Redes sociais, fake news e o condomínio em alta voltagem

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O uso das redes sociais funciona como uma via em dois sentidos, pode fazer tanto o bem quanto o mau nos condomínios. Os aplicativos de mensagens têm sido os mais utilizados e, se de um lado agilizam a gestão na tomada de decisões, de outro servem para propagar ofensas contra o síndico e brigas entre os próprios vizinhos.

Síndico Mauro
Possatto

O síndico Mauro Possatto: “O problema não é a ferramenta, é o mau uso”

O brasileiro ocupa o 2º lugar no ranking de horas diárias consumidas em redes sociais na internet: 225 minutos, mais de três horas e meia, superado apenas pelos filipinos, com 241 minutos. Comparativamente, nos Estados Unidos, o tempo gasto é de 117 minutos e, no Japão, de apenas 45 minutos. Os dados foram divulgados pela empresa de pesquisa de mercado GlobalWebIndex, sediada em Londres, no segundo semestre de 2019.

A rede social preferida do brasileiro é o WhatsApp, seguida do Facebook e Instagram, preferência esta que muda entre os jovens. Em 2019 havia pelo menos 120 milhões de usuários do aplicativo de mensagens instantâneas no País, segundo relatório da eMarketer (dos Estados Unidos). O Brasil era o 2º maior usuário do WhatsApp, superado apenas pela Índia (340 milhões de usuários). Brasil, Índia e Argentina são os únicos países em que o App foi utilizado em mais de 90% dos smartphones.

Os efeitos disso sobre as relações nos condomínios têm sido tanto positivos quanto negativos. O uso do App proporciona maior transparência na gestão do síndico, já que possibilita divulgar em tempo real comunicados sobre gastos, obras em curso, eventos, assembleias, Regulamento Interno etc. De outro lado, porém, a plataforma tem gerado confusão, pois o condomínio faz parte de uma sociedade que anda polarizada, desconfiada e de ânimos exaltados.

O síndico profissional Mauro Possatto relata o caso de agressão física entre dois condôminos na área comum de um prédio, após desentendimento no grupo do aplicativo. Motivo: Um deles havia parado na vaga de garagem do outro. Este fotografou o carro e espalhou para os moradores, mas o primeiro não gostou de ver a imagem de seu veículo circulando entre as pessoas. Ambos cometeram infrações às normas do condomínio e acabaram advertidos dentro do trâmite previsto pelo Regulamento Interno, afirma o síndico. E os moradores encerram o grupo.

Mauro foi profissional da área de TI (Tecnologia da Informação), começou como orgânico em um condomínio onde morava, se profissionalizou na função e hoje administra oito empreendimentos de perfis variados. Ele diz que a antiga “rádio peão” foi potencializada pela internet e virou “um inferno” com as redes sociais, especialmente nos aplicativos de mensagens. “Tornou-se algo sem controle, as pessoas não têm limites, compartilham informações falsas [fake news], criticam sem responsabilidade e, quando recebem o esclarecimento da administração, não desfazem o mal que causaram”, resume. Além disso, acrescenta Mauro, querem a resposta na hora, “três minutos sem o feedback do síndico viram uma eternidade”.

Segundo ele, o problema “fica mais evidente nos condomínios em implantação”. “As pessoas criam o grupo logo no início, no aplicativo de mensagem e não em uma rede mais aberta, porque acham que assim estarão mais ‘protegidas’. Então, ‘o burburinho’ é maior. O ser humano se tornou muito egocêntrico e exige que tudo seja feito dentro da sua vontade, na hora que quiser!”

Mauro chegou a notificar extrajudicialmente o participante de um grupo informal do condomínio, que o ofendeu. “Ele tinha 72 horas para se desculpar formalmente junto aos moradores ou apresentar provas da acusação que me dirigia. E acabou se desculpando no grupo. Somos profissionais, temos uma imagem no mercado. Cada síndico deve estabelecer seu limite do tolerável, passou disso, precisa tomar providências”, sugere.

Afora os danos potenciais à imagem e à verdade, o “burburinho”, em geral, nem se justifica, não tomaria corpo se o grupo buscasse antes informação junto à administração e/ou ao síndico, diz Mauro. Ele exemplifica: Para quem está chegando em um condomínio novo, é preciso conferir as normas, conhecer os canais oficiais de comunicação, as questões relacionadas à entrega e às garantias da construtora, o que diz respeito à unidade e às áreas comuns etc., antes de se lançar aos pré-julgamentos.

O outro lado

Já em um condomínio com a administração mais consolidada, os ruídos diminuem, pontua. Ele diz que não participa de grupos de moradores, mas disponibiliza seu número de celular para os condôminos das 1.258 unidades dos prédios que administra. Alguns contratempos acontecem, como a história de um morador que ficou preso no elevador com o filho e, em vez de acionar a portaria via interfone, disparou mensagens para o síndico, acusando-o de displicência. O detalhe é que a câmera instalada na cabina flagrou a criança pulando no elevador, o que gerou a parada. O condômino foi notificado por mau uso do equipamento.

Os grupos funcionam bem quando se trata do operacional (envolvendo a gerência e/ou zeladoria do condomínio) e do contato com o corpo diretivo, aponta Mauro. Na verdade, aqui os aplicativos de mensagens se tornam indispensáveis. “É uma ferramenta que permite tomar decisões e agir com muito mais rapidez, como estancar um vazamento ou aprovar determinado orçamento junto ao corpo diretivo”, ilustra. “Usada com sabedoria, é uma senhora ferramenta, mesmo no grupo dos condôminos, que podem divulgar serviços e venda de produtos, agendar confraternizações, fazer compras coletivas, entre muitos outros. O problema não é a ferramenta, é o mau uso.”

GRUPOS DE MENSAGENS: RECOMENDAÇÕES - O síndico Adriano Santos e o gerente de qualidade Raphael Davoglio (foto) procuram deixar claro que grupos de trocas de mensagens entre moradores não representam um canal oficial do condomínio. “Solicitamos que sempre utilizem os caminhos oficiais para informações, sugestões e reclamações”, afirmam. De qualquer forma, Adriano e Raphael distribuem comunicados aos condôminos com recomendações para um comportamento responsável e saudável em seus grupos. Entram aqui as regras da boa vizinhança, “válidas para ambientes online também”. Ambos já chegaram a acionar extrajudicialmente um morador por acusá-los, sem fundamento, de não atender à deliberação de assembleia.

Mesmo que os síndicos não participem desses grupos, alguns moradores acabam levando até eles casos de ofensas, fake news etc. Síndicos e especialistas costumam orientar os grupos a:

- Estabelecerem propósitos e regras na sua criação (por exemplo, para organização de eventos ou compartilhamento de serviços);

- Evitarem disparar mensagens e/ou imagens que possam denegrir alguém. É preciso cuidado no uso das palavras, além de não julgar, condenar ou fazer ilações;

- Deve haver um administrador que esclareça e aplique as regras. Casos de desrespeito deverão ser prontamente questionados e o autor excluído do grupo. Já há condenações judiciais por omissão de administradores de grupos durante troca de ofensas entre participantes de redes sociais.


Matéria complementar da edição - 252 - janeiro/2020 da Revista Direcional Condomínios

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