Falhas na acústica acentuam conflitos com barulho no condomínio

Escrito por 

O incômodo provocado pelo barulho do “vizinho” deixou de ser um problema meramente disciplinar, notadamente nas construções entregues nos últimos anos. Situação cada vez mais comum, gestores e moradores sofrem com os transtornos decorrentes do padrão acústico dos sistemas construtivos.

síndica profissional Kelly Ramos de Lima

A engenheira civil e síndica profissional Kelly Ramos: Muitos ruídos surgem como uma “manifestação patológica”

O síndico profissional Adriano Santos já havia reportado à Direcional Condomínios sobre conflitos que vêm administrando nos empreendimentos entregues na última década, provocados pelo excesso de barulho (ou ruído) em torno de hábitos cotidianos dos moradores. Não é o caso do morador inconveniente que promove festas além dos limites do horário do silêncio (22h) ou escuta “música alta”, situações que ainda ocorrem. Mas de reclamações contra o movimento corriqueiro de uma moradia, como andar, tomar banho, lavar louça e abrir armários.

“Pelas características construtivas atuais, há mais vibração nas estruturas”, afirma Adriano. Em um dos prédios que administra, ele chegou a contratar perícia para avaliar as lajes entre os pavimentos, a qual identificou anomalias. O síndico enfrenta reclamações em outros dois condomínios, todos recentes. E diz que pouco há o que fazer, a não ser adotar medidas paliativas e explicar ao condômino a origem dos incômodos, para evitar que ele se antipatize com o vizinho. Mesmo porque, como a vibração reverbera em sentidos diversos, nem sempre a origem do barulho está na unidade de cima ou do lado.

A engenheira civil e síndica profissional Kelly Ramos de Lima é pesquisadora da área e explica que são baixos os custos para se garantir a eficiência acústica dos sistemas durante a construção de um prédio, mas que, depois de pronto, consertar “o que não foi feito envolve muito dinheiro e transtorno ao morador”. “O ruído gerado no interior das unidades autônomas provoca constantes desconfortos aos usuários, e não deixam de representar como uma manifestação patológica, que poderia ter sido evitada se tivesse sido contemplada nas fases de projeto e execução da obra”, reitera.

Com mestrado em Habitação pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e experiência de 23 anos na construção civil, Kelly Ramos acredita que esse cenário possa mudar com a norma de desempenho dos materiais, a ABNT NBR 15.575/2013, aprovada em 2013 e válida para os projetos apresentados desde então. Com a norma, as construtoras terão que seguir parâmetros como espessuras de lajes e de paredes divisórias, por exemplo.

Os barulhos reclamados pelos moradores são, em geral, "caracterizados como ruídos aéreos e transmitidos pela estrutura e paredes divisórias, quando, por exemplo, ocorre a movimentação de elevadores; pelo acionamento de bombas; o caminhar dos usuários; queda de objetos; e o arrastar dos móveis”, enumera a engenheira. “Há, ainda, os ruídos gerados pelas instalações hidrossanitárias embutidas na alvenaria, sob as lajes e em shafts.” A sua transmissão ocorre em sentidos diversos e muitas vezes é causada pela inadequação da espessura de lajes e alvenarias, além de esquadrias de alumínio sem desempenho acústico apropriado, aponta.

E agora, como resolver o problema?

O síndico Adriano Santos enumera as medidas que vem adotando nos condomínios que administra, de forma a atenuar o impacto da falta de acústica:

- Orienta os condôminos através de jornais internos ou comunicados quanto a atitudes simples que facilitam o convívio com o vizinho, como o uso de tapetes, de feltro sob cadeiras e de material em EVA nos espaços de brincar das crianças;

- Solicita que, após às 22h, os moradores redobrem seus cuidados com a movimentação dentro de casa; e,

- Em casos mais drásticos, pode sugerir a instalação de paredes acústicas, o que, segundo ele, tem sido feito por alguns condomínios.

Norma ABNT inova sobre medições

A ABNT NBR 10.152/2017, revisada e válida desde o ano passado, oferece índices que poderão ajudar os síndicos na administração de conflitos envolvendo barulho. A norma trata dos níveis de pressão sonora em ambientes internos a edificações. Segundo o engenheiro civil Marcus Vinícius Fernandes Grossi, “a revisão da NBR 10.152 deixou mais claro o método de medição do ruído, os requisitos mínimos dos equipamentos, e como tratar os dados para definir o nível de ruído representativo dos ambientes”.

Na prática, a avaliação de ruído ficou “mais próxima da percepção de desconforto dos usuários”, afirma. “Antes, de maneira simplificada, avaliávamos um ruído médio do ambiente. Mas são as variações bruscas de pressão sonora que mais perturbam os usuários. Assim, agora temos um critério de medição de ruídos máximos, que avaliará tal fenômeno.” Nas edificações prontas, isso facilitará ao usuário eventual comprovação de ruído que esteja fora dos parâmetros toleráveis, acabando com “interpretações dúbias e formas de avaliações diferentes”, o que antes “dificultava muito o acordo entre construtoras e usuários”, observa.

“Então, de forma resumida, essa norma trouxe mais segurança para usuários e construtoras. O construtor pode avaliar a edificação antes de entregá-la e ter a garantia de que, se teve uma avaliação conforme, não terá problemas com a insatisfação dos usuários. E o usuário, caso tenha problemas de ruído, terá como confirmar sua insatisfação pela medição acústica.” Entretanto, de acordo com o engenheiro, os valores mínimos de nível de pressão sonora foram estabelecidos para assegurar conforto e saúde, mas podem, eventualmente, não satisfazer àqueles que apresentam pouca tolerância a ruídos ou que tenham muita sensibilidade auditiva.

Leia também:

- Como obter provas do barulho que incomoda o vizinho no prédio. Com o advogado Thiago Giacon 

Matérias complementares:

- Sobre a origem dos sons e ruídos: A situação dos condomínios verticais
Por Kelly Ramos de Lima (Engenheira Civil e síndica profissional)

- Ruídos e isolamento acústico nas instalações hidráulicas dos condomínios
Por Kelly Ramos de Lima (Engenheira Civil e síndica profissional)


Matéria publicada na edição - 237 - agosto/2018 da Revista Direcional Condomínios

Não reproduza o conteúdo sem autorização do Grupo Direcional. Este site está protegido pela Lei de Direitos Autorais. (Lei 9610 de 19/02/1998), sua reprodução total ou parcial é proibida nos termos da Lei.