Segurança - Cercas, alarmes & proteção perimetral: Recursos inadiáveis aos condomínios

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Enquanto o quadro da segurança pública se mantiver incerto, síndicos e condôminos deverão continuar concordando em pelo menos um ponto: os investimentos na rede de proteção das edificações permanecerão inevitáveis e inadiáveis.

O síndico profissional Leandro Vediner Leitão, à frente da gestão de 13 condomínios em parceria com a gestora Rosi Lima, observa que cada perfil de prédio escolhe um tipo de investimento, de acordo com suas possibilidades, mas em geral a segurança lidera as prioridades.

“A cada ano aumenta a preocupação dos condomínios, principalmente aqueles em implantação”, afirma Leandro, que tem dez anos de experiência em gestão condominial. No edifício em que mora e onde foi síndico local até recentemente, Leandro implantou sofisticado sistema de segurança. Ele fica no bairro do Tatuapé, na zona Leste de São Paulo, tem padrão elevado, torre única, cem unidades com varandas gourmet e lazer completo.

O condomínio está amparado hoje em uma infra de proteção que envolve sensores na parte da frente e nas divisas internas; cerca elétrica nos muros dos fundos; alarmes; 48 câmeras; eclusas; portaria blindada; controle de acesso automatizado na garagem; botão de pânico; e senha no portão de pedestres. A construtora entregou apenas a blindagem da portaria e as eclusas, há três anos, aponta Leandro. A partir daí os proprietários resolveram bancar a estrutura agora instalada, dando preferência à proteção perimetral. Tudo foi implantado em três meses.

Em contraste, em outro residencial da zona Sudeste de São Paulo, de padrão mais popular, onde é síndico profissional, Leandro afirma que a segurança está apoiada em apenas 18 câmeras, proteção perimetral com arames farpados (sem sensores nem cercas elétricas) e dois postos de controle de acesso. Com um ano de implantação e 480 unidades, os investimentos neste residencial esbarram “no fator renda”, esclarece.

Na verdade, diferente da tendência entre os novos condomínios de classe média, os moradores locais preferiram custear o “kit enxoval” antes de partir para o reforço de dispositivos de defesa. Nos prédios mais antigos, por sua vez, a melhoria do sistema depende da faixa etária predominante no local. Residentes mais idosos, por exemplo, apresentam mais dificuldades de se adaptarem aos aparatos eletrônicos, situação observada por Leandro num dos condomínios que administra no bairro de Pinheiros, na zona Oeste. Em outro residencial ocupado em sua maioria por universitários e localizado na Vila Mariana, zona Sul da Capital Paulista, Leandro se depara com “um sistema bem enxuto” (o perímetro é pequeno), porém mais equipado, com sensores, cerca, software de controle de acesso na garagem, procedimento de cadastro de prestadores de serviços, além da portaria blindada recentemente.

“Segurança é sempre uma unanimidade”, relembra o síndico. O que muda é a urgência e o perfil dos investimentos, completa. Por fim, de acordo a síndica Rosi Lima, a infraestrutura de segurança diminui as vulnerabilidades dos condomínios, mesmo as internas (contra ações de vandalismo), e “impacta na valorização do imóvel”. “Mas é fundamental fazer um trabalho de mapeamento de riscos antes dos investimentos”, ressalva a gestora.

BARREIRAS & ALARMES

Sobre as barreiras perimetrais, condomínios mais modernos estão optando pelo uso de sensores na parte da frente, por questão estética, afirma Leandro Vediner. Os sensores instalados em seu residencial foram uma escolha dos condôminos, votada em assembleia, diz. São quatro dispositivos presentes na extensão da rua principal de acesso, que operam em infravermelho, formando uma barreira virtual. Esta é capaz de sinalizar ao porteiro, através de alarme, sempre que corpos ou objetos passam pelas ondas da radiação. A equipe dispõe de câmeras para se certificar da natureza do “invasor” (pode ser uma folha, um animal ou pessoa) e, em alguns pontos, vai conferir in loco o que está acontecendo.

Quanto às cercas elétricas, hoje mais sofisticadas e robustas, é importante destacar que elas podem se tornar um perigo às pessoas se estiverem fora da norma técnica padrão, a NBR IEC 60335-2-76, publicada pela ABNT. Há ainda legislações impondo limites, como a Lei Estadual 1113/2002, de São Paulo, a qual determina uma distância mínima entre o primeiro fio da cerca e o solo. Outras regras obrigam, entre outros, ao uso de sinalização, limitam a voltagem e impõem a necessidade de aterramento independente da rede elétrica do imóvel.

Cercas elétricas são comuns na proteção perimetral, mas há residenciais preferindo sensores na fachada principal do prédio

 

FALHAS AINDA PREDOMINAM

Delegado do Grupo de Operações Especiais da Polícia Civil de São Paulo e consultor em análises de riscos para condomínios, Luís Renato Mendonça Davini observa falhas corriqueiras e básicas na infraestrutura e procedimentos dos condomínios. Ele reitera que um sistema de segurança deve articular o trabalho da equipe (postos de trabalho), o comportamento de moradores em atendimento às normas de procedimentos, dispositivos eletrônicos e o aparato físico (como barreiras, muros etc.). “Mas fundamental é o fator procedimental, é a regra do jogo, equivale ao óleo no motor”, define o consultor.

Luiz Renato Davini aponta que as invasões aos prédios são causadas, em geral, pela ausência de treinamento dos porteiros e demais profissionais; por falhas na troca de turno ou na infraestrutura física e/ou eletrônica do condomínio; pela desatenção dos moradores; pela ação planejada dos bandidos, sempre atentos aos erros e oportunidades para entrar nos prédios; e pela informação privilegiada que eles obtêm através do aliciamento de algum funcionário do edifício.

Em recente visita que a reportagem da Direcional Condomínios fez a um residencial novo, com duas torres e vocação para o lazer, identificou que a porta da guarita se situa exatamente no espaço do intertravamento da eclusa dos pedestres. Este é um erro, aponta o consultor, que completa: “Os projetos de segurança patrimonial, tanto os mais recentes quanto as reformas, carecem de uma visão integrada”. “O acesso à guarita no intertravamento entre os portões é o pior cenário possível. O projeto deve delimitar áreas de atenção e de risco próximos à portaria e nos acessos ao condomínio. O porteiro se torna bastante vulnerável quando fica muito próximo da eclusa”, explica.

Além disso, prossegue o especialista, o sistema deve prever um plano de resposta quando algum componente vier a falhar. Por exemplo, em uma eventual clonagem do controle de acesso à garagem, deverá entrar em ação outro bloqueio, qual seja, a ação do porteiro, observando a movimentação das pessoas e fazendo a identificação ou reconhecimento físico. Da parte do comportamento dos moradores, é fundamental que atendam à orientação de “nunca entrarem acompanhados de visitantes pelo portão de pedestre; o acesso deverá ser feito sempre com uma pessoa por vez”. “Precisa ficar um por vez na clausura, para que bandidos não entrem no vácuo.” E no caso de haver serviço de monitoramento remoto, é indicado criar uma senha de pânico, que irá comunicar diretamente à equipe de apoio externo algo errado. “Esta, por sua vez, comunica ao porteiro ou aciona o plano de resposta previsto no planejamento de segurança do condomínio.”

Ele recomenda que o síndico, o conselho e até uma comissão de segurança estabeleçam as regras, como as formas de acesso e de comunicação, a exemplo das “senhas passivas”, que possibilitam aos moradores e equipe de segurança sinalizarem eventual rendição. O consultor ressalva, porém, que as regras não podem “colocar o usuário em risco”. “Se alguém estiver rendido através de arma, deve ter sua entrada liberada. Enquanto isso, o portaria procurará ganhar tempo com eles na clausura, pedindo calma e fazendo o gerenciamento da crise (conforme os procedimentos previamente acertados).”

 

PROCEDIMENTOS SÃO CRUCIAIS À EFICÁCIA DA INFRAESTRUTURA

A advogada Irina Uzzun, síndica de um condomínio em Perdizes, zona Oeste de São Paulo, considera a portaria e a entrada de veículos os locais mais vulneráveis do residencial. A localização da guarita não possibilita boa visão da entrada da garagem ao porteiro, explica. Com torre única e 76 unidades, o condomínio terá reforçados os procedimentos de conduta dos moradores, ao mesmo tempo em que promove o treinamento dos controladores de acesso e do próprio zelador.

Segundo Irina, em termos de suporte físico e infraestrutura técnica, o condomínio dispõe de software de controle dos portões da garagem, cartões de identificação dos pedestres, interfone e intertravamento da portaria. Nesta há um “gavetão” como passa-objetos. Mas a síndica afirma que pretende investir em melhorias, “criando mais barreiras e um monitoramento melhor para controlar a entrada e saída de veículos e pedestres”.

Neste ano, Irina Uzzun participou, em conjunto com o zelador do prédio, de um treinamento de segurança ministrado pelo consultor Luís Renato Mendonça Davini e promovido pela Direcional Condomínios. “Não existem mais arrastões, mas sim pessoas que entram com facilidade porque estão bem vestidas ou fazem o controlador de acesso acreditar que são parentes de algum morador. O bandido se faz passar pelo condômino com um simples telefonema à portaria. Com o curso foi possível melhorar a conduta dos controladores de acesso e, em especial do zelador, pois ele assimilou as lições, aplicando novas regras no condomínio”, avalia a síndica, que pretende participar de futuros treinamentos.

Matéria publicada na edição - 218 - nov/16 da Revista Direcional Condomínios

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