Condomínios históricos de São Paulo

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O ajuste fino entre preservação e modernização, uma missão desafiadora aos síndicos.

Eles fazem parte da história do desenvolvimento da cidade, orgulham muitos de seus condôminos e demandam um ajuste fino do síndico para equilibrar as ações de preservação e modernização. Arquitetos ou construtores como Vilanova Artigas, Artacho Jurado, Álvaro Vital Brazil, Jacques Pilon, Adolf Franz Heep, Gregori Warchavchik, Oscar Niemeyer, Ramos de Azevedo, Paulo Mendes da Rocha, Rino Levi, David Libeskind, entre outros, assinam os projetos de edifícios icônicos da cidade de São Paulo, alguns quase centenários.

Este acervo arquitetônico impõe missão desafiadora aos gestores. De um lado, atender à necessidade de renovar sistemas complexos e caros (elétrica, hidráulica, prevenção e combate ao fogo, estanqueidade de lajes, paredes e pilares etc.), bem como a leis, normas e serviços contemporâneos. De outro, porém, manter o estilo original, mediante um orçamento escasso ou insuficiente (muitos prédios têm poucas unidades, ocupadas em sua maioria por aposentados).

“Procuramos, dentro do possível, recuperar como no original. Por exemplo, uma infiltração estragou alguns elementos vazados da fachada na parte da escadaria, fomos atrás de moldes para recompor o desenho”, relata a síndica Maria das Graças Amaral de Mello, moradora desde 1965 do Condomínio Edifício Cinderela. Construído por Artacho Jurado em 1956 no bairro de Higienópolis, o prédio exibe fino acabamento, com predomínio de mármore importado, granito, pastilhas e granilite no revestimento de paredes e pisos. O arquiteto assinou outros edifícios marcantes em São Paulo, como o Viadutos, o Louvre, o Bretagne e o Planalto.

PRESERVAÇÃO

Mesmo que o Cinderela não seja tombado pelo patrimônio histórico, a síndica destaca que a filosofia dos moradores das 34 unidades é a da preservação, o que faz com que determinadas intervenções sejam quase cirúrgicas: juntamente com o zelador Severino da Silva Matias, Maria das Graças chegou a raspar camadas das paredes do salão de festas na cobertura para resgatar suas cores originais. Andou pela cidade até encontrar luminárias parecidas com as da época (então perdidas e substituídas por spots). Antes de instalá-las, a própria síndica e o zelador as pintaram com tonalidade próxima ao que eram na entrega do edifício. Tiveram o suporte de uma arquiteta moradora no local. Hoje, o terraço do Cinderela está praticamente recuperado, com extenso jardim gramado e área interna dotada de pisos restaurados em mármore Travertino, granito e granilite.

Claro que a modernização se torna inevitável, com adequação de corrimãos, introdução de luz de emergência, reforma estética e mecânica dos elevadores, troca da fiação, de quadros e disjuntores antigos, substituição de encanamentos e registros do barrilete, restauração de revestimentos, alguns desses serviços já concluídos e outros na lista de prioridades para 2017. De qualquer forma, Maria das Graças sabe que o Cinderela representa uma grife arquitetônica, por isso investe o tempo necessário na busca de soluções para o edifício. “O charme do prédio e o que o valoriza é manter as linhas e elementos originais”, justifica. Não à toa, segundo ela, o valor do metro quadrado do apartamento no local é superior ao dos imóveis da região.

VALORIZAÇÃO

Mais anônimo, o Edifício Ouvidor também aposta na recuperação mesclada à modernização dos sistemas. Aqui o desafio é maior, pois o imóvel é tombado pelo Conpresp e pelo Condephaat, respectivamente, órgãos municipal e estadual de preservação do patrimônio histórico, juntamente com a Praça do Ouvidor, aonde está localizado, defronte ao Largo de São Francisco, centro da cidade. Foi construído por Clóvis Soares de Camargo, avô do engenheiro civil e administrador imobiliário Sérgio Meira de Castro Neto, diretor do Secovi-SP e síndico do prédio.

O Ouvidor data de 1943, possui 16 andares de unidades comerciais, estrutura sólida e riqueza nos acabamentos internos, a exemplo dos mosaicos em pastilhas francesas que formam o piso dos halls dos andares ou do mármore no hall de acesso ao edifício. Parte foi recuperado recentemente, juntamente com a fachada, o que demandou serviço de empresa especializada. Mas o condomínio incorporou modernidades como elevadores novos, retrofit elétrico, iluminação em LED , sistema de segurança patrimonial com monitoramento externo, além de grandes adequações internas para o sistema de incêndio (o que lhe valeu o AVS, Auto de Verificação de Segurança, concedido pela Prefeitura depois de vistoria do Corpo de Bombeiros).

Sérgio Meira modernizou ainda a gestão e a parte hidráulica, introduzindo vasos sanitários com caixas acopladas e torneiras com temporizadores em todos os banheiros (com redução de 50% no consumo de água). O síndico diz que gosta de trabalhar no centro de São Paulo e aposta na redescoberta da região, segundo ele beneficiada pelos espaços generosos das edificações, pelo preço, serviços e acesso fácil às linhas do Metrô e aos terminais de ônibus. E para os que torcem o nariz à idade dos condomínios, diz que “não existe imóvel velho, mas sim, malcuidado”. Se estiver bem cuidado, recupera o valor de comercialização, assim como diminui a taxa de vacância, conforme atesta a experiência no Ouvidor.

RARIDADE NA AV. SÃO LUIS

Entregue em 1944 defronte à Praça da República, na esquina das avenidas São Luís e Ipiranga, o Condomínio São Luiz mantém a imponência de suas linhas clássicas, que o caracterizaram como primeiro residencial de luxo do entorno. Suas fachadas de frente, tombadas pelo Conpresp, possuem argamassa com pó de mármore Travertino e gradis em ferro. Foram restauradas por empresa especializada, processo acompanhado em boa parte pelo ex-síndico Luiz Carlos Sansone (Foto acima). Crescido no bairro, Luiz Carlos diz que tem ligação afetiva com essa região do centro, por isso, mudou-se do Itaim Bibi para o São Luiz assim que teve a oportunidade de comprar um imóvel no local. Ficou no cargo durante doze anos.

A maior parte dos moradores está ali de 20 a 40 anos, afirma Sansone. São 22 apartamentos de 145 a 460 m², ocupados por residentes que optam pelo centro da cidade justamente pelas características originais do edifício. O São Luiz foi concebido pelo arquiteto francês Jacques Pilon, o mesmo que projetou a Biblioteca Mário de Andrade. O prédio não tem garagem, mas surgiu com uma particularidade: quartos para empregados situados a partir do 13º pavimento, alguns deles ainda hoje ocupados. Entre os desafios futuros dos condôminos, está a recuperação da calçada externa, aponta o ex-síndico, além da modernização eletroeletrônica dos três elevadores. No mais, a ideia é restaurar o que for preciso para manter no original tudo o que for possível, inclusive no interior das unidades.

Fotos: Rosali Figueiredo

Matéria publicada na edição de dez/jan 2017 da Revista Direcional Condomínios

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