O futuro da segurança no “condomínio 5.0”

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A tecnologia 4.0 oferece aos condomínios recursos cada vez mais sofisticados para controlar o acesso, o perímetro, a circulação interna e garantir a segurança patrimonial. Mas o seu maior benefício será uma grande mudança cultural no comportamento dos condôminos. O avanço tecnológico exige que eles sejam corresponsáveis pelo sistema e prenuncia a era do “Condomínio 5.0”.

O uso de softwares integrados aos equipamentos de segurança de última geração nos condomínios, com câmeras, biometria, sensores, proteções perimetrais e até dispositivos de reconhecimento facial, entre tantos outros, tem colocado em cena o protagonismo dos moradores. A tecnologia impõe a necessidade de interação e cooperação de cada um deles com o sistema, especialmente nos prédios com portaria virtual (remota) ou automatizada. Também exige treinamento e novas posturas dos funcionários (próprios ou terceirizados) que atuam no controle de acesso.

A mudança cultural é profunda, observa Odirley Felicio da Rocha, especialista em tecnologia de segurança. Segundo ele, todo esse contexto já possibilita se falar no fenômeno do “condomínio 5.0”, “uma pegada tecnológica que virá nos próximos 15 anos”. “É um tipo de sociedade que está se desenvolvendo para absorver a tecnologia da indústria 4.0, buscando serviços que lhe garantam bem-estar, inclusão e sustentabilidade”, pontua Odirley. Nessa caminhada, a segurança entra como uma das bases do bem-estar.

Os síndicos profissionais Carlos Azevedo Fernandes e Alexandre Evangelista Silva vivenciam essa guinada provocada pela segurança eletrônica, em um caso paradigmático: Implantaram a portaria virtual em um condomínio localizado no Capão Redondo, periferia da zona Sul de São Paulo. Formado por cinco prédios baixos, com 86 apartamentos e quase 40 anos de construção, inicialmente o condomínio queria automatizar o sistema para solucionar três gargalos: O da própria segurança; o do quadro funcional, já que havia porteiros moradores ou parentes desses, com prejuízo da qualidade dos serviços; e o econômico.

“Eles queriam inicialmente uma automatização e tinham uma vaga ideia disso, mas levamos a proposta da portaria virtual, que acabou aprovada”, relatam os gestores. O novo modelo está em operação desde setembro de 2019, depois de mais de um ano de esclarecimentos ao corpo diretivo e moradores, da análise de propostas e de adaptações na infraestrutura (troca da central dos interfones e dos aparelhos nas unidades; reforma do gradil do perímetro do condomínio; reforço do CFTV; troca de cabeamentos; gestões para obter internet de banda larga na região etc.).

Carlos A. Fernandes
e Alexandre E. Silva

Carlos A. Fernandes e Alexandre E. Silva levaram a portaria virtual para condomínio na periferia de SP

O processo vem ocorrendo em três fases. Na primeira, o acesso de pedestres recebeu adaptações e equipamentos para o início do atendimento remoto pela prestadora de serviços. Na segunda, a porta principal de cada um dos prédios foi automatizada para ficar trancada e ser aberta somente através da “tag” do morador. Na terceira e próxima fase, serão fechadas as portas dos fundos desses blocos.

Ainda há “resistência cultural dos moradores” contra algumas das medidas. “Não tínhamos aqui procedimentos mínimos de segurança. Motoqueiros de deliveries eram autorizados a entrar no condomínio e deixar o pedido na porta do prédio”, ilustram os síndicos. Sequer havia cadastro dos moradores. Novos procedimentos tiveram que ser implantados, como a necessidade de o condômino ir até a eclusa receber entregas ou abrir a porta do hall do bloco para os visitantes.

O condomínio apresentava inúmeras vulnerabilidades na segurança. A possibilidade tecnológica de automatizar ou ter a portaria remota fez com que as pessoas passassem a discutir e a entender os riscos existentes. “A grande barreira que enfrentamos quando tratamos da segurança no condomínio está na herança cultural, nos hábitos dos moradores. Superar isso é um desafio constante, o processo tem que ser contínuo”, avaliam Carlos Fernandes e Alexandre Silva.

Com restrições orçamentárias, ainda não foi possível aos gestores providenciar 100% da proteção perimetral nem a redundância do fornecimento de energia (há nobreaks apenas para os portões), indispensáveis para um modelo como esse. A compra do gerador virá numa próxima etapa. Enquanto isso, o contrato garante ao condomínio o atendimento presencial pela equipe do prestador de serviços se houver queda de energia na região.

Portaria virtual: aprimoramento constante

Dois anos depois de implantar a portaria remota no residencial onde mora, na Zona Leste de São Paulo, o síndico orgânico Pedro Nagahama aponta que o sistema recebe ajustes constantes, dinâmica decorrente do próprio desenvolvimento e da adaptação dos moradores aos procedimentos estabelecidos. “Nesse período, surgiram novos modelos de equipamentos, como os interfones, que hoje possibilitam programar a primeira chamada [do visitante] para o celular do próprio morador.” Pedro estuda implantar a solução, que, se adotada, possibilitará ao condomínio migrar para um sistema híbrido, com o atendimento feito tanto remotamente quanto pelo condômino.

O síndico destaca, de outro modo, a importância de os prédios com portaria remota providenciarem alarme de incêndio, de inundações, entre outros; espaços exclusivos para receber encomendas e correspondências, incluindo “armários inteligentes”; de sucessivamente ampliarem as barreiras de acesso aos apartamentos; e instalarem tecnologias de reconhecimento facial e de placas dos veículos. “Com esse tipo de portaria temos obrigatoriamente que ter mais processos, inclusive da parte dos moradores”, ressalta. Membro da Comissão de Síndicos da Abese (Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança), Pedro ajudou a entidade a organizar um Guia de Boas Práticas da Portaria Remota.

síndica oegânica

Portaria remota, da desconfiança à aprovação – A síndica orgânica Rosa Maria Illison (foto ao lado), gestora do prédio onde mora no Jardim Paulista, em São Paulo, mudou radicalmente sua posição em relação à portaria remota. O sistema foi instalado em junho do ano passado no residencial de 33 apartamentos. “No começo eu era contra, porque temos muitos idosos, achei que haveria dificuldade na adaptação deles. Mas hoje sou completamente favorável, os moradores mais antigos não tiveram dificuldade. Na verdade, o problema são alguns jovens, já houve no condomínio dois incidentes com o portão da garagem controlado por eles.” Rosa Maria afirma que o objetivo inicial era a economia, a qual não foi tão significativa pelo perfil do prédio. Segundo ela, o maior benefício tem sido o da própria segurança. O condomínio integra ainda o programa Vizinhança Solidária e fez os investimentos necessários em infraestrutura física e de tecnologia. Manteve o zelador e um profissional da limpeza no quadro de funcionários.


Matéria publicada na edição - 255 - abril/2020 da Revista Direcional Condomínios

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