Elétrica: Reformas e adequações, a experiência nos edifícios

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Balanço sobre incêndios gerados por sobrecargas e curtos- -circuitos em 2015 no País, divulgado pela Abracopel (Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade), indicam aumento substancial no número de ocorrências, que passaram de 295 em 2014 para 441 no ano passado (acréscimo de 49%). No total, os acidentes com eletricidade saltaram de 1.222 em 2014 para 1.257 em 2015, 33 deles com morte (contra 20 no ano anterior). Os dados são gerais, para todos os tipos de situações e edificações, e não discriminam os eventos nos condomínios, mas o fato é que a maior parte destes procura empresas de reforma e manutenção elétrica somente nas situações emergenciais, depois que ocorreram curtos-circuitos ou até mesmo incêndio. Ou, ainda, como decorrência das adequações exigidas pelo Corpo de Bombeiros, nas vistorias para expedição ou renovação do AVCB.

 

Em 2012, quando assumiu o cargo de síndica do Condomínio Cardeal, localizado no bairro do Itaim Bibi, zona Sul de São Paulo, Luciana de Souza Campos deparou-se justamente com uma situação precária e de risco iminente de incêndio nas instalações elétricas do prédio de mais de 50 anos. De imediato, providenciou uma inspeção por parte de equipe especializada e, em seguida, os reparos. “Eles eram urgentes, não sei porque houve tanta demora em fazer antes o que era necessário, já que o custo não foi tão alto”, observa. Segundo diagnóstico realizado pelos técnicos, havia discrepância entre a capacidade dos disjuntores das unidades (de até 70 amperes) e os originais (com 50 amperes), além de degradação da fiação, o que causava curtos nos quadros de distribuição.

Diferente da postura da síndica Luciana, a maior parte das chamadas dos condomínios junto às empresas especializadas acontece apenas nas emergências, aponta Rodrigo Henriques, tecnólogo em construção civil e técnico em eletrotécnica. “Quando o técnico chega, percebe que a situação é bem pior”, emenda. Por exemplo, Rodrigo cita caso recente de incêndio em um edifício residencial do centro de São Paulo: “Houve derretimento dos cabos de uma das prumadas, o que gerou combustão no centro de medição, ainda feito com quadro de madeira. O zelador conseguiu apagar o fogo com extintor, mas metade das unidades ficou sem energia. Foi realizada obra emergencial para restabelecer a energia, mas o prédio teve que passar por retrofit das instalações elétricas”.

Segundo Rodrigo Henriques, situações de risco independem da idade do edifício. Os problemas resultam da soma de vários fatores, desde o estado da manutenção até a diferença entre a demanda de carga do condomínio e a capacidade instalada. Também o escopo das soluções muda bastante, conforme o diagnóstico: vai desde a troca dos cabeamentos e equipamentos do centro de medição, entre outros, até a solicitação do aumento de carga junto à concessionária de energia.

São obras de melhorias e, se deixadas de lado, a edificação poderá sofrer desgastes nas instalações, com riscos à segurança. No caso do aumento de carga, mesmo prédios novos, com três anos de implantação, contratam o serviço quando há necessidade de liberar a instalação de aparelhos de ar-condicionado nas unidades privativas, afirma. Para isso, é fundamental requerer estudo de demanda, que avaliará a carga disponível em comparação com o acréscimo esperado. No aumento de carga, o ganho principal é a segurança e o desempenho dos sistemas, completa.

No Condomínio Edifício Itamarati, localizado em Higienópolis, área central da cidade, o síndico Raul Carmilo Granado afirma que promove estudos periódicos da demanda face à capacidade instalada. O empreendimento foi construído em duas etapas, com duas torres, entre os anos de 1950 e 1954, com 66 unidades. Ainda hoje apresenta fiações muito antigas, que vêm sendo substituídas conforme um cronograma próprio, que acompanha tanto a disponibilidade de verba quanto o andamento de reformas nas unidades (metade delas já concluída). O síndico observa que a adequação é feita passo a passo, e visa não apenas à segurança, especialmente pela instalação de equipamentos de ar-condicionado nos apartamentos, como adequar as instalações para automatizar a área de segurança, que terá reforço do CFTV, além de recursos de controle de acesso, como cartão RFID. Raul Carmilo reforça que as unidades estão desautorizadas a promover qualquer reforma interna, como instalação de ar-condicionado, sem aval de um projeto de adequação por parte do condomínio. Por enquanto, ele diz que a carga oferecida pela concessionária é suficiente, mas que a tendência, no futuro, é solicitar um acréscimo.

ANTES E DEPOIS: CONDOMÍNIO CARDEAL

Discrepâncias entre a capacidade instalada no prédio (menor) e a das unidades, disjuntores unipolares operando no lugar de bipolares, fiação “com ponta deformada pelo aquecimento (efeito Joule), ocasionado pela falta de seletividade de proteção”, além de fiação exposta na Casa de Máquinas dos elevadores foram alguns dos problemas sanados pelo engenheiro da área de segurança, Ayrton Barros, no Condomínio Cardeal.

O especialista foi contratado após um laudo pericial providenciado pela síndica Luciana Campos, o qual identificou parte das irregularidades. De acordo com esse diagnóstico, “a capacidade original não pode ser alterada sem um estudo preliminar feito por um engenheiro eletricista”, sob pena de haver “aquecimento dos fios, com consequente derretimento da capa de isolamento, podendo chegar a curto-circuito”.

Os serviços de readequação do Condomínio Cardeal envolveram novos estudos e diagnósticos, conforme descreve o Engo Ayrton Barros:

1ª etapa: Observação da condição da “seletividade da proteção em função da bitola das fiações que alimentavam as unidades autônomas” até o momento do início da reforma;

2ª etapa: Medição das bitolas de todos os cabos das prumadas, que saíam dos disjuntores;

3ª etapa: Acompanhamento das fiações das prumadas, a fim de verificar se os cabos que partiam dos disjuntores possuíam a mesma bitola até dentro das unidades habitacionais;

4ª etapa: Levantamento “da capacidade de condução de ruptura dos disjuntores termomagnéticos dos apartamentos em função das fiações existentes”. O engenheiro diz que realizou também o acompanhamento dessas fiações nas caixas de passagens.

 

MAPEAMENTO TERMOGRÁFICO AUXILIA NA IDENTIFICAÇÃO DE PROBLEMAS

Os condomínios possuem quadros de força distintos, alguns de alta e baixa tensão, além de equipamentos que possam estar gerando sobrecarga ou aquecimento sem que, num primeiro momento, o síndico, usuários ou o zelador percebam. Na maior parte dos casos, não é possível identificar visualmente essas ocorrências, afirma Carlos Alberto dos Santos, consultor da área de riscos nas edificações. Ele recomenda aos síndicos contratarem periodicamente o mapeamento termográfico dessas instalações, que ajuda também na localização de itens em não conformidade com as normas técnicas, como cabos, disjuntores, fusíveis, barramentos etc. De acordo com o técnico em eletrotécnica Rodrigo Henriques, aparelhos de termografia são utilizados também na fase de conclusão de serviços, com vistas a observar se as instalações estão operando de forma adequada, com parafusos devidamente ajustados e sem perda de energia.

 

 

Matéria publicada na edição - 210 - mar/2016 da Revista Direcional Condomínios

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