De que lado do muro? Reflexões sobre o papel urbano de serviços em edifícios residenciais

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Hoje assistimos a um movimento crescente de internalização de serviços dentro dos condomínios visando ajustar as ofertas e atender às demandas e modos de vida de moradores de grandes cidades.

Cada vez mais voltado para dentro, é possível encontrar em salões ou halls até mesmo feiras livres – elementos que, a partir do século XI, no início do chamado Renascimento, foram fundamentais para a retomada comercial e urbana na Europa.

Esses arranjos, por vezes informais, operam em geral como uma relação de cooperação, na qual os condôminos podem acessar produtos e serviços com comodidade e os fornecedores têm acesso exclusivo a um novo público consumidor.

Em grande medida, esse fenômeno é condicionado pela alteração das dinâmicas de troca, como o surgimento de food trucks ou similares e o aumento do número de profissionais autônomos, que assumem tanto o deslocamento antes atribuído aos consumidores como os ônus de suas agendas. Na outra ponta, os modos de vida de quem adere a estas práticas privilegiam a redução de seus deslocamentos, e o aumento do conforto e da segurança.

É fato que aproximar moradias e serviços para criar unidades de vizinhança que atendam melhor quem nelas reside é urgente, entretanto, é importante perceber que um condomínio, por mais serviços que concentre, nunca reproduzirá toda a cidade. Circular fora dos muros continuará sendo uma necessidade e, justamente por isso, é que essa multifuncionalidade se torna muito mais virtuosa quando voltada para fora dos muros, qualificando a rua, dotando a cidade de uma relação mais diversa com o passeio público e conferindo um dinamismo maior ao térreo dos edifícios – fator que resulta, inclusive, no aumento da segurança local.

Antigas e novas alternativas estão postas para aproveitar essas demandas e formas de comércio e ampliar as cidades por meio da construção espaços multifuncionais, relações de vizinhanças mais cooperativas, usos mais coletivos e paisagens mais diversas. Cabe, uma vez mais, levá-las a cabo.

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Leonardo Musumeci

Arquiteto, urbanista e filósofo graduado pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em Meio Ambiente e Sociedade pela FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo). Consultor para planejamento urbano e ambiental, sustentabilidade e responsabilidade social corporativa; e subsíndico do Condomínio Huma Klabin, localizado na Vila Mariana, em São Paulo.
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