Cultura da paz no condomínio: Faça a sua parte

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É possível conquistar a pacificação do condomínio por mais turbulentos que sejam os relacionamentos interpessoais, afirmam síndicos e especialistas entrevistados para esta reportagem.

Festival de food truck em
condomínio

Festival de food truck em condomínio: Iniciativa do subsíndico Fábio Crisafully (à esq. na imagem) e do morador Fabiano Nobre, com apoio da síndica Jailma Araujo Brito - “Praça de alimentação ao ar livre”

Conhecimento, transparência, firmeza do gestor, coparticipação do corpo diretivo e promoção de eventos festivos e de serviços ajudam a reverter o clima e a cimentar a união.

No início da noite de sexta-feira, dia 8 de fevereiro, período ainda claro de verão, um clima descontraído tomava conta da área de estacionamento externo do Condomínio Residencial Verde Morumbi, na zona Sul de São Paulo. Acontecia o festival de food truck, organizado uma vez por mês pelo subsíndico Fábio Crisafully e o morador Fabiano Felix Nobre, com apoio da síndica Jailma Araujo Brito. Famílias se reuniam ali, depois de uma semana de correria com o trabalho e a escola. E moradores que há cerca de três anos discutiam e brigavam muito, naquele momento se reuniam para conversar e lanchar.

Esse é o entendimento da síndica Jailma, profissional na área e também psicóloga, com longa experiência em administração de condomínio. Ela atua como síndica geral de um complexo imobiliário que reúne torre com salas comerciais, um centro de compras e o residencial Verde Morumbi. Este foi entregue em 2014 com lazer amplo, 12 mil m2 de área verde, 3 torres e 400 unidades. Desde a implantação se instaurou um ambiente bastante conflitivo no local, relata o subsíndico e morador Fábio. “A situação era de total insatisfação com a antiga gestão, havia um clima de guerra com o síndico profissional da época, que não interagia com ninguém, ele simplesmente mandava e deixava o preposto aqui”, lembra. Com caixa quase zerado, a parte financeira do condomínio também gerava questionamentos.

O desejo de troca da administração era quase unânime entre os moradores, mas a concordância terminava aí. Eles se dividiam quanto aos rumos a serem tomados, “as ideias eram bem divergentes”, diz, por sua vez, o morador Fabiano. Até que no final de 2016, a síndica Jailma, que já administrava os demais empreendimentos do complexo, assumiu a gestão do residencial. Além da reorganização financeira, duas outras medidas vieram quase de imediato: Ela criou uma comissão de eventos e passou a promover feiras livres às quartas- -feiras, entre 17h e 22h. Paralelamente, os moradores vinham formando grupos de lazer entre si, como o do futebol e churrasco.

Houve dois pilotos com a feira livre antes que o serviço fosse validado em assembleia de condôminos.

De acordo com Jailma Brito, a mudança nos ânimos ajudou a diminuir as advertências e multas aplicadas aos condôminos. No começo, ela chegou a emitir penalização (de dez vezes o valor da cota) para condômino antissocial, em caso que motivou boletim de ocorrência na polícia. Hoje, esse morador participa dos eventos coletivos.

Durante o festival de food truck, empresas da região aproveitam o momento para ações promocionais, o que gera renda para o condomínio investir nas demais datas comemorativas do ano, como a festa junina e o dia das crianças. Síndicos da região têm procurado a gestora para conhecer o trabalho e replicá- -lo nos residenciais que administram.

“Os condomínios estão adquirindo esse viés de espaço de socialização”, observa Jailma. Assim, ela aconselha seus colegas gestores a abrirem espaço às sugestões dos condôminos, sem, no entanto, renunciar à firmeza e segurança em seus atos. “Não se pode ficar na defensiva, porque nesta posição a gente perde a paciência facilmente.”

Estilo da gestão reflete sobre ambiente

Síndico Ricardo Gonçalves

Síndico Ricardo Gonçalves: “A transparência traz a resolução de 99% dos conflitos”

Um condomínio misto, de torre única, com 295 salas até o 13º andar e 108 apartamentos entre o 14º e 22º, localizado a 50 metros de uma estação do metrô, foi comercializado rapidamente no lançamento, antes da crise econômica que atingiu o País. Ao ser entregue, porém, no final de 2015, com um ano e meio de atraso e no ápice da recessão, alguns proprietários estavam descapitalizados e o valor de locação dos imóveis havia caído mais de 50%. “As pessoas estavam chegando insatisfeitas e, ao ocuparem os imóveis, encontraram um cenário muito diverso do projeto comercializado e das expectativas criadas”, afirma o então subsíndico e hoje síndico geral, Ricardo Gonçalves.

Empresário da área de Tecnologia da Informação, Ricardo tornou-se subsíndico na assembleia de implantação do empreendimento – o ‘You, Metropolitan’, localizado no Tatuapé, zona Leste de São Paulo. Ricardo e parte do corpo diretivo promoveram inspeções independentes e chegaram a abrir mais de duas mil pendências com a construtora. O síndico profissional da época havia sido indicado pela empresa.

O ambiente era de insatisfação generalizada com a gestão e de frustração com as instalações do prédio. “Um símbolo disso é que a recepção do comercial não comportava o movimento de pessoas. Não havia onde esperar pelo atendimento, inexistia café, banheiros e salas de administração.” Esses e outros equipamentos foram implantados depois de Ricardo ter sido eleito síndico geral, em agosto de 2017; ele foi reeleito no começo deste ano para o 2º mandato.

Também o fato de ser um prédio misto gerava dificuldades. Em geral, a parte comercial costuma promover reformas internas no período da noite, o que, no Metropolitan, afetaria o sossego dos moradores. Mas também fica complicado fazer obras quando seu vizinho é um consultório médico e está atendendo os pacientes. “Isso tudo criou um ambiente estressante”, ilustra Ricardo, que passou então a mitigar a crise adotando regras, além de uma estratégia que favorecesse a ocupação comercial – “fizemos um networking muito grande para trazer as empresas da região para cá”. “A coisa começou a mudar quando entendemos as necessidades do prédio e passamos a explorar seus benefícios, como a localização.”

No residencial, com a maior parte dos moradores em sua primeira experiência em condomínio, o quadro inicial também foi problemático. Mas, baseado no tripé “escutar, informar e delegar”, Ricardo acredita que conseguiu a pacificação. “A transparência traz a resolução de 99% dos conflitos”, sugere. É claro que é preciso ainda aplicar doses de isonomia (tratar a todos da mesma maneira); impessoalidade (“Sou um CNPJ que não fica alegre, nem triste, nem decepcionado”); e firmeza para lidar com os conflitos diários, especialmente quando eles reverberam através de e-mails marketing difamatórios e provenientes de usuários falsos. Algo que um profissional de TI consegue identificar e que ficou no passado.


Matéria publicada na edição - 243 - março/2019 da Revista Direcional Condomínios

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