Síndico mirim, espaço teen, campeonatos esportivos: gestores avaliam opções

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Síndicos e administradores apontam que houve uma mudança na relação dos jovens e adolescentes com o condomínio, especialmente na faixa etária de 16 a 24 anos, com baixa presença nas atividades das áreas comuns.

O que a maioria quer vai contra o Regulamento Interno, especialmente restrições de horários e proibição de consumo de bebidas alcoólicas. Alguns veem a maioria desse público desinteressada da vida no coletivo, mesmo para campeonatos de futebol, enquanto outros indicam que uma certa flexibilização pode ajudar a viabilizar um acordo entre as partes.

O engajamento dos pais vem antes

Síndica Kelly Remonti

Síndica Kelly Remonti: “A família está falhando na colocação de limites, na formação dos jovens, na concessão da liberdade com a contrapartida das responsabilidades”

Para a síndica Kelly Remonti, o desafio envolve, necessariamente, a família. “O que eles querem é o que o Regulamento Interno proíbe, o som alto, levar bebida para a sala de jogos, fumar na área comum. Então fica difícil chegar a um acordo. Eles querem usar a área da churrasqueira para fazer encontros sem atender à regra de barulho, sem querer encerrar tudo às 22h. Esse é o horário em que eles querem ir para a churrasqueira!!”, ilustra a síndica, referindo-se ao condomínio onde atua como orgânica, em Alphaville, na Região Metropolitana de São Paulo.

Sem a “educação na família” fica difícil compatibilizar os interesses, analisa. “A falta de limites é problemática. Tivemos no condomínio uma situação muito desgastante, um DJ de 23 anos morava sozinho no apartamento dos pais e promovia festas assim que chegava do trabalho, na madrugada. Era uma galera bem pesada, havia consumo de drogas. Fizemos várias reuniões do conselho com ele, acionamos a guarda municipal e procuramos o delegado de polícia, através do Conseg, para nos orientarmos. Notificamos e aplicamos oito multas à unidade, todas pagas. Foi mais de um ano de problema, até que em agosto passado ele se mudou e os pais colocaram o apartamento à venda depois que enviamos uma notificação extrajudicial”, exemplifica a síndica.

Quanto ao síndico mirim, a ideia não avançou pela dificuldade de se encontrar perfis de adolescentes que pudessem compor o quadro do “conselho”, pois mesmo alguns nomes indicados não contaram com o apoio dos pais. “Tivemos ainda durante um tempo o campeonato de futebol, era algo que atraía, tentamos encontrar líderes para fazer a organização dos times, montar a tabela dos jogos, cuidar da comunicação dentro do condomínio, mas não foi para a frente. Não temos nenhum campeonato esportivo hoje”, lamenta.

“Essas situações relatadas esbarram em um mesmo fenômeno de fundo: A família está falhando na colocação de limites, na formação dos jovens, na concessão da liberdade com a contrapartida das responsabilidades. A partir do momento em que os pais colocam responsabilidades aos filhos, as consequências começam a aparecer.” Kelly relata ainda a dificuldade de acessar os jovens para uma conversa, porque esses “têm resistência à figura do próprio síndico, o qual carrega a imagem da regra”.

Construir a ponte para o diálogo depende de a família assumir antes o seu papel, reitera. “O condomínio não pode ser uma extensão da escola, nossos eventos têm que ser estruturados, então precisamos ter um grupo de pais que assuma essa responsabilidade. Precisa haver engajamento, o síndico sozinho não conseguirá fazer as coisas, essas necessidades têm que ser sentidas pelo morador.”

"Síndico tranquilo"

Para o síndico Wander Benzei Martins, do Condomínio Edifício Cristiane, localizado no Tucuruvi, zona Norte de São Paulo, as relações têm sido mais amenas no prédio. Ele se considera um “síndico tranquilo”, “nem juiz nem amigo, tem que ser a coisa certa, boa para todos”. Com apenas 60 apartamentos e torre única, o perfil do condomínio possibilita a Wander estar no WhatsApp com todos os moradores, canal através do qual ele próprio organiza a agenda de locação do salão de festas e da churrasqueira. Síndico há cerca de sete anos, foi Wander quem implantou no prédio a churrasqueira, um salão de jogos e a academia (com esteira cedida por ele e demais aparelhos por outros moradores).

“Procuro deixá-los bem à vontade, que usem o salão de festas para jantar com os colegas, mas colocamos certo limite, para não haver bagunça e não ter que advertir. Eles podem ficar na churrasqueira até 1h, 2h, desde que não haja som alto e nem incomode ninguém. Mas jamais permitiremos que cheguem às 22h para começarem a festa.” Já a conversa demanda “certo cuidado na forma de falar, precisa ser tranquila, não pode ir muito forte, como se fosse dono do prédio. Os donos são eles mesmos, se não cuidarem, vão danificar e causar prejuízo a si próprios. Eles sabem disso.”

Espaço Teen em condomínio

Pelo convívio saudável nos espaços teen - Imagem do Espaço Teen em condomínio do empreendimento Jardins do Brasil, em Osasco, Região Metropolitana de São Paulo. O local possui também um lounge para jovens. Em artigo publicado no site da Direcional Condomínios, o síndico profissional Demilson Bellezi Guilhem fala dos desafios para ocupar os ambientes cada vez mais sofisticados e segmentados por faixa etária, entregues pelas incorporadoras. “Devemos esgotar todas as formas de diálogo com os próprios [jovens] e com os seus pais, sempre com atenção e preocupação, lembrando que nós também já passamos por essa fase da vida. Claro que esgotadas todas as tentativas ‘amigáveis’, restarão as previstas no Regulamento Interno, para que o empreendimento não se torne uma ‘terra sem dono’.”

“Esvaziamento” na ocupação dos espaços

Diretor de Condomínio da Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo (Aabic), o administrador Omar Anauate tem observado um “esvaziamento” na ocupação de alguns espaços pelos jovens e adolescentes. “O jovem, principalmente, não tem mais frequentado a área comum, talvez reflexo do uso das redes sociais, do videogame. Isso acontece mesmo em condomínio com estrutura para eles”, observa. De outro lado, o administrador já se deparou com caso de jovem que cometeu infrações em um prédio somente para publicá-la nas redes sociais.

Segundo ele, “falta engajamento e interesse em viver em coletividade e de ajudar”. “O problema é a falta de regras, não obedecem nem em casa.” Assim, Omar questiona: Se a família “não controla mais os jovens”, o que caberia aos síndicos? A falta de engajamento impactou também no esvaziamento da ideia do síndico mirim, diz. O problema é que em breve esses jovens serão condôminos adultos que deverão participar do corpo diretivo do prédio e poucos estarão interessados neste papel, “exceto aqueles que são mais altruístas”, completa Omar.

Síndico Wolfram Werther
Criatividade – O uso de palavrões representa um dos maiores incômodos que jovens e adolescentes causam aos demais moradores quando se encontram nos espaços de lazer dos condomínios, como nas quadras. O síndico Celso de Souza Lima, do Condomínio Innova Blue, instalou placas nesses locais em linguagem mais leve (foto) para lembrá-los do Regulamento Interno e do risco de multas. As ocorrências no condomínio de seis prédios e 840 unidades, localizado em Osasco (SP), diminuíram.

Matéria publicada na edição - 250 - outubro/2019 da Revista Direcional Condomínios

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