Retrofit das áreas comuns: Vida nova aos prédios

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Condomínios apostam na remodelação de seus espaços para ampliar possibilidades de uso, demanda apresentada pelos próprios residentes.

O script é comum a muitos prédios, quando suas instalações começam a dar sinais de esgotamento e a pedir intervenções estruturais: Síndicos e condôminos investem nas reformas urgentes, contratam obras “picadinhas” e, ao final, mostram-se insatisfeitos com a falta de integração entre as áreas. Alguns, entretanto, adeptos do retrofit, resolvem seguir na contracorrente e iniciar os trabalhos a partir de um diagnóstico geral, que oriente um projeto de recuperação total e os ajude a planejar obras e rateios. Tudo isso porque, além de dar solução ao desgaste dos sistemas, os moradores querem hoje aproveitar melhor os espaços disponíveis.

“A ideia de 40 anos atrás era contratar buffet para atender as pessoas em uma festa. Agora, elas querem cozinhar em grupo, transformar isso em um evento social”, exemplifica a síndica Maria de Lourdes Rubio, do Condomínio Edifício Conde Rafea, na Aclimação, região Centro-Sul da Capital paulista. Rubio está à frente do processo de retrofit do salão de festas do prédio, que será transformado em gourmet. O edifício completa quatro décadas neste ano, uma construção sólida e bem conservada com 18 unidades de três dormitórios.

Desta forma, a atualização não virá somente por causa da mudança de hábitos e expectativas. “Precisamos também valorizar o imóvel, que está ficando desgastado. Isso pesa na hora de comercializar uma unidade. Queremos ainda melhorar o bem-estar geral do uso do espaço, além de acompanhar a modernização da região”, justifica a síndica, que vem testemunhando a chegada de empreendimentos de alto padrão na vizinhança. Depois de ter concluído recentemente o AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros) e a troca das portas corta-fogo, Rubio espera fazer a próxima confraternização do Natal no renovado salão de festas.

Designer de interiores, a síndica Mari Ester Golin responde pelo projeto de retrofit do salão de festas do Condomínio Conde Rafea. Segundo ela, paredes que delimitam a área dos vestiários e cozinha (foto acima menor) serão demolidas e darão lugar a lavabo, trocador, toaletes e balcão gourmet (imagem do projeto abaixo). No salão (foto superior), haverá o aproveitamento das floreiras do jardim de inverno original, compondo com um novo perfil de acabamento, iluminação e mobiliário (1a imagem do projeto). “No projeto do Conde Rafea, reutilizaremos os revestimentos das colunas, pois ele é usado em outros espaços, como no hall, e não poderemos descaracterizá- lo”, detalha a profissional. A ideia é seguir uma linha contemporânea, que está “em alta”, ao mesmo tempo em que se reutilizará “algo que o condomínio já tem”. “Garante-se assim a economia e o prédio não perde identidade”, completa Mari Ester. (Por R.F.)

 

O PROJETO COMO GUIA

OCUPAÇÃO DO ÁTICO

Também no Condomínio Edifício Sabará Maranhão, no bairro de Higienópolis, a síndica Eneida Palermo espera disponibilizar aos moradores um novo ambiente de convivência até o final deste ano. Entretanto, aqui as mudanças são mais profundas, já que o prédio de 71 anos não dispõe sequer de salão de festas. Sem possibilidade de mudar o térreo, ocupado por moradias, os condôminos decidiram aproveitar o ático da torre de nove andares e 20 unidades, para transformá-lo em solário, composto por deck de madeira, pergolado e projeto paisagístico. “Havia demanda dos moradores e era evidente a necessidade de reformas”, afirma a síndica, destacando que jamais houve, desde a entrega do prédio, em 1945, qualquer reforma mais ampla das áreas comuns. Há três anos formou-se uma comissão de obras para empreender a modernização.

“Definimos em assembleia que, ao invés de fazer picadinho, iríamos ter antes um projeto completo, com as intervenções necessárias, para valorizar, modernizar e consertar o que precisava, da cobertura até a garagem subterrânea. Dividimos as execuções em blocos, orçamos e a assembleia resolveu que iniciaríamos pela cobertura.”

O primeiro estágio do processo – a implantação do solário no topo - está em andamento e prevê investimentos de mais de R$ 700 mil, oriundos das cobranças judiciais sobre inadimplência. O segundo prevê a construção de um novo patamar para o elevador de serviços, levando-o até o novo 10º andar. Depois, será executada remodelação de toda parte térrea e de garagem, com construção de guarita no subsolo, troca de gradil e alteração dos acessos, intervenção que atende às necessidades de segurança, observa Eneida.

O engenheiro civil responsável pelos serviços, Paulo Maccaferri, explica que a ocupação do ático é uma boa possibilidade aos condomínios, desde que contratem laudos sobre as condições da estrutura. No caso do Sabará Maranhão, foi realizada ampla recuperação do topo, incluindo remoção de um telhado original e impermeabilização com manta asfáltica, seguida da instalação de novo contrapiso (com 40 cm de camada em isopor e 10 cm em concreto, de forma a garantir o conforto térmico e acústico das unidades do 9º andar). Além disso, o projeto arquitetônico contemplou a instalação do deck elevado em plataforma metálica a 40 cm do piso e cobertura em madeira, garantindo-se um vão para manutenção das tubulações elétricas e hidráulicas. “Esse é um case bem interessante, porque mostra que condomínios sem espaço no térreo podem apostar em alternativas na cobertura”, arremata o engenheiro.

SALTO GRANDE

O Salto Grande é outro condomínio que resolveu apostar num projeto inicial para planejar a modernização das áreas comuns. Localizado no bairro da Pompeia, zona Oeste de São Paulo, o residencial tem cerca de 35 anos e 40 unidades. O objetivo é remodelar toda área térrea, prevendo-se a implantação de salão de festas gourmet, churrasqueira, pergolados, projeto paisagístico e, no futuro, espaço fitness, descreve o síndico Marcos Antonio Masteguim. Aqui também está presente a necessidade de se proporcionar aos moradores novas possibilidades de uso dos ambientes, associada à modernização que visa acompanhar as transformações do entorno.

O projeto, no entanto, propõe ao condomínio seguir seu conceito arquitetônico modernista, onde se destacam pilares robustos com acabamento em mármore (em bom estado) e revestimentos geométricos nas paredes divisórias dos espaços, afirmam o arquiteto Flavio Cunha e a engenheira civil Carolina Scheffer, responsáveis pelo trabalho. Eles defendem ainda reaproveitar, “ao máximo”, os materiais existentes, de forma a diminuir os custos da execução. “Contratamos o projeto para evitar fazer uma reforma aqui, outra ali, ou seja, um serviço ‘frankenstein’”, observa o síndico Marcos Antonio, destacando que cada intervenção prevê a recuperação concomitante dos sistemas, a exemplo da impermeabilização a ser executada no térreo.

Matéria publicada na edição - 216 - set/16 da Revista Direcional Condomínios

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