Por que zelar pela integridade do sistema de impermeabilização?

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Esta é a “maior e, talvez, a única defesa de certos materiais contra os efeitos desastrosos da água infiltrada”.

Etimologicamente, impermeabilizar é deixar algo imune ou estanque à penetração de água ou outro líquido.

A água torna-se um problema para as construções, na medida em que sua infiltração foge do controle e se inicia o processo de deterioração das partes da edificação e dos seus componentes, provocados pelas reações químicas que ocorrem entre o hidrogênio e o oxigênio presentes na água, e os demais elementos químicos.

Norma da Associação Brasileira de Normas Técnicas, a ABNT NBR 5462/1994, que trata da “Confiabilidade e Mantenabilidade”, estabelece alguns conceitos técnicos importantes relacionados às construções, tais como defeitos, falhas e, principalmente, o conceito de vida útil de um material ou elemento construtivo.

Sendo assim, podem ocorrer falhas ou defeitos num material devido à sua má qualidade, ao método equivocado pelo qual ele foi instalado ou por outro motivo qualquer, que comprometa o “agente bloqueador” de água empregado na construção civil para impermeabilizar lajes, paredes ou pisos. Ainda pelo decorrer do tempo pode haver a falência do material isolante pelo término de sua vida útil, ou seja, pelo desgaste e idade do material ou elemento.

De qualquer forma, independente da patologia ou anomalia que deu origem à falência ou defeito do sistema de impermeabilização existente, a água, principalmente da chuva, vai começar a percolar e adentrar pelos pontos, seja ostensivamente ou por capilaridade, até causar bastante estrago, em casos mais extremos, irreparáveis nos elementos construtivos de prédios, casas e outras construções.

Desta forma, é muito importante zelar pela integridade do sistema de impermeabilização, uma vez que se trata da maior e, talvez, a única defesa de certos materiais contra os efeitos desastrosos da água infiltrada.

Água, agente agressivo para as construções

Na ABNT, a NBR 9575/2010 e inúmeras outras normas técnicas versam sobre o assunto e tratam de métodos diferentes de impermeabilização, bem como de várias técnicas e materiais indicados para isto.  É uma abordagem excessivamente técnica, portanto, não cabe aqui falar sobre elas, mas apresentar um panorama abrangente sobre o assunto. O que os síndicos e demais gestores dos condomínios precisam saber é que a água é um agente bastante agressivo para as construções e sua penetração nas partes e elementos construtivos deve ser evitada.

No entanto, vê-se comumente construções com sérios problemas de infiltrações, tais como manchas de umidade na pintura, presença de bolor, goteiras, “estalactites” calcárias, destacamento de concreto estrutural, oxidação de armaduras de lajes, pilares ou vigas, dentre várias outras patologias construtivas.

É muito difícil, normalmente, combater as causas das infiltrações, pois é bastante complicado, na maioria dos casos, identificar a fonte dos vazamentos e das infiltrações.  Muitas vezes a penetração da água é discreta e dá-se distantemente do local onde as manchas ou outras patologias se manifestam, geralmente em locais mais baixos.  Nós, técnicos da área de engenharia, falamos que a água acha os caminhos e infiltra por locais os mais impróprios e difíceis.

Não obstante a isto, conforme já mencionado, os efeitos são terríveis, se não tratados.  A água é capaz de provocar desde uma simples degradação da pintura de um revestimento, até promover o colapso estrutural e desabamento de uma construção.

Quando ela infiltra em elementos estruturais, tais como lajes, pilares e vigas, feitos de concreto, a água, normalmente, provoca a oxidação da armadura de ferro que existe dentro desses elementos, bastante porosos. 

Para entendermos os danos, precisamos entender como funciona uma estrutura de concreto:

- Na construção de uma casa ou prédio, com estrutura em concreto, os elementos estruturais são fundidos por meio do derramamento de concreto líquido dentro de formas (geralmente de madeira), que possuem ferros internamente (armadura), todos amarrados e fixos entre si.  Depois do preenchimento desses espaços, o concreto é molhado e “vibrado” para garantir que o líquido espesso, preencha todos os espaços existentes na forma e ao redor da armadura.  Dependendo do caso, se agregam aditivos à massa, que são assunto para outro texto, específico.

Desta forma, as lajes, pilares e vigas ficam firmes, resistentes tanto a esforços de tração, quanto de compressão, na medida em que há a secagem, consolidação e agregação do material.  O concreto é resistente à compressão e fraco à tração, enquanto que o ferro é forte à tração e fraco à compressão.  Desta forma, os elementos se completam.

Na presença da água, o ferro oxida e perde sua função.  Com a oxidação, há o aumento da área da armadura que rompe o concreto, enfraquecendo-o também.  Além disso, a água entra/”percola” em elementos importantes do concreto, tal como a cal, enfraquecendo-o de maneira cumulativa.  Portanto, a ação da água em elementos de concreto armado é avassaladora e, se não combatida, pode levar à ruina de uma estrutura.

Causas mais comuns de infiltração

Nos prédios, as causas mais comuns de infiltração estão relacionadas a problemas no sistema de impermeabilização, seja por término da vida útil do material, seja por rompimento do isolamento, que pode ocorrer devido a: raízes de árvores em jardins ou floreiras; furos para fixação de antenas e demais elementos; reformas parciais em áreas distintas (sistemas de impermeabilização novos e antigos geralmente não se fundem adequadamente); por sobreposição de mantas; por não atendimento aos procedimentos estabelecidos por norma técnica (falhas de execução ou de projeto), entre várias outras.

No caso de cortinas, localizadas perimetralmente em edifícios, não são raros os casos de influência do lençol freático, atuando diretamente sobre as suas superfícies, o que pode, em casos extremos, promover esforços de pressão negativa nos elementos estruturais (neste caso, forçam os elementos construtivos a boiarem, como se o prédio fosse um navio).  Por este e por outros motivos a necessidade de projetos de impermeabilização são cada vez mais exigidos e exigíveis nas construções e devem ser elaborados conforme preconizam as normas técnicas da ABNT.

Os riscos dos paliativos

Em muitos casos, as infiltrações não são levadas muito a sério e os síndicos e zeladores só se preocupam quando já há graves danos aos elementos construtivos.  Isto é muito claro quando analisamos áreas de garagem em subsolos de edifícios na Grande São Paulo.  Quando começa um pequeno vazamento sobre um carro, o zelador logo faz uma “bandeja” para redirecionar o vazamento a uma área que não atinja a pintura dos veículos.

A prática é equivocada e perigosa, pois o ponto de infiltração deixa de ser “perceptível”, mas continua danificando a estrutura, podendo levar, conforme já descrito, a problemas muito mais sérios.  Recomenda-se, portanto, que nos primeiros sintomas de infiltrações, ou seja, quando aparecerem umidade ou manchas amarelas, profissionais da área sejam chamados para vistoriarem e determinarem o tratamento correto para a patologia. 

Com mais de 20 anos de experiência na área de perícias, este profissional nunca foi chamado para vistoriar problemas simples e infiltrações pequenas, desta maneira, sempre tomo sustos com o que vejo e com o nível de comprometimento das anomalias e infiltrações periciadas e o acelerado grau de deterioração causados por elas, nas partes construtivas.

Portanto, fica a sugestão do profissional, não permitam que pequenas infiltrações se transformem em grandes problemas. Ao menor sinal de umidade, chamem um profissional competente e tomem ações corretivas urgentes para reparar as causas dos problemas.  Com certeza, os custos dos reparos serão muito menores do que seriam para reparar patologias mais graves e que comprometam outros sistemas construtivos, tais como o estrutural, o elétrico ou outros.

Daniel Cyrino Pereira Arquiteto e urbanista formado pela Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (FAU-USP). É titular da DA Arquitetura e atua como Perito Judicial desde 1997. Possui MBA em Administração de Empresas pelo IBMEC (2000 a 2002) e Especialização em Perícias de Engenharia e Avaliações de Imóveis pelo IBAPE-SP.  Mais informações: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. / www.daarquitetura.com.br.

Matéria complementar da edição - 221 de mar/2017 da Revista Direcional Condomínios

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