Como programar a liberação de ar condicionado no prédio e apartamentos?

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O risco de incêndio pela sobrecarga da rede elétrica tem levado condomínios a contratarem estudos de carga instalada versus demanda para avaliar o uso do ar condicionado nas unidades. Demais equipamentos de consumo elevado devem ser contemplados, como os aquecedores.

Auditor Ivo Cairrão

Síndico Rodrigo Martins: Retrofit elétrico em curso prevê aumento de carga para suportar uso dos equipamentos”

Uma assembleia Geral Extraordinária (AGE) aprovou, em fevereiro de 2017, a contratação de estudo de demanda e de desenvolvimento de projeto elétrico para o Condomínio Edifício Iraúna, prédio construído no final dos anos 60 com 58 unidades, em Higienópolis, São Paulo. O objetivo era orientar a modernização de todo sistema, com vistas a aumentar a potência instalada e a regularizar o uso do ar condicionado nas unidades, entre outros equipamentos.

Apresentado em maio de 2017, o estudo “apontou insuficiência na estrutura elétrica (infra e carga) para instalação de aparelhos de ar-condicionado”, lembra o síndico Rodrigo Martins. O gestor dispunha ainda de um laudo de inspeção, de 2015, que apontara a inadequação dos centros de medição às normas de segurança atuais. O projeto de modernização dos centros de medição e prumadas veio simultâneo ao relatório de carga e já aprovado na concessionária de energia.

Segundo Rodrigo Martins,

1. “A partir do estudo de demanda (oferta x consumo de energia), e considerando também a previsão de instalação de aparelhos de ar-condicionado para todas as unidades que quiserem, o projeto de elétrica contemplou o aumento de carga de entrada dos atuais 259 kVA para 357 kVA, o que possibilitará disponibilidade de 30 mil BTUs para cada unidade, com upgrade dos disjuntores de 60A para 100A e cabos de 10mm para 25mm”;

2. “Esses cálculos foram efetuados pelos engenheiros eletricistas responsáveis pelo estudo de demanda e projeto, com posterior aprovação pela concessionária.”

O síndico destaca que, devido à abrangência da obra e elevado custo, o ano de 2018 foi reservado para a “arrecadação de fundos”. E no começo de 2019, em fevereiro, nova AGE aprovou, por unanimidade, a execução da modernização para este ano.

Quais os riscos?

De acordo com o engenheiro eletricista Sérgio Levin, membro do Ibape-SP (Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia de SP), a instalação incorreta do ar-condicionado e/ ou seu uso em redes cuja carga seja incompatível com a potência do equipamento podem gerar incêndios. O agravante é que, em geral, os aparelhos são usados simultaneamente em várias unidades, nos chamados horários de pico (durante o dia nos empreendimentos comerciais e à noite nos residenciais). Um caso recente e emblemático ocorreu no início de fevereiro deste ano, com o incêndio no Centro de Treinamento do Ninho do Urubu, do Flamengo, no Rio de Janeiro, que matou dez atletas das categorias de base do futebol.

Mas não basta a adequação no prédio, é necessário que as unidades privativas estejam também preparadas para comportar esse uso, a exemplo de disjuntores, cabos (fiações), tomadas e/ou conexões. Nas edições de fevereiro, março e abril da Direcional Condomínios em 2019, foram reportadas experiências de modernização elétrica em condomínios a fim de viabilizar o uso seguro de ar condicionado e demais equipamentos potentes, caso das síndicas Luciana Campos (do Condomínio Cardeal, localizado no Itaim Bibi), Eliane Bezerra Martins (do Condomínio Tropical, na Barra Funda), Maria das Graças Amaral de Mello (do Condomínio Cinderela, em Higienópolis), e do síndico João Bosco dos Santos (em um residencial de Perdizes, na zona Oeste de São Paulo).

Modelo para estudo de carga elétrica x demanda no condomínio

  QuantidadePotências individuais (BTU / Watts)Fator de potência*
DEMANDA DO PRÉDIO¹        
  ADMINISTRAÇÃO      
  BOMBA DE INCÊNDIO      
Total 01        
         
DEMANDA DOS APARTAMENTOS¹        
  Chuveiro      
  Micro-ondas      
  Forno elétrico      
  Ar condicionado      
  Iluminação e tomadas      
Total 02        
CONSUMO TOTAL (Total 01 + Total 02)**        

* Outros indicadores deverão ser considerados no consumo de cada equipamento. São eles: Tensão unitária; Fator de demanda; Fator de simultaneidade; Demanda total. Eles deverão ser lançados em novas colunas na planilha acima, a qual traz uma versão adaptada e resumida do modelo aplicado pelos condomínios. Revisão técnica: Eng. Eletricista Edson Martinho. Nota 1: Estão relacionados apenas alguns equipamentos / sistemas. Fundamental inserir aquecedores das unidades, por exemplo.

**Esses dados serão comparados à carga suportada pelas instalações do prédio. A partir dessa análise, deverão ser projetadas as estimativas de Potência tensão e corrente de um novo projeto elétrico, de forma a comportar com segurança o aumento no uso de aparelhos de ar-condicionado (e outros equipamentos) nas unidades e áreas comuns.

Condições para regularizar o uso dos equipamentos

Assembleia Ordinária (AGO) do Condomínio Fernão Dias (foto acima), realizada em fevereiro passado, determinou que os moradores ou proprietários das unidades com aparelhos de ar condicionado apresentem um termo anual de responsabilidade, atestando a segurança da instalação.

O termo deverá incluir as condensadoras presentes do lado externo da fachada, corroborando a estabilidade física da estrutura. Essa é uma das medidas que a administração adotou, com aprovação dos condôminos, para regularizar a presença e o uso desses equipamentos. Construído em princípios dos anos 70, no bairro de Cerqueira César, em São Paulo, o Fernão Dias possui 67 unidades (60 residenciais e sete comerciais), com potência instalada (nas residências) de 40A (ampères). De acordo com o síndico profissional Luiz Leitão da Cunha, os moradores deverão respeitar essa carga, evitando ligar simultaneamente diferentes aparelhos eletroeletrônicos.

E para as unidades que pretendam colocar agora o ar-condicionado, o condomínio exige a apresentação de “projeto ou desenho esquemático da instalação em planta do apartamento”, a posição das condensadoras, a potência dos equipamentos, ART “do profissional envolvido”, entre outros. O síndico irá analisar a documentação com assessoria de engenheiro para liberar ou não a instalação.

Matéria publicada na edição - 245 - maio/2019 da Revista Direcional Condomínios

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