Água provoca danos nas estruturas das edificações. Saiba como contratar diagnósticos e soluções

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Na primeira visita de inspeção que uma equipe de engenheiros realizou no subsolo de garagem de um condomínio da zona Norte de São Paulo, tendo como objeto os sinais acentuados de degradação causados por infiltrações em lajes (foto abaixo), pilares, colunas e cortinas, identificou-se:

laje com infiltração

- Áreas comprometidas nas lajes abaixo da área da quadra externa e da piscina. Conforme indica a análise preliminar, antes mesmo da expedição do laudo final, as ferragens estão tão corroídas que houve ruptura, ou seja, elas já não exercem mais a função de proteção da estrutura;

- Pontos comprometidos na junção entre a laje e alguns pilares;

- Descolamento de algumas vigas; e,

- Perda da massa de concreto e corrosão das ferragens de juntas de dilatação.

Diante desse quadro inicial, a Direcional Condomínios questionou ao engenheiro civil Marcus Vinícius Fernandes Grossi, especialista em Excelência Construtiva e Anomalias, além de mestre e doutorando pelo IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), como é possível avaliar a necessidade ou não de medidas emergenciais pelo condomínio, como escoramento das estruturas, mesmo para se fazer os testes de vistoria?

Segundo Marcus Grossi, a gravidade do quadro pode ser apurada já na atividade de inspeção sensorial, com o uso da visão (para observar espessuras de trincas, presença de oxidação em ferragens etc.); do tato (para sentir rugosidades); olfato (umidade); e audição (testes de percussão para identificar pontos soltos). Com base nos indícios que observa, o engenheiro irá orientar pela necessidade ou não de ensaios complementares e até mesmo a necessidade de escoramento, a exemplo de um médico que ausculta o pulmão para solicitar exames complementares e encaminhar o tratamento, compara. Ele exemplifica: “Quando a inspeção em um pilar, que é o ponto que mais recebe carga da estrutura e sustenta todo o corpo da edificação, observar a redução da barra de aço, sendo que identificadas perdas iguais ou maiores que 10% da área de aço [segundo o Comité Euro-International du Béton], é preciso tomar medidas imediatas de escoramento, porque essa estrutura perdeu a resistência”.

Mas se o quadro do “paciente” não é tão drástico, o síndico e o condomínio dispõem de mais tempo para pensar nas soluções. Segundo Marcus Grossi, as manifestações patológicas mais comuns em áreas de subsolo e provenientes de infiltração podem ser divididas em dois principais grupos:

Grupo A – paredes de contenção, estruturas ao nível do solo ou enterradas

Neste caso, as origens mais comuns de infiltração estão relacionadas:

1. Ao lençol freático; à água da chuva que infiltra no solo; ao rompimento de tubulação (de esgoto, de água de chuva etc.). “Essa água, na maioria dos casos, não compromete o desempenho das paredes de contenção, a não ser que gere grandes empoçamentos nas áreas adjacentes. Caso haja reservatórios enterrados, o caso é diferente, isso pode afetar a potabilidade da água”;

2. À ação externa, como eventual interferência de construções vizinhas.

Grupo B – sistema de impermeabilização das lajes de superfície (térreo, cobertura, decks)

As causas de infiltração são muitas e sua análise deve considerar:

- Problemas de projeto (inexistência de drenagem, falha na especificação dos materiais, falta de ‘detalhes’, como no encontro de ralos, com tubos ou outros obstáculos emergentes);

- Problemas de execução (falhas no caimento dos pisos, perfuração da impermeabilização, erros de aplicação, por exemplo);

- Material empregado (qualidade ou incompatibilidade técnica com o sistema e as necessidades);

- Mau uso (Invasão de raiz de planta sobre o sistema) ou rupturas causadas pela afixação de elementos (antenas, traves etc.);

- Falta de manutenção; e/ou,

- Ações externas, como chuvas atípicas não previstas nos projetos.

Ações corretivas

De acordo com o engenheiro, as ações corretivas variam conforme o diagnóstico, mas, em geral, envolvem serviços de:

A) Drenagem (eles podem, entre outros, quando for o caso, reorientar a captação e direção da água de maneira planejada); e/ou,

B) Instalação de barreira impermeável. “Aqui podem ser aplicadas várias técnicas de engenharia, dependendo da região, interação com outros sistemas e impacto da intervenção, entre as quais, as mais usuais, são o refazimento da impermeabilização (normalmente com manta asfáltica ou argamassa polimérica) e/ou a injeção de materiais poliméricos em fissuras, demais veios d’água, sob camadas de impermeabilização antigas etc.”

MANTA NO TÉRREO E NA COBERTURA

MANTA NO TÉRREO E NA COBERTURA - O síndico Wander Benzi Martins promoveu, há cerca de um ano, serviços de impermeabilização com manta asfáltica na superfície térrea do Condomínio Cristiane, na Vila Mazzei, zona Norte de São Paulo. Também contratou a impermeabilização com manta asfáltica na cobertura, pois havia infiltração sobre os apartamentos superiores, bem como na casa de máquinas dos elevadores. Este ponto, porém, voltou a ter infiltração (fotos) durante as chuvas deste ano.O síndico acredita que a ocorrência tenha origem no local de afixação da haste do para-raios ou, ainda, na degradação da proteção mecânica aplicada sobre a manta.

Para o engenheiro Marcus Grossi, mesmo que a norma da ABNT relativa ao assunto (a NBR 9.574) não indique o tipo de camada a ser sobreposta à manta asfáltica, recomendase o uso de argamassa, já que materiais poliméricos se deterioram com a açãod os raios UV e apresentam menor tempo de vida útil. Já na superfície térrea sobre a garagem, onde havia extensa área de jardineira, o síndico não enfrentou mais problemas de infiltração. Wander observa que inexistia qualquer sistema de impermeabilização nesses dois setores que foram trabalhados. O edifício possui cerca de 35 anos.


deck da piscina do prédio

COMO FICOU – Entre o final do ano de 2018 e o de 2019, a síndica Regina Nagamine acompanhou a execução de obras de impermeabilização na área do deck da piscina do prédio onde mora na Vila Mariana, zona Sul de São Paulo. Um dos principais pontos de infiltração recaía sobre um caixão perdido e, deste, para a laje de uma das garagens (foto). Entregue em 2008 com uma torre e 106 unidades, o residencial apresentava quatro problemas de origem relacionados à área do deck:

1. Caixão perdido abaixo dele tomado por entulhos de obra, que acentuaram o problema da umidade e de corrosão das ferragens e do concreto;

2. Sistema deficiente de drenagem do deck da piscina para o caixão perdido, onde havia ralos sem a tubulação correspondente (ou seja, a água caia diretamente sobre o concreto na base da estrutura; existia ainda tubulação sem ligação com qualquer ralo);

3. Manta inadequada nas jardineiras contíguas ao deck da piscina (não era anti-raiz). Também não havia proteção mecânica lateral com manta nesses locais. A construtora havia executado apenas um chapisco “magro” com argamassa, “possibilitando a penetração das raízes no sistema de impermeabilização”;

4. Instalação de rede elétrica embutida inadequada para área molhada, típica de uso interno e não externo. Aqui, a fiação entrava em curto constantemente.

De acordo com Regina Nagamine, ao iniciar uma obra desse vulto, e mesmo dispondo de diagnóstico prévio e de projeto de engenharia, o síndico acaba se deparando com surpresas em relação aos elementos ocultos. Por exemplo, não se esperava ter que mexer nas instalações elétricas, tampouco havia dimensão do grau de penetração das raízes nas tubulações e estruturas; elas provocaram infiltrações até no tanque da piscina. Com os trabalhos concluídos (foto acima) ,ela observa que “o acompanhamento da obra por um engenheiro contratado pelo condomínio é extremamente importante para orientar o síndico”.


Matéria publicada na edição - 254 - março/2020 da Revista Direcional Condomínios

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