Neuras no condomínio: Ruídos, rumores e ‘barulho’

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Ruídos advindos do vizinho, das áreas comuns, instalações prediais e da própria rua tiram o sono e o humor dos condôminos e podem até afetar a saúde. Muitas vezes, porém, isso gera neuras e barulho desproporcional, comprometendo a paz no ambiente coletivo.

O “barulho do barulho” é um dos ruídos que mais chegam aos ouvidos dos síndicos, aponta o engenheiro civil Marcus Vinícius Fernandes Grossi, especializado em normas de desempenho relacionadas à acústica das edificações. Como profissional e também ex-morador de apartamento, ele questiona justamente esse ponto: “Em geral, o Regulamento Interno define que não se pode fazer barulho depois das 22h. Mas o que seria tolerável e intolerável após o horário? Já tive reclamação de vizinho por eu abrir porta de gaveta!”.

Segundo os dicionários, a palavra barulho está relacionada a uma sucessão de ruídos e ainda à “desordem, motim, tumulto, atrapalhação, confusão”. Da parte dos legisladores, barulho é todo ruído que ultrapassa o tolerável aos ouvidos humanos, algo como os 70 decibéis estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como limite para garantir a longevidade da audição; ou entre 80 e 90 decibéis, como definem as normas previdenciárias brasileiras para proteger a saúde do trabalhador. Barulho, portanto, representa tudo o que soa desagradável ao homem, além de rumores (do Latim rumoru), burburinhos ou fofocas.

No condomínio, as fontes de “barulho” são diversas e podem vir tanto da conturbação provocada pelos ocupantes (com ou sem razão), quanto da “vibração da estrutura ou de equipamentos”, explica o engenheiro Marcus Grossi. “Devemos observar o que é aceitável em termos de frequência e intensidade, de forma a avaliar seu impacto. A comprovação do ruído e da maneira como ele afeta o ouvido depende de medições tomadas por determinado período de tempo. Eu, por exemplo, fui multado no condomínio em que morava porque o vizinho de baixo era encrenqueiro. A síndica acatou uma reclamação feita no livro de ocorrências sem averiguar. Não houve sequer busca de comprovação. Inexistia barulho que justificasse a queixa, tecnicamente não havia sentido, o barulho tem que ser medido, senão, fica só um ponto de vista. É nulo quando os Regimentos definem o barulho entre aceitável ou inaceitável sem comprovação. Seria inaceitável deslocar-se em seu imóvel após às 22h, abrir e fechar gavetas, armários? Recorri e ganhei.”

“TROVOADAS”

Em um dos condomínios que o síndico profissional Ricardo Carraciola administra, movimentar-se muito após às 22h tornou-se, de fato, evento intolerável. Segundo ele, os moradores sentem, em algumas situações, a movimentação do vizinho de cima como “trovoadas”. “Em termos de estrutura, a construtora ‘esqueceu-se’ da acústica”, lamenta. Os ruídos reverberam de tal forma que a vida se tornou limitada dentro dos apartamentos do empreendimento de dez torres entregue há cerca de três anos em São Bernardo do Campo. Ricardo comenta que deixou de receber visitas em sua unidade, especialmente no período da noite. “As queixas vêm até do pisar no chão e da queda de um talher. As construtoras deveriam olhar para a acústica, é algo que pesa um pouco no custo, mas elas precisam pensar nos condomínios”, protesta.

Segundo ele, a administração procura identificar o causador do barulho e orientá-lo. O síndico já esteve às três horas da manhã em um apartamento para atender à queixa de um morador, mas não ouviu nada e reconhece que a tarefa é delicada. O engenheiro Marcus Grossi explica que os ruídos resultam de vibrações que se propagam como onda por todas as direções, desta forma, nem sempre sua origem está no vizinho de cima ou do lado. “A reverberação não é uma onda unidirecional”, completa.

No caso do condomínio de São Bernardo, há um agravante, aqui de origem certa: moradores dos últimos andares convivem com fortes vibrações da casa de máquinas dos elevadores e das bombas de pressurização. Ricardo afirma que chegou a estudar a legislação para verificar o que poderia ser cobrado junto à construtora, mas não encontrou solução. O que lhe resta é procurar atenuar os efeitos de uma unidade para outra, propondo aos ocupantes instalar feltro embaixo dos móveis, “pisar mais leve” e respeitar os horários do silêncio nas ocasiões festivas. “Buscamos a solução na conversa, no diálogo. As pessoas que vão morar em condomínio têm que se preparar psicológica e emocionalmente, mudar sua rotina familiar, pois elas convivem com o coletivo. Mas aqui as restrições passaram dos limites, estamos aprisionados em nossa própria casa”, desabafa.

O EXERCÍCIO DA PACIÊNCIA

“Paciência, paciência, paciência.” Essa é a receita do síndico Gilberto Hitochi Ishida para lidar com o barulho em seu condomínio, a maior parte proveniente de rumores e da intolerância entre vizinhos. “Tem gente mais ocupada em cuidar da vida alheia que da própria, vive espionando nas janelas e faz plantões na portaria. Elas transformam o livro de ocorrências em um rosário de desabafos, reclamações e gritas. Quando estão nervosas, escrevem tudo em letra maiúscula pedindo urgência!”, descreve Gilberto, gestor de um residencial da região do Jabaquara, zona Sul de São Paulo, com 64 unidades e 37 anos de vida.

Mas com sua postura serena e também segura em relação aos instrumentos de que dispõe no Regimento Interno, Gilberto consegue administrar as divergências. Ele diz que jamais aplicou uma multa desde início de seu mandato, em outubro de 2010, recorrendo antes à comunicação e ao diálogo. Quando não há jeito, faz notificações, as quais, segundo ele, geram mais barulho; poucos moradores as aceitam. Alguns condôminos fazem rumor contra as próprias normas de uso da churrasqueira, salão de festas e quadra. “Para eles, é de praxe reclamar, procuramos então amenizar, mas quando o som extrapola, damos advertência.”

Uma boa estratégia ao síndico, sugere Gilberto, é procurar se antecipar aos problemas e barulhos correspondentes, a exemplo de medidas que adotou na garagem, aonde foram instalados delimitadores para evitar que o usuário ultrapasse os limites das vagas. “Deveríamos inclusive ter conversado antes com os moradores; com um deles, houve mal- -entendido. Ele arrancou o delimitador, ofendeu o zelador, mas já conversamos. Isso reforça a necessidade da comunicação”, reforça. “A falta de diálogo gera distorção, intriga e conflito”, arremata Gilberto, analista de sistemas que trabalha em uma empresa de telefonia móvel e coordena duas equipes com 15 colaboradores.

DESCONFORTO ACÚSTICO NOS EDIFÍCIOS, UMA REALIDADE

O engenheiro Marcus Grossi afirma que os profissionais do setor têm “percebido” o aumento do “desconforto acústico em edifícios”, fenômeno provocado pela mudança do padrão construtivo a partir da década de 90. Com a edição da ABNT NBR 15.575, norma de desempenho que também trata da acústica, “a indústria da construção começou a despertar para isso”, mas “o Brasil ainda está longe dos padrões de conforto dos países europeus, pois os nossos limites de ruídos ainda são muitos altos”, analisa.

Para os condomínios com transtornos significativos, o especialista recomenda atenuar o ruído através de soluções técnicas, como a instalação de amortecedores na base dos motores, tratamento acústico na casa dos elevadores e colocação de pisos laminados ou mantas de borracha nas unidades. Com a publicação recente de novas normas técnicas, ele acredita que as construtoras se tornarão mais cuidadosas e os limites mais rigorosos.

Fotos: Rosali Figueiredo

Matéria publicada na edição - 214 - julho/2016 da Revista Direcional Condomínios

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