Desabamento em Fortaleza: Engenheira explica como análise estrutural pode antecipar riscos e mitigar responsabilidades

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O desabamento do Condomínio Edifício Andrea, em Fortaleza (CE), no último dia 15 de outubro de 2019, deixou nove mortes, entre elas a síndica Maria das Graças Rodrigues, e sete feridos.

O prédio de sete andares tinha treze apartamentos e apresentava grande desgaste nas colunas de sustentação. Vídeos que circulam na internet mostram a síndica acompanhando serviços nessas colunas minutos antes de toda a estrutura desabar.

Segundo a engenheira civil Carolina Scheffer Longato Faro, em geral tem havido negligência na manutenção das edificações no País, pois “não há compreensão das pessoas justamente quanto ao risco do desabamento de um prédio pela ausência de manutenção preditiva ou corretiva e pelo final da vida útil dos sistemas”.

“A estrutura é calculada para carregamentos de compressão e, com a movimentação de acomodação e vento, o aço é inserido para cargas de tração. Trabalha-se, no concreto armado, com coeficiente de segurança, considerando o projeto da edificação, a tecnologia dos materiais, as especificidades da região, a vida útil (no concreto armado, de 40 a 50 anos) e o atendimento às normas técnicas da engenharia.”

Carolina Scheffer observa ainda que “qualquer patologia na estrutura tem os seus ‘avisos’, a exemplo de descascamentos, ferrugem, fissura, trinca, manchas e expansão”.

“A estrutura avisa aos cidadãos que algo está acontecendo. Quando em vias de colapso, que é o último estágio de comprometimento da estrutura, muitos fecham o olho para o problema e não dão a devida atenção e sentido de urgência à situação.”

Quando o profissional faz uma vistoria e detecta sinais de anomalia, o primeiro passo a ser adotado é “o escoramento para a carga da viga ou laje em questão”, pontua a engenheira. Para tanto, o engenheiro deve analisar os projetos existentes no condomínio, “por isso a importância de mantê-los acessíveis por tanto tempo”.

Entre os documentos técnicos que o condomínio deverá ter sempre à disposição dos profissionais da engenharia e/ou arquitetura, Carolina elenca:

“Projetos de forma, de fundação, o estrutural completo (armação e relatórios), levantamento topográfico, relatório de sondagem, o projeto apresentado e aprovado pela prefeitura.”  

Segundo ela, “os elementos técnicos do edifício são de suma importância para reanálise de dados e recálculo se necessário”.

“Para um redimensionamento, é necessário que se apresente a planta de forma, os desenhos de armação, tabela de aço, forma de ancoragem, tabela com levantamento de materiais.” Após o diagnóstico, conforme quadro mostrado a seguir, “a especificação será apresentada e orçada, e o trabalho de execução será gerenciado por equipe especializada em recuperação de estrutura. Se necessário, poderão ser solicitados ensaios tecnológicos a cargo do condomínio.”

Um relatório deve apresentar uma análise para cada elemento, conforme modelo abaixo.

Quadro de itens para análise estrutural dos sistemas de uma edificação
Anomalias Construtivas ou Endógenas (quando relacionadas aos problemas de construção ou projeto do prédio)
Anomalias Funcionais (quando relacionadas à perda de funcionalidade por final de vida útil - envelhecimento natural)
Falhas de Uso e Manutenção (quando relacionadas à perda precoce de desempenho por deficiência no uso e nas atividades de manutenção periódicas)
Fatores de Conservação
Rotinas de Manutenção Previstas
Agentes de Deterioração Precoce
Depreciação
Risco à Saúde
Segurança
Funcionalidade
Comprometimento da Vida Útil
Crítico
Regular
Mínimo
Mais Crítico
Menos Crítico
Sem Criticidade

Fonte: Carolina Scheffer Longato Faro (Baseado na cartilha “Inspeção Predial. A Saúde dos Edifícios, preparado pelo Ibape-SP. Acesse http://direcionalcondominios.com.br/sindicos/pdf/IBAPE/Cartilha-IBAPESP.pdf).

Situação atual das edificações

Em São Paulo, nas visitas técnicas realizadas em condomínios, Carolina diz que tem anotado falhas dos gestores na aplicação de normas como a ABNT NBR 16.280/2015 (relativa às reformas nas áreas comuns e privativas dos edifícios), na adequação de acessibilidade, entre outras. E que ainda o critério do “menor preço” predomina na contratação de projetos e obras pelos condomínios.

“Para maior segurança do síndico, que responde civil e criminalmente pelos seus atos e/ou omissão, os condomínios deveriam contratar e remunerar vistorias, projetos de consultoria, de reforma e retrofit. A visita técnica (de patologia, diagnóstico, contexto e solução técnica) precisa ser remunerada, assim eles garantirão o trabalho de profissionais qualificados.  Mas acontece o contrário, pelo mais barato, assim temos visto acidentes que eram previsíveis.”

Abaixo, nas imagens feitas pela engenheira, estão exemplos de “sinais” de degradação.

Exemplo 01 – Sistema de impermeabilização da laje, com corrosão da ferragem (na laje e vigas de sustentação)

Laje garagem
Garagem

De acordo com a cartilha de Inspeção Predial do Ibape-SP, as anomalias identificadas pelas imagens acima podem ter origem construtiva ou endógena; funcionais; e em falhas de uso e manutenção (detalhadas no quadro acima).

Exemplo 02 – Trincas a 45 graus aparecem no centro da edificação, no bairro Chácara Inglesa, no pavimento térreo, provavelmente originado pela movimentação da torre nos pilares centrais

Trincas no azulejo
Trincas no azulejo

Com base na cartilha do Ibape-SP, as imagens acima podem apontar:

- Situação crítica: Se a movimentação continuar avançando (as fissuras e trincas continuarem a aumentar); ou,

- Situação de acomodação: Caso de a estrutura, fundação e elementos estruturais não se movimentarem mais. “Para esse diagnóstico, é necessário um trabalho de observação e investigativo”, encerra a engenheira Carolina.


Matéria complementar da edição - 251 - novembro-dezembro/2019 da Revista Direcional Condomínios

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