Mônica Salmaso e Sandra Degenszajn: síndicas do bem viver

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Inspirada pelo clima de fraternidade que toma conta dos meses de dezembro e janeiro, a revista Direcional Condomínios traz o perfil das síndicas Mônica Salmaso, uma das principais vozes femininas da música popular brasileira, e Sandra Degenszajn, monja e uma das fundadoras da Comunidade Zen Budista Zendo Brasil. Elas protagonizam experiências edificantes em seus condomínios, histórias que vale a pena relatar.

A cantora Mônica Salmaso, uma das mais belas vozes da música popular brasileira da atualidade, está há quase quatro anos como síndica do Edifício Turmalina, que compõe o conjunto de oito prédios do Condomínio Parque Aclimação, na região central de São Paulo. Ela integra o conselho de oito síndicos e síndicas do local, grupo que vem trabalhando para valorizar o espaço e o convívio entre os condôminos, e transformar seus 14 mil metros quadrados em uma ilha de paz em meio ao agito da metrópole.

Afinal, o CPA, como é chamado o condomínio inaugurado há 55 anos, foi pioneiro na América Latina como residencial de amplo espaço de lazer e parque arbóreo. Seus prédios estão dispostos lateralmente, como uma espécie de ferradura, voltados para o interior do empreendimento, e têm apenas 12 andares. Dentre os 142 exemplares de espécimes frutíferas e ornamentais, os moradores usufruem de bancos à sombra, piscina suspensa e quadra de esportes. As fachadas dos prédios são revestidas em pastilhas em tons pastéis, algumas com varandas, outras com jardineiras.

São 260 apartamentos e cerca de 1.200 moradores, muitos deles pertencentes a famílias que estão há duas ou três gerações no local. Mônica, entretanto, chegou ali há apenas sete anos, assim como alguns novos proprietários que se encantaram pelo condomínio, mas encontraram uma cultura muito individualizada em cada prédio. Era como se fosse uma vila, cada um cuidando de sua vida e misturando interesses particulares com as coisas da administração, lembra a cantora. De outro lado, o sistema de autogestão pecava pela falta de profissionalismo, inexistia emissão de boletos e faltava muitas vezes a comprovação de quitação do rateio.

Mônica conheceu o lugar quando visitou uma amiga. “Foi amor à primeira vista.” Paulistana da zona Sul, ela costumava frequentar a Aclimação quando ia aos estúdios da Rádio Eldorado, selo pelo qual lançou o CD Voadeiras. Já com uma trajetória consistente na área musical, Mônica escolheu o CPA para criar o filho e viver com o marido, o músico Teco Cardoso. Mudou-se para o Edifício Turmalina e acabou percebendo que havia muito a ser feito, desde ajudar a profissionalizar a gestão central e atualizar a Convenção de 1964, como realizar obras em seu próprio prédio.

A mais visível e notória delas foi restituir um mosaico de pastilhas em toda extensão de uma parede do hall social, pois o original fora substituído por mármore nos anos 80. “Parecia uma lápide”, conta Mônica, que conseguiu mobilizar os moradores, aprovar um novo mosaico em assembleia e engajá-los na escolha do desenho. Em tempo: cada prédio do CPA possui um mosaico de sua época de construção. Entretanto, o do Turmalina foi arrancado sem que houvesse qualquer registro iconográfico anterior. O jeito foi contratar a artista plástica Patrícia Hessel, que sob o acompanhamento de um grupo de moradores e pesquisa dos demais mosaicos, propôs um novo layout. Uma empresa especializada executou a obra, entregue há sete meses. “O processo foi muito bonito, porque a ideia não era só resgatar uma decoração, mas mostrar como é caro e difícil cuidar do patrimônio”, avalia Mônica.

Em sua experiência de síndica, entram ainda a recuperação das finanças do prédio, a reforma elétrica e, agora, colocar em pauta a recuperação da fachada. Além de conseguir ver atualizada a Convenção, processo em andamento. Mas Mônica conta que vai “parar um pouquinho”, seu 2º mandato finalizará em março de 2014, ela pretende não se recandidatar, pois quer dar oportunidade a que outras “pessoas possam entender do que se trata”.

MEDITAÇÃO, CAMINHO PARA UNIR AS PESSOAS

Quem imagina que a meditação seja uma experiência isolada do convívio, se surpreende quando ouve a síndica e monja budista Sandra Degenszajn dizer que a prática permite, justamente, desenvolver nas pessoas a relação com o outro, a percepção de que elas fazem parte do mundo. “Esse ensinamento pode ajudar a pessoa em qualquer atividade. Dá para fazer essa associação com o dia a dia do síndico, porque quer mais do que zelar por um bem que não é só dele? É como se a pessoa abrisse o olhar para cuidar de uma família maior”, explica a monja. Tudo isso se parece muito com “o voto do monge”, prossegue Sandra, “que é o de entender que sua família são todos os seres”. “Não somos separados do outro, vivemos em comunidade, querendo ou não.”

De família judaica, Sandra Degenszajn tomou contato com o pensamento oriental no final do curso superior, realizado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Farias Brito, em Guarulhos, após conhecer o Tai Chi Chuan. Envolveu-se com a modalidade durante dez anos, até que chegou ao zen budismo e ajudou a fundar a Comunidade Zen Budista Zendo Brasil, onde está como coordenadora geral até o final de 2013. Hoje, ela concilia a atividade de monja com a profissão de arquiteta e a função de síndica do Edifício Nicola Pardelli (na região do Metrô Clínicas, em São Paulo), cargo para o qual foi eleita no começo de 2012. Antes dessa nova experiência, foi subsíndica e conselheira no mesmo edifício, onde reside há 15 anos.

Candidatou-se ao cargo para agilizar as reformas inadiáveis, principalmente na parte elétrica e de prevenção de incêndios, próxima etapa dos investimentos no local. O edifício tem 42 unidades e quase 50 anos. E entre as mudanças que Sandra ajudou a promover, mesmo na época de conselheira e de subsíndica, está a introdução da meditação (Zazen), oferecida aos moradores toda quarta-feira, entre 19h e 20h. Com 17 participantes mais frequentes, as sessões, realizadas no salão de festas em almofadas dispostas no chão, encontram adesão até mesmo junto de moradores de prédios vizinhos.

Mas Sandra ressalva que o perfil mais solidário dos condôminos do Edifício Nicola Pardelli ajuda muito nessa caminhada. Ela, que se define como uma pessoa bastante ativa e efetiva, conta, por exemplo, com grande auxílio do subsíndico, Jair de Andrade, e de dois conselheiros. Engenheiro elétrico, o subsíndico está dando suporte à reforma atual da prumada elétrica. A própria sessão de meditação teve origem na maneira espontânea como surgiu a academia de ginástica do condomínio: através da doação de equipamentos pelos moradores, os quais acabaram estimulando a administração a comprar um piso apropriado para o espaço, além de uma estação de musculação e alguns acessórios. Foi contratado ainda um personal, que atendia a grupos de três moradores, em horários pré-definidos.

Desse convívio surgiu a proposta dos condôminos para que a monja iniciasse a prática do Zazen. E há muitos outros casos colaborativos, como a do morador que pintou a demarcação de algumas vagas de garagem, ou a do subsíndico que “fabricou” os perfis em alumínio das portas antigas dos elevadores (não mais encontrados no mercado). Aos colegas síndicos e síndicas, Sandra deixa uma dica: abrir-se para “olhar a necessidade real do condomínio, que não esteja contaminada pela minha nem pelo grupo que eu gosto. E assim você pode fazer para tudo na vida; para sua empresa, família, bairro, clube.”

Matéria publicada na edição - 186 de dez/2013 da Revista Direcional Condomínios