Economia & Saúde: ABNT muda norma de reuso da água da chuva

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A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) publicou no último mês de abril a nova versão da NBR 15.527/2019, que trata do “aproveitamento de água de chuva de coberturas para fins não potáveis, como rega do jardim e lavagem das áreas comuns”.

Segundo o engenheiro civil Plínio Tomaz, coordenador da norma, a revisão da NBR procurou atualizar as análises necessárias para garantir a qualidade da água. “O escopo diminuiu, ficou mais barato fazer a implantação do sistema”, afirma. Entretanto, o especialista ressalta que prevalecem exigências mínimas para evitar contaminações (por exemplo, pela bactéria Escherichia coli), bem como a turbidez da água, entre outros.

Plínio Tomaz, formado pela Universidade de São Paulo, é um dos responsáveis pelo serviço de água e esgoto de Guarulhos e autor de livro sobre o assunto. Entusiasta do sistema, ele utiliza água de reuso da chuva em sua própria casa (“para regar jardim, lavar carro e quintal”) e afirma que obteve economia de 15% no valor da conta do final do mês.

O engenheiro adverte, porém, que “essa água não pode tomar sol de jeito nenhum, os reservatórios devem permanecer fechados, protegidos”. “O sol ajuda no desenvolvimento de microalgas e algumas são tóxicas”, explica.

Ele adverte ainda que:

- O sistema deve captar a água do telhado e não do piso, onde “a poluição é aproximadamente doze vezes maior”;

- No entanto, se o telhado ficar mais de três dias sem chuva, a quantidade acumulada de poeira, folhas, detritos, fezes de pombas etc. precisa ser descartada junto com os dois primeiros litros d’água da próxima precipitação.

Calçadas: proibição em são paulo

Além da economia, em São Paulo os síndicos possuem outra motivação para aderir ao reuso. Há quase um ano a prefeitura regulamentou a lei 16.172/2015, que proíbe lavar calçadas com a água da rede potável. A regulamentação veio através do Decreto 58.341/2018, o qual indica, inclusive, alternativas de limpeza como o reuso, “desde que comprovada a sua origem”. Nesse sentido, Plinio Tomaz lembra os gestores da importância de colocarem uma placa de aviso na frente do prédio. Conforme a lei, condomínios reincidentes na lavagem irregular das calçadas serão multados. A água potável será permitida para lavagem em casos excepcionais, como alagamentos.

Reaproveitamento demanda cautela

A ABNT estuda no momento a edição de outra norma técnica de reuso, para tratamento e reaproveitamento da chamada “água cinza” (por exemplo, o efluente descartado pela máquina de lavar, pelo tanque, chuveiros etc.). “A falta de norma de reuso criou muita confusão no mercado, de soluções que não funcionam. Quando esta NBR for editada, os síndicos poderão cobrar pela eficácia desses sistemas”, avalia o engenheiro Plinio Tomaz.

No auge da escassez d’água vivida por São Paulo e Região Metropolitana, entre o final de 2015 e o início de 2016, a síndica profissional Patrícia Rodrigues e o conselho de um condomínio de oito anos e 48 unidades, localizado na Vila Clementino, zona Sul da cidade, se empolgaram com a possibilidade de implantar um sistema de tratamento da chamada água cinza. O volume descartado pelas máquinas de lavar roupa e tanques dos apartamentos seria captado e tratado em uma miniestação montada no subsolo do prédio, para sua reutilização nas caixas acopladas dos banheiros, assim como na limpeza e jardins das áreas comuns.

“Era uma solução inovadora, sua patente havia conquistado um prêmio, seríamos o sétimo condomínio a instalar o sistema em São Paulo. Pesquisamos muito, inclusive um concorrente, visitamos prédios, fizemos planilhas de prós e contras, e decidimos contratar o fornecedor. Estávamos afoitos, pagando a sobretaxa da Sabesp pelo consumo elevado de água, queríamos adotar algo ecologicamente correto”, relata a síndica Patrícia.

Porém, o sistema não apresentou o desempenho esperado e, pior, a água “tratada” mostrou-se imprestável até mesmo para a rega dos jardins, situação comprovada através de perícia. O condomínio move processo judicial contra o prestador de serviço para ressarcimento dos prejuízos (R$ 125 mil investidos inicialmente e os demais custos subsequentes). Por isso, o sistema não pode ser desligado, o que gera aumento do consumo de energia e mau cheiro proveniente da água “tratada”.

Dessa experiência, a síndica diz que tira um aprendizado: “Devemos prestar atenção às inovações, esperar um tempo de adaptação, verificar se elas consideram o perfil de uso e ocupação dos condomínios. Dos seis prédios onde houve a implantação anterior deste sistema de reuso, apenas em um ele está funcionando, pois existe um padrão único de consumo de sabão em pó e amaciante para todas as unidades. Hoje não contratamos ninguém mais sem termos 99% de garantia de que o produto irá funcionar”.


Matéria publicada na edição - 246 - junho/2019 da Revista Direcional Condomínios

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