A vez do retrofit elétrico no condomínio, com aumento de carga

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Protelar é um verbo que não cabe a algumas situações no condomínio, a exemplo da parte elétrica. Quanto mais elástico o prazo para revisão das instalações e adequação às normas técnicas que vão se aperfeiçoando, maiores os riscos. Não à toa, o engenheiro de segurança e perícias, Ayrton Barros, se depara cotidianamente com situações precárias, especialmente derretimentos de capas de fios, barramentos e disjuntores com chamuscamentos (sinais de curto-circuito), fiações sem isolação, assim como partes de cobre expostas e que podem dar choques em caso de contato (chamadas de “partes vivas”).

“Temos visto verdadeiras gambiarras nas instalações elétricas de condomínios, que colocam em risco a vida não apenas da pessoa que executa os serviços sem qualificação quanto dos condôminos”, reforça o profissional. A somatória dos improvisos acaba gerando um custo elevado aos condôminos, além dos riscos inerentes à condição de precariedade.

É uma situação vivida, por exemplo, pela síndica Mila Fernandes Rocha, do Condomínio Edifício Sucre, localizado em Santa Cecília, região central de São Paulo. O prédio de 32 unidades foi construído no final dos anos 60 e apresenta diversas não conformidades, tanto no centro de medição quanto nos quadros de disjuntores distribuídos nas áreas comuns, quanto nas unidades. Mila Fernandes exerce seu segundo mandato e vem promovendo a modernização paulatina dos sistemas construtivos do edifício.

No caso da elétrica, contratou o diagnóstico e projeto de retrofit, com aumento de carga. A necessidade de renovar o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) deu o start ao processo. “Como um novelo de lã, você puxa um fio e vão se desdobrando outros”, compara a síndica, que orçou gastos em torno de R$ 240 mil, com rateio extra de 18 meses. O custo é elevado não apenas em termos financeiros: “É tudo muito trabalhoso, iniciando pelo desgaste da fase de convencimento dos condôminos, ao monitoramento passo a passo dos serviços e obras”. O engenheiro Ayrton Barros, que realizou a vistoria e acompanhará os trabalhos, enumera os principais problemas identificados no Sucre:

- Em uma das unidades

- Disjuntores com amperagem maior do que a da capacidade de condução dos fios. Um erro comum entre os moradores é instalar disjuntores mais potentes em busca de aumento da carga interna. Mas isso gera dois problemas: à própria unidade, com risco de incêndio, pois o disjuntor maior deixará de proteger a fiação que vem após o mesmo; ao condomínio, pois a carga do apartamento estará incompatível com a disponível para aquela unidade no centro de medição, avalia Ayrton;

- Fios com bitolas distintas, ou seja, com capacidade de condução diferenciada para um mesmo circuito (como na alimentação do chuveiro elétrico, por exemplo, com um fio “grosso” e outro “fino”);

- Falta de manutenção ou intervenções erradas, perigosas, executadas por profissionais não qualificados e/ou certificados;

- Materiais fora das normas técnicas e de segurança atuais, tais como quadros com fundos de madeira e dois disjuntores unipolares exercendo a função de um disjuntor bipolar, seletividade de proteção, falta de DR (proteção contra choques) e DPS (dispositivo de proteção de surto).

- Nas áreas comuns

- Quadro de entrada do centro de medição inadequado, sem seletividade de proteção na distribuição da energia e com fundo de madeira e partes vivas expostas;

- Caixas de distribuição também fora de norma (hoje elas devem possuir até 12 relógios e não mais 16 - nova configuração) e ser seccionadas, individualmente (São quadros de manobra que seccionam as caixas dos relógios);

- Caixas antigas com fios expostos e sinais de curto-circuito (chamuscamentos); o Disjuntores e bitolas dos fios incompatíveis (seletividade de proteção);

- Insuficiência na potência de energia instalada. Será preciso ampliar a disponibilidade de carga do Edifício Sucre, que foi construído em uma época de poucos aparelhos elétricos em uso e com chuveiros que à época demandavam correntes de até 20 ampères. Atualmente, eles exigem, em média, 40 ampères.

A síndica Mila lembra que se chegou a essa condição pois não houve antes preocupação com a adequação às normas e também porque o centro de medição ficava aberto para intervenção de qualquer morador. “Minha primeira medida, quando assumi, foi determinar que ninguém mais mexeria no centro de medição”, diz. As reformas estão começando e demandarão pelo menos cinco meses, prazo que depende, porém, do cumprimento do cronograma pela concessionária de energia. Após a conclusão dos trabalhos, deverá ser realizada vistoria em cada unidade. O objetivo é orientar os moradores quanto às adequações necessárias e, em caso de risco iminente de curto-circuito e incêndio, “notificar e exigir a reforma”, diz Mila.

O retrofit do Edifício Sucre visará não apenas à adequação às normas vigentes, como também à necessidade de se introduzir materiais normatizados e com selo INMETRO, mais seguros, modernos e eficientes. Hoje, por exemplo, observam-se disjuntores antigos (pretos) e fixados com suporte de metal, que passava em cima dos parafusos de fixação do fio. Quando fixados em fundo metálico, esses suportes propiciavam fechamento de curto com as chaves de fenda, na hora da manutenção, explica Ayrton Barros.

Além disso, a síndica deverá providenciar a substituição do poste da rua, a pedido da concessionária, e instalar outra prumada (cabeamento), compatível com a nova capacidade de carga dos apartamentos. Ayrton Barros destaca que toda intervenção ocorrerá de acordo com a NR- 10, Norma Regulamentadora de Segurança em Instalações e Serviços de Eletricidade, além da NBR 5.410:2004, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que estabelece parâmetros para instalações elétricas de baixa tensão.

PRÉDIOS MAIS NOVOS

Edifício com praticamente metade da idade do Sucre, o Golden Park também precisará passar por ampla reforma elétrica, não apenas para renovação do AVCB, quanto para dar maior segurança aos funcionários que cuidam do setor, afirma a síndica profissional Patrícia Rodrigues. Localizado na Vila Clementino, zona Sul de São Paulo, o Golden exibe ainda quadros elétricos dotados de chave-faca. “Estou entrando em contato com diversas empresas da área elétrica para uma revisão total do condomínio, muitos apartamentos estão instalando ar-condicionado e há necessidade de adequação da rede, certamente ele necessitará de aumento de carga devido à modernidade”, argumenta.

Para o engenheiro eletricista Edson Martinho, a reforma elétrica independe da idade, ela pode ser indispensável a condomínios recentes que queiram, por exemplo, liberar a instalação de aparelhos de ar- -condicionado nas unidades. Mas é certo que, conforme maior o tempo, mais amplas serão as intervenções. Martinha cita o exemplo de um residencial de 32 anos localizado no bairro de Perdizes, zona Oeste de São Paulo. “O edifício precisa da adequação tanto pelo tempo de vida útil das instalações quanto pela necessidade de aumento de carga”, observa.

“O projeto foi apresentado à concessionária, estamos aguardando a aprovação, enquanto isto começaremos os trabalhos pela substituição dos condutores das prumadas (entre medidores e apartamentos), adiantando o processo”, descreve o engenheiro. Martinho destaca a importância de haver o “redimensionamento dos condutores para adequar as atuais cargas”. Segundo ele, a vida útil dos cabos gira em torno de 30 anos, “mas isto depende da utilização e cuidados, pois os cabos sofrem a deterioração da cobertura (isolamento) com o tempo, e este é um dos fatores que coloca em risco a instalação, através de curto-circuito e princípios de incêndio”.

Matéria publicada na edição - 211 - abr/2016 da Revista Direcional Condomínios

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