Demanda por ar condicionado nos apartamentos impulsiona retrofit elétrico

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O verao superaquecido vivido neste começo do ano em São Paulo (SP), outrora conhecida como “terra da garoa”, colocou na pauta de preocupações dos síndicos o gap que boa parte das edificações residenciais apresenta para atender à demanda pelo uso de ar condicionado nos apartamentos: Suas instalações não estão dimensionadas para comportar essa necessidade de carga.

síndico João Bosco dos Santos

O síndico João Bosco dos Santos: Modernização elétrica com aumento de carga possibilitou o uso de aparelhos de ar condicionado nos apartamentos

É certo que a modernização elétrica dos prédios tem buscado, em primeiro lugar, dar segurança ao condomínio e aos seus moradores, mas a questão do ar condicionado acaba servindo como um estímulo a mais para que a assembleia aprove uma obra desse porte, de investimento elevado.

O síndico João Bosco dos Santos conseguiu fechar o ano de 2018 já com novas instalações e carga operando, depois de um processo de cinco anos, contando-se desde as discussões iniciais com o corpo diretivo e assembleia, até a contratação da modernização (no final de 2017) e execução dos trabalhos (durante o ano passado).

Como resultado, os condôminos já puderam utilizar, para as festas do final de 2018, o salão de festas equipado com dois aparelhos de ar condicionado de 60 mil BTUs cada e três cortinas de ar (nos acessos ao ambiente). E o prédio disponibiliza hoje, para cada uma das 50 unidades, uma carga 19 KVAs (contra 8,8 KVAs da situação anterior). Agora é preciso que os moradores promovam adequação interna para aproveitarem a potência instalada (Leia mais na pág. 24). Para se ter uma ideia da demanda de carga gerada pelo ar condicionado, o que o salão de festas consome hoje equivale à potência antiga de um apartamento.

Segundo João Bosco, o condomínio implantado em 1972, na zona Oeste de São Paulo, decidiu investir na modernização elétrica “pela segurança, em primeiro lugar, e pelo aumento de carga”. O investimento, de R$ 300 mil, exigiu rateio extra. Como muitas edificações mais antigas, o prédio havia passado por reformas na parte elétrica que acabaram gerando irregularidades. Foi o caso da troca dos disjuntores originais por modelos mais robustos, sem que a fiação fosse substituída. A prática era comum, pois, conforme se introduziam novos equipamentos eletroeletrônicos na rotina dos brasileiros, os velhos disjuntores desarmavam por excesso de carga e os prédios, erroneamente, os substituíam sem a readequação do conjunto das suas instalações.

Do escopo dos trabalhos

Já para a atual modernização elétrica, o condomínio se preparou. O próprio síndico realizou um levantamento da demanda de cada unidade, cuja área varia de 152 a 156 m2. “Estimo que na época da construção do prédio, no começo dos anos 70, havia de 40 a 45% de demanda por eletricidade se comparada com a de hoje”, diz João Bosco, que é graduado em Matemática e executivo aposentado de vendas da indústria.

Com base nesses parâmetros e na condição do prédio, que oferecia carga de 40 ampères, a assembleia de moradores aprovou a contratação de um projeto elétrico independente. Assim que se tornou possível contratar uma empresa especializada para realizar a obra, alguns aspectos foram revistos e um novo projeto executado, conforme normas técnicas mais recentes da concessionária pública de energia de São Paulo, lançadas em 2014.

A principal mudança promovida foi a transição do sistema bifásico original para o trifásico, explica o engenheiro eletricista Rodrigo Costa dos Reis, responsável técnico pela modernização. Segundo ele, dentro da carga demandada pelo prédio, o trifásico se torna uma exigência da concessionária. Se as adequações tivessem mantido o sistema bifásico, a edificação iria variar de uma carga de 40 para 80 ampères, disponibilizando 17,64 KVAs por unidade; já no trifásico, o condomínio passou a 50 ampères de carga, mas com potência maior para os apartamentos (19 KVAs). O custo final é menor no trifásico, completa o engenheiro, pois este sistema comporta cabos de diâmetro menor que um bifásico de 80 ampères.

Toda a reforma envolveu, ao longo de 2018:

1) Desenvolvimento, apresentação e aprovação pela concessionária de projeto executivo;

2) Adequação na altura da coluna privativa de entrada da energia, assim como modernização nos quadros, incluindo a instalação de caixa com dispositivo de proteção contra surto (DPS), antes inexistente;

3) Troca geral do cabeamento de distribuição da energia até o quadro interno das unidades. As prumadas foram subdivididas. O caminho original foi mantido do 9º ao 25º andar. Mas houve necessidade de se instalar um caminho alternativo para a fiação chegar aos apartamentos do 1º ao 8º andar, subindo-a pelo antigo duto da lixeira. Isso exigiu passar os cabos em parte das escadarias, nos pavimentos e dentro dos imóveis (o quadro interno fica no corredor dos dormitórios), um circuito de cerca de 15 metros. Tudo recebeu acabamento em gesso, custo arcado pelo condomínio;

4) Troca do transformador do poste da concessionária sem ônus para o condomínio e liberação para que o prédio fizesse uma ligação provisória, desligando os antigos relógios;

5) Modernização do centro de medição, incluindo novo quadro geral para as áreas comuns, salão de festas, elevadores e bomba de incêndio.

O retrofit está praticamente concluído, alguns ajustes estavam sendo feitos em janeiro passado, mas, de acordo com o síndico João Bosco, o pleno funcionamento dos novos equipamentos do salão de festas (além do ar condicionado, há vários eletrodomésticos na cozinha) “mostra que passamos no teste”.

Unidades devem fazer adequações para usufruírem nova carga

No condomínio do síndico João Bosco dos Santos, os moradores estão autorizados a instalar aparelhos de ar condicionado em casa até a potência de 60mil BTUs, desde que promovam adequações, atendendo às normas técnicas correspondentes da ABNT (entre elas, a 16.280/2015, de reforma interna). No total, o prédio oferece hoje 19 KVAs a cada apartamento, que só poderá utilizá-los depois de providenciar mudanças, entre elas:

- Passar o quadro elétrico interno para o sistema trifásico, mudando o disjuntor geral e o barramento principal (ambos são originalmente bifásicos);

- Instalar tomadas adequadas à potência dos equipamentos que serão a elas conectados; e,

- Providenciar a distribuição interna do sistema de aterramento, que foi disponibilizado no quadro elétrico de cada unidade.


Matéria publicada na edição - 242 - fevereiro/2019 da Revista Direcional Condomínios

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