Condomínio: Usos & costumes abusivos de moradores

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Todo síndico tem histórias para contar sobre um tipo de condômino que desrespeita reiteradamente as normas do prédio. Ele forma uma minoria barulhenta, conturba o ambiente e testa a paciência do gestor. É o típico “vai que cola”, indivíduo que procura “vencer” na base do cansaço.

“É o condômino que acha que a garagem é para os convidados da sua festa e dá um jeitinho de passar o crachá da vaga para cada um deles; que pensa que a lata de lixo tem vida própria e vai ‘catar’ o saco deixado no chão porque ele estava com nojo de abrir o contêiner; que não paga em dia e exige desconto do condomínio, além de prazo e carnê; que quer os funcionários à sua disposição para receber o sofá, a geladeira etc.”, ilustra a síndica e consultora da área, Fernanda Françozo. Inúmeros são os transtornos causados por essa minoria: sujeira dos pets nas áreas comuns, barulho, falta de ART/ RRT para a reforma das unidades, ações judiciais impetradas por birra contra o condomínio, entre outros casos, muitos deles “abusivos”. Nesta reportagem, a Direcional mostra como o diálogo ajuda a administrar esse caldo de conflitos, sem, no entanto, negligenciar os direitos da coletividade.

“O SER HUMANO VAI ATÉ ONDE VOCÊ PERMITE”

Enfermeira-chefe do Centro Cirúrgico da Santa Casa de São Paulo, Christiane Riginik Castanheira responde pelo cargo de síndica desde 2015 no Condomínio Villa Nueva, localizado no Mandaqui, zona Norte de São Paulo. Neste ano, o prédio inaugurou um espaço pet, atendendo à demanda de parte dos moradores das 56 unidades. Com espaço generoso, abrigando churrasqueira, salão de festas e jogos, quadra e piscina, o Villa Nueva vivia um clima de atritos há quatro anos, quando Christiane se mudou para o local e começou a se envolver com as questões do condomínio, até se tornar síndica. “Para quem gerencia uma equipe de 200 pessoas, por que não administrar aqui?”, compara. A pacificação veio com a abertura do diálogo e de espaço para sugestões dos condôminos, além da transparência nas contas e obras. A própria síndica produz um jornal mensal do prédio. Promove ainda uma confraternização mensal dos moradores na churrasqueira, além de reuniões periódicas com o corpo diretivo. “Sempre existe o condômino abusado, porque o ser humano vai até onde você permite. Isso acontece em qualquer lugar, é inerente, sempre haverá alguém que tentará levar vantagem.”

A receita para enfrentar os abusos, segundo Christiane, é trabalhar sempre com o amparo do Código Civil, da Convenção e Regulamento Interno, e dos laudos técnicos. “Contra fatos, não há argumentos nem espaço para ‘pitis’.” De outro modo, é preciso saber dar a dosagem certa na interlocução com o morador: “Se você for no mesmo tom do outro, não existirá diálogo, porque com nervosismo ninguém consegue raciocinar.” (Por R.F.)

“REGRAS DEMAIS?”  TRAZENDO O CONDÔMINO À REALIDADE

A síndica Karin Cerveira e a subsíndica Evanita Portes Jadão Rubi (À esq. na foto) avaliam como positivos os resultados da mudança das posturas ocorrida no último ano entre corpo diretivo e moradores do Condomínio Edifício Sonatta, situado na Zona Sul de São Paulo. Um grupo de condôminos vinha reclamando muito da aplicação “rígida” do Regulamento Interno, dizendo que havia “regras demais” e que “a administração engessava muito” o prédio. No centro das tensões, estava a demanda para se permitir o uso de skates e bicicletas nas áreas comuns, o que trazia riscos aos usuários e demais moradores, além de danos às superfícies.

Diante desse contexto, em maio de 2015 a Direcional Condomínios promoveu uma conversa entre a síndica, a subsíndica e a conselheira Mônica Souto de Castro com o advogado Cristiano De Souza Oliveira, sob a perspectiva da mediação de conflitos. A ideia era identificar pontos para uma possível negociação. Na época, Cristiano De Souza pontuou: “O importante é agregar os dois lados de forma a trabalhar com os interesses de cada um e não com as posições”.

A estratégia funcionou. O corpo diretivo pediu aos moradores que se colocassem na posição dos gestores e viabilizassem propostas, sempre dentro das normas do condomínio, bem como de suas possibilidades construtivas. Para isso, as gestoras passaram a apresentar mais os laudos técnicos, desarmando a ideia corrente de que “a síndica e a subsíndica é que não deixavam fazer”. “Além disso, mostramos que sempre trabalhamos com abertura, as reuniões do corpo diretivo são abertas à participação de todos”, afirma Karin. Em novembro passado, por exemplo, formou-se uma comissão de moradores que conduziu todo o processo de pintura da fachada.

“Chegamos à conclusão que precisamos conscientizar os moradores dos problemas existentes, ouvir sugestões e criar comissões, bem como sair de uma posição de embate para a de conciliação”, resumem Karin e Evanita. (Por R.F.)

“SÃO SEMPRE OS MESMOS”

Atuando em grandes residenciais (com cerca de 2 mil unidades), Mirtes Yoshida é hoje gerente de condomínios e foi síndica em outro empreendimento entre 2015 e 2016 no bairro do Belém, zona Leste da cidade, afastando-se por causa de doença na família. Ela diz que nesses ambientes populosos sempre há reiterados abusos por parte de moradores, destacando pelo menos dois casos de condôminas que chamaram a polícia no residencial do Belém: uma por ter sido barrada na portaria por falta de identificação – ela se recusava a cadastrar a biometria; outra por insistir em estacionar na área de desembarque. Mas em ambas as situações as moradoras acabaram orientadas pelos policiais a seguirem as normas do condomínio.

“Em um lugar com cerca de 8 mil pessoas, o que mais tem é morador abusado. Ele insiste em burlar as regras, desrespeita funcionários e, mesmo que 80% das demais pessoas sejam tranquilas e procurem o síndico para problemas pontuais, o abusado provoca conflitos recorrentes e exige que você esteja disponível o tempo todo para administrar isso. São sempre os mesmos, que precisam aprender que seu direito termina onde começa o do outro!” (Por R.F.)

QUANDO O "JEITINHO BRASILEIRO" DÁ AS CARAS

A síndica profissional e consultora Fernanda Françozo tem facilidade em pontuar os mais diferentes casos em que o típico “jeitinho brasileiro” dá às caras no condomínio.

No entanto, ela recomenda aos seus colegas gestores que procurem “diferenciar o condômino que quer entender o que acontece no prédio daquele que só quer ter os ‘achismos’ ou apontar o dedo no que ele desconhece”.

>> Clique aqui para ler o depoimento completo da Fernanda.

 

Matéria publicada na edição - 226 de agosto/2017 da Revista Direcional Condomínios

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