Condomínio solidário: Coragem e espiritualidade embasam exercício de vizinhança

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"Se quisermos construir algo a mais do que está aí, teremos de arregaçar as mangas no cotidiano mesmo, nesses pequenos/grandes atos que provocam o bom no outro - a 'gentileza' é um bom e fácil exercício" / Entrevista com o advogado Michel Rosenthal Wagner.

Direcional Condomínios – O Natal representa uma época em que as pessoas parecem mais sensibilizadas em relação ao outro?

Michel Rosenthal Wagner – Sim, este é um período em que as pessoas se sensibilizam em relação ao outro, a despeito do consumo e da forma em que se dão os eventos. Mas é bom pensar que em outras épocas e momentos nós também nos sensibilizamos em relação ao outro.

Cada pessoa, família e comunidade possui vários momentos em que isso ocorre, independente da classe social, nível educacional etc. O que pode diferir é a forma, porém pouco. Tratam-se de eventos que ocorrem no microcosmo e no macrocosmo social.  

Segundo os princípios do ‘pathwork’ [modelo desenvolvido a partir de palestras de Eva Pierrakos/Áustria - 1915/1979], precisamos, no trabalho individual, nos autoconfrontarmos (olhar a mim e ao outro nesta perspectiva de existir), nos autoaceitarmos (e a partir disso criar movimentos criativos e não deixarmos engessar nosso movimento) e, finalmente, nos autoresponsabilizarmos, tomando as rédeas das nossas vidas. De acordo com essa premissa, se quisermos dialogar, deveremos aprender a seguir estes princípios nas relações coletivas, e na construção de comunidades de vizinhança do tipo que se podem dar no condomínio.

É um sentimento que advém da espiritualidade no humano. As religiões prescrevem e sabiamente consideram o todo, compreendido cada um nele, interdependente. Por isso não adianta querer ter sucesso sem inclusão. Isto pode ser visto em qualquer ‘Bíblia’ de todas as religiões, ocidentais ou orientais, monoteístas ou politeístas. Cada uma tem seus rituais, ritos de passagem, comemorações, celebrações - e todas são comunitárias.

DC – Campanhas de solidariedade podem motivar que tipo de sentimentos e ações em uma coletividade?

Michel R. Wagner – Elas parecem um bom exercício de vizinhança, que aliás é prática, bem mais além da consciência ou aprendizado intelectual. Se quisermos construir algo a mais do que está aí, teremos de arregaçar as mangas no cotidiano mesmo, nesses pequenos/grandes atos que provocam o bom no outro - a ‘gentileza’ é um bom e fácil exercício. Há vários outros, abordados na obra "Situações de Vizinhança no Condomínio Edilício” [Referências ao final do texto].

DC – Você costuma dizer que "é preciso falar com o coração", até para que se mobilize entre os brasileiros um espírito de comunidade e solidariedade que ainda não carregamos como nas culturas de outros países. O que isso significa no contexto de um condomínio, dentro do raio de ação de um gestor?

Michel R. Wagner – Parto do significado de ‘coragem’, que do latim é cor + agem. Cor é coração, agem é ação. Assim, deveremos ser corajosos para empreender sócio ambientalmente o exercício de vizinhança, respeitando o outro por nós, pelo outro e pelo todo. É melhor assim. A prática do diálogo deve ser resgatada. Cada comunidade de vizinhança deve se autoconstruir. Percebemos isso enquanto entramos em tantos condomínios diferentes, são todos diferentes.

DC – De que forma uma campanha de solidariedade deve ser organizada e mobilizada para que crie um ambiente de harmonia junto à coletividade?

Michel R. Wagner – Com participação total, que pressupõe trazer todos para coconstruir esta ideia. O condomínio poderá pensar lugares e momentos amigáveis para esta troca e concepção em qualquer projeto, especialmente em uma campanha de solidariedade. As pessoas deverão se reunir para conversar sobre as necessidades que observam, e traduzi-las em desejos e pedidos de cada comunidade de vizinhança. Isso só funcionará com participação e todos têm o direito/dever de participar. Diferente disso, os resultados tenderão a ser fracos, e as pessoas ficarão desmotivadas. O principal trabalho é trazer as pessoas e garantir um espaço aberto para participação com transparência e respeito. 

Michel Rosenthal Wagner Advogado, consultor socioambiental em condomínios. Mestre em Direitos Difusos e Coletivos, é autor do livro "Situações de Vizinhança no Condomínio Edilício – desenvolvimento sustentável das cidades, soluções de conflitos, mediação e paz social" (Editora Millennium, 2015). Mais informações: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. .

Matéria complementar da edição - 229 - novembro-dezembro/2017 da Revista Direcional Condomínios

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