinas e até possibilidades. Você tem que ir acertando. Faz um primeiro plano, testa, ajeita, altera, até ver que aquilo está realmente consolidado. Isso quando a Prefeitura não altera o horário da coleta do lixo, aí é preciso mudar tudo de novo!”

Como exemplo, Ângela relembra a maneira como reorganizou o trabalho da limpeza no Residencial Maresias, em Perdizes, com duas torres. Prevalecia ali o mesmo horário para os dois profissionais  faxina, entre 7h e 14h20, um em cada prédio, o que deixava o condomínio sem limpeza em boa parte do período vespertino. “Procurei entender porque isso acontecia. Fui acompanhar e verifiquei que ambos cumpriam a mesma rotina, um em cada prédio. Entravam cedo para retirar o lixo, a coleta da Prefeitura era entre 7h e 8h. Mas não dava para ambos entrarem e saírem cedo e o condomínio ficar sem limpeza das 15h em diante, momento em que ainda há bastante movimento de prestadores de serviços.”

Ângela reorganizou as escalas, mudou as atribuições de cada funcionário e dividiu entre eles a retirada dos lixos, a limpeza das áreas comuns, de calçadas e elevadores – aqui feita tanto no começo da manhã quanto no final da tarde. Ela definiu que entre 7h e 18h haja ao menos um profissional do setor nos edifícios. Cada um cumpre oito horas diárias durante a semana, quatro aos sábados e, aos domingos, faz escala alternada. “Assim conseguimos fechar o ciclo da limpeza, o prédio começou a ficar muito mais limpo.”

Na área de portaria também é essencial organizar a rotina “de tudo o que acontece”, escalar funcionários para cobrir horários de lanches e folgas e atribuir responsabilidades para recebimento e entrega de encomendas, observa Ângela. Já na manutenção, o encarregado, o zelador ou o auxiliar de serviços gerais (conforme a determinação de cada condomínio) deve cumprir um roteiro de verificações previamente combinado com o síndico. Entram nas listas de tarefas desde a checagem da luz piloto no topo do prédio e da limpeza dos ralos, ao funcionamento da iluminação nas escadarias e demais áreas comuns, entre muitos outros. “Cada prédio tem sua peculiaridade, como no Residencial Maresias, que possui filtro na entrada da água da rua. Periodicamente ele precisa de retrolavagem.”

POSTURAS DO SÍNDICO

“Eu gosto de passar diretamente para o funcionário o que precisa que ele faça”, revela Ângela. Essa característica decorre de uma particularidade do Condomínio Maresias, onde a síndica atua também como assistente administrativa e não possui zelador. Ou seja, ali tem que haver interlocução direta com a equipe. Nos demais edifícios, principalmente onde a portaria e limpeza são terceirizadas, a síndica diz que está aprendendo a delegar esse papel ao zelador (único funcionário contratado do condomínio). “Mas será que ele vai se lembrar dos detalhes? Tento passar um briefing a ele, mas às vezes entra ruído no meio. Eu não sei mandar, eu peço. Mas tem que saber pedir, por isso detalho o que quero, para que o funcionário não faça do jeito que acha que deve.”

Ângela reforça que busca o profissionalismo, tanto da parte dela, gestora, quanto do funcionário. Uma estratégia que utiliza há anos no Residencial Maresias é promover festas de confraternização para trabalhadores e familiares, incorporando uma prática adotada por muitas empresas. “É uma maneira de o funcionário entender que aqui é seu local de trabalho [Assim, o gestor procura também agir como empresa]. Algumas posturas, inclusive, não cabem em uma confraternização, assim como não caberiam em um encontro da empresa, como fazer a dança da garrafa na frente dos colegas.”

Portanto, no quesito posturas, a síndica se considera “exigente”. Mas se cobra o uso de uniformes, ela os fornece anualmente. Se orienta para que o funcionário seja educado com o morador, que “engula sapo” quando necessário, de outro modo, Ângela procura agir em todo conflito cuja solução fuja da alçada ou do escopo de iniciativas do trabalhador. E se ele precisar faltar ou sair mais cedo, isso pode ser feito, desde que haja comunicação prévia e comprovação posterior do compromisso que justificou a ausência ou o encurtamento da jornada.

BENEFÍCIOS & FIDELIZAÇÃO

Em termos de benefícios, a síndica atende à Convenção Coletiva da categoria, alegando que o orçamento dos condomínios é sempre justo e não permite voos maiores. De qualquer maneira, ela procura incentivar sua equipe a que busque aperfeiçoamento e se prepare para a eventualidade de assumir vagas futuras num cargo melhor remunerado, mesmo que seja em outro condomínio. E no dia a dia do relacionamento do funcionário em seu ambiente de trabalho, procura criar um pouco de leveza aproveitando datas comemorativas ou ocasiões especiais (como jogos de futebol importantes) para reforçar o lanche com pipoca, refrigerante, panetone etc. Por fim, propõe-se a esticar folgas em momentos especiais (como Natal e Ano Novo) e a oferecer boas condições de trabalho, como ar-condicionado nas portarias, cadeiras ergométricas, EPI, vestiários e refeitórios bem equipados. Ela acredita que isso tudo ajude a fidelizar o funcionário no condomínio.

RELAÇÃO COM TERCEIROS

A gestão da mão de obra terceirizada é um pouco diferente, já que o síndico ou o zelador não podem dar ordens diretas ao trabalhador, sob pena de se caracterizar vínculo empregatício. “É um aprendizado lidar com essa situação, disciplinar-se para não interpelar diretamente o funcionário”, afirma. “A terceirização para o síndico representa menos mão na massa, menos ordem direta”, ilustra. A alternativa é desenhar bem o escopo da equipe (número de postos necessários) e das tarefas, colocá-lo em contrato e gerenciá-lo junto com o supervisor ou líder, sugere.

Segundo Ângela, a vantagem da mão de obra terceirizada é que a empresa se responsabiliza pela cobertura de faltas, licenças etc., “uma dor de cabeça a menos para o síndico”. No entanto, mesmo que o funcionário próprio tenha uma visão menos profissional do posto de trabalho em relação ao terceiro, e “quebre mais as regras”, “ele é mais proativo”. Resta aos síndicos estudarem bem as peculiaridades de cada condomínio para escolherem a melhor opção a essa realidade. Pois o que a história da síndica Ângela revela é que esses gestores não podem abrir mão de acompanhar o desempenho da equipe, nem de gerenciar uma área que responde em média por 50% a 60% dos custos dos condomínios.

Foto: Rosali Figueiredo

Matéria publicada na edição - 210 - mar/2016 da Revista Direcional Condomínios

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