Nem juiz, nem amigo: O síndico na relação com os jovens

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Adolescentes e jovens, especialmente acima de 16 anos, apresentam interesses que, em geral, confrontam o regulamento do condomínio. Resistem ainda a participar dos eventos coletivos. Mas é preciso insistir no diálogo e na busca de meios capazes de incluí-los na vida do prédio, recomendam gestores e especialistas.

Síndico Wolfram Werther

Síndica Patrícia Branco: “Percebo que conforme vamos cedendo espaços, conseguimos atrair os jovens e mitigar os conflitos”

O conjunto Residencial Nossa Senhora do Sabará encontrou um ponto de equilíbrio na forma de conduzir a relação de jovens e adolescentes com os interesses gerais dos moradores do condomínio: Flexibiliza posições, cria espaços e possui uma diversificada agenda de lazer. Antes de se posicionar diante de qualquer ocorrência, dá prioridade à conversa, procurando compreender em lugar de julgar. Mas quando precisa, revê concessões, afirma a síndica Patrícia Branco, que administra o residencial da zona Sul de São Paulo desde 2012. Segundo Patrícia, a faixa etária menos responsiva do condomínio se situa entre 16/17 e 23/24 anos.

Conversa

No entanto, conversar é preciso. O caso mais emblemático disso ocorreu há seis anos, logo que Patrícia organizou a primeira festa junina no centro comunitário do residencial, que possui 14 prédios, 756 apartamentos e área comum de mais de 40 mil m2. Na época, um morador jovem resolveu publicar o evento em página de rede social na internet e obteve mais de cinco mil confirmações!!

Quando soube da repercussão da festa do condomínio, a síndica conversou com o morador e, em vez de advertir a unidade e/ou impedir o acesso dos “convidados”, mediou com ele uma solução: Somente seriam autorizados a entrar aqueles que estivessem em uma lista previamente deixada na portaria, “com nome completo e RG”; a equipe do controle de acesso seria reforçada; toda bebida alcoólica vinda de fora ficaria retida e seria devolvida na saída do convidado. Os jovens ganharam um espaço separado das crianças e só poderiam consumir o que estava sendo comercializado no local (cerveja era a única bebida alcoólica). Correu tudo certo, mas sua frequência tem sido baixa nessas festas, pois “o interesse deles está em consumir bebidas destiladas, em grande quantidade, mais baratas”, analisa Patrícia.

Atualmente, com uma grade variada de eventos comemorativos, como a Festa da Primavera, realizada no último dia 21 de setembro, o condomínio passou a vender “convites” antecipados como forma de controlar os acessos e evitar problemas.

Recuo

Chegar a um acordo não é fácil, pontua a síndica, pois “os jovens querem o que em geral fere o Regulamento Interno (RI), como ouvir música alta e consumir bebidas alcoólicas”. Sem limites de decibéis nem horários. Depois de ceder dois espaços para adolescentes e jovens, o condomínio terá que recuar em uma pracinha externa que havia reservado para os que têm acima de 17 anos. Como a área fica na parte de fora, entre a portaria e um estacionamento de visitantes, os jovens começaram a se exceder no consumo de bebidas, em uma espécie de “esquenta” para as baladas. “Eles querem beber muito”, observa. E trazem gente de fora, o que inviabiliza qualquer mediação por parte do condomínio, mesmo que este tenha posse da área. A administração irá reformar o local e “fechar” o ponto do “esquenta”. “Procuramos quebrar barreiras, flexibilizar, mas chega um ponto em que isso se torna inegociável”, argumenta.

O outro ambiente cedido se localiza na parte descoberta do centro comunitário, afastado das torres e destinado aos adolescentes que pediram um local para o consumo de narguilé, modismo que está passando, diz. Também passou a ideia de se criar a figura do síndico mirim, por falta de interessados.

Com o tempo, a administração vai adaptando os recursos ofertados. Neste momento, Patrícia destaca que as iniciativas com maior adesão têm sido a assessoria esportiva recém-contratada; a academia inaugurada no meio deste ano; a feira livre promovida uma vez por semana, que virou “point em torno do pastel”; o happy hour no empório; uma horta implantada com adesão das crianças; e as festas coletivas, que atraem uma faixa etária bem diversificada entre os cerca de 3 mil moradores do residencial – exceto os jovens.

Para estes, o que mais têm gerado interesse no momento é a academia, cujo acesso é por biometria, mas com horário flexibilizado. “Os próprios moradores vão ajustando isso, fazendo autocontrole. Percebo que conforme vamos cedendo espaços, conseguimos atrair os jovens e mitigar os conflitos”, avalia Patrícia, atenta às mudanças de humores e expectativas do condomínio, ambiente onde não cabe o verbo “desistir”.


Matéria publicada na edição - 250 - outubro/2019 da Revista Direcional Condomínios

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