Sexo, Drogas & Rock N’ Roll nos condomínios: O que fazer?

Escrito por 

O diálogo é o principal e melhor caminho para lidar com problemas relacionados ao uso de drogas, sexo nas áreas comuns e festas do barulho, mas nem sempre funciona. A maioria envolve adolescentes e os gestores reclamam da falta de apoio dos pais. Nesta reportagem, eles relatam como têm agido nesses casos. E os especialistas deixam orientações.

Síndica Claudia Valéria Cardoso

Síndica Claudia Valéria Cardoso: Sempre predisposta ao diálogo, mas notificação e multa são aplicadas quando necessárias

Cada vez mais os condomínios preparam suas áreas comuns para receber crianças, jovens e adolescentes, criando-lhes uma alternativa de sociabilização, já que os grandes encontros familiares e as praças públicas perderam a centralidade em sua rotina e aprendizado. E nesse contexto ampliam-se as obrigações e problemas dos síndicos, como gerenciar excessos do comportamento da garotada. Recentemente, a síndica Claudia Valéria Cardoso promoveu um encontro informal entre adolescentes e seus pais, para orientá-los e conversar sobre o consumo de álcool e cenas mais íntimas flagradas pelas câmeras do condomínio que administra, em São Bernardo do Campo. Entre estas, uma menina de sete anos beijava um garoto. Claudia diz que os namoros estão mais calorosos e que eles não se intimidam nem pelas 48 câmeras instaladas no local. A precocidade marca o afloramento da libido sexual.

Quanto ao álcool, o Regulamento Interno do condomínio de 14 mil m2 de área e 224 unidades veta seu consumo nos espaços comuns, exceto em festas organizadas privativamente pelos condôminos nas churrasqueiras ou salão social. Mas quando em grupo nas áreas de lazer, adolescentes na faixa etária de 13 e 14 anos consomem álcool (cerveja) e narguilé (espécie de cachimbo usado para se aspirar um tipo de tabaco; é considerado prejudicial à saúde, predispondo casos de câncer, contágio de herpes etc.).

“As áreas comuns dos condomínios se converteram em uma espécie de ‘guardiãs’ ou ‘babás’ dos filhos dos moradores, que precisam correr atrás do financeiro e os deixam para trás”, afirma Claudia, mãe de um rapaz de 20 anos e um garoto de 10. Segundo ela, não há outro jeito senão circular mais pelo condomínio, conversar sempre com eles de forma amigável, mas explicando que há regras, e procurar a interlocução com os familiares. Aqui, as reações são díspares e às vezes até prejudiciais ao jovem. Há pais que ignoram ou demonstram incredulidade; já outros adotam ações agressivas contra os filhos ou contra a própria administração do condomínio.

O psicólogo Nelson Luis Raspes, que mora no condomínio de Claudia, diz que os pais sentem que estão no controle ao vigiar os filhos através de celulares, mas que isso é ilusório. “Esse distanciamento surge como propensão para outras coisas.” É o caso da precocidade no sexo, favorecida pelo fácil acesso às imagens. Já o vício no álcool e, mais à frente, em drogas ilícitas percorre outra trajetória.

ENFRENTANDO OS EXCESSOS

Entretanto, não há outro jeito senão enfrentar os excessos que surgem diante dessa nova realidade. E cada situação exige uma ação distinta do gestor, afirma Claudia. Ela admite que os síndicos “sentem-se perdidos”, notadamente quando o Regulamento Interno preza um comportamento e as festas familiares vão em direção oposta. Ou quando os pais a consideram “uma chata”. Mas a postura deve estar sempre propensa ao diálogo, à calma, defende Claudia, tanto em relação àquele que comete o desvio quanto ao morador que se sente lesado.

Por exemplo: “Não adianta chamar a polícia quando alguém reclama do cheiro de maconha do vizinho”. Enquanto tenta acalmar o primeiro, Claudia precisa convencer o outro de que ele está incomodando alguém. E assim a síndica vai administrando cada desfecho causado pela situação. “Mas se chegar na área comum, notifico e multo”, arremata.

Conforme analisa Nelson Luiz Raspes, em uma situação ideal, a melhor estratégia ao síndico seria “conscientizar” e depois “sensibilizar” a todos dos problemas decorrentes desses excessos. “Conscientizar seria o primeiro passo, mostrando os transtornos ao coletivo e provocando uma percepção de vizinhança. Sensibilizar seria chegar em um usuário e dependente de drogas, ir mais fundo, propondo soluções. E para os que não querem sair da situação, resta aos síndicos adotar a lei”, completa. (Leia sobre como aplicar multas)

“PEGA” SOBRE A MESA DE JOGOS – No Condomínio Top Village, em Alphaville, Região Metropolitana de São Paulo, a síndica Kelly Remonti relata haver relações mais apimentadas ou consumadas de sexo nas escadarias, nas unidades com janelas escancaradas (são três torres no local), nos elevadores e até sobre a mesa do salão de jogos. “Nas áreas comuns, quando flagradas pelas câmeras, o segurança vai até o local e orienta que aquele é um comportamento não previsto no Regulamento Interno. Se não houver acatamento, depois fazemos a notificação. A maioria acata e, quando necessário, o segurança chama o gerente predial, que é a pessoa indicada para conversar com os pais. Nunca tivemos um caso drástico, exceto uma depredação do salão de festas, cujas multas e prejuízos estão sendo cobrados judicialmente, junto com a dívida de condomínio da unidade em questão.”

E QUANDO O CHEIRO INCOMODA?

– Advogada, mediadora condominial e síndica profissional, Tatiane Rangel orienta que os síndicos enviem sempre cartas ou e-mails aos moradores, “informando sobre as regras do condomínio quanto ao consumo de drogas ilícitas e sobre a aplicação de multas relacionadas ao descumprimento das regras”. Ela recomenda também a realização de palestras e, para um caso que enfrentou como síndica, de reclamação do cheiro de maconha que incomodava um morador, diz que disparou um comunicado para todos, dizendo “que não era permitida a utilização de drogas ilícitas no condomínio”. Ela não teve mais problemas. Tatiane alerta, porém, que “o síndico deve ter muita cautela e cuidado quando abordar esse assunto, porque em momento nenhum deve mencionar o morador ou a unidade onde está ocorrendo o problema, nem mesmo insinuar ou deixar claro que existe algum usuário dentro do condomínio”. “Recomendo também que o meio de comunicação utilizado seja carta ou email e não comunicados no elevador, pois este é utilizado por visitantes e até mesmo possíveis locadores e futuros proprietários. O aviso poderá causar má impressão e acarretar desvalorização patrimonial.”


Matéria publicada na edição - 236 - julho/2018 da Revista Direcional Condomínios

Não reproduza o conteúdo sem autorização do Grupo Direcional. Este site está protegido pela Lei de Direitos Autorais. (Lei 9610 de 19/02/1998), sua reprodução total ou parcial é proibida nos termos da Lei.