Cenários do “novo normal” no condomínio pós-pandemia

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Boa parte dos síndicos profissionais entrevistados ao longo do mês de maio pela Direcional Condomínios registraram pequena elevação da inadimplência em função da pandemia do novo Coronavírus.

síndica Kelly Remonti

A síndica Kelly Remonti diz que a antiga normalidade irá demorar e que mudanças vieram para ficar, como o enxugamento de processos administrativos no condomínio

Eles reportaram alguns aumentos de no máximo 6%. Índices maiores ocorreram em residenciais de renda mais baixa, como 19% em abril num condomínio administrado pelo síndico Mauro Possatto. No entanto, o número baixou para 16,5% em maio. Enquanto acompanham o movimento ainda incerto da arrecadação, os gestores começam, de outro lado, a olhar para o momento de retomada das atividades no condomínio, apontando que vem aí um “novo normal”.

Síndicos têm indicado que a retomada do uso das áreas comuns nos condomínios, assim como de atividades e obras que tenham sido suspensas na quarentena iniciada em março passado, irá introduzir novos hábitos aos moradores, funcionários e prestadores de serviços. A expectativa é que haja uma higienização mais frequente dos ambientes e equipamentos, o uso de máscaras em aglomerações e a flexibilização do trabalho, em home office, para alguns setores administrativos. “Ainda não sabemos a amplitude dessas mudanças, mas a atenção às áreas sociais vai mudar, evitando-se, por exemplo, as aglomerações em um primeiro momento”, analisa o síndico Paulo Fontes, do Portal Domínio Marajoara.

A síndica profissional Kelly Remonti observa que “cada condomínio tem a sua personalidade, uma tradição de usos e costumes, por isso, as adaptações irão variar de um para outro”. “Mas a volta ao antigo normal demandará um tempo maior para todos. As pessoas estarão mais conscientes de que precisam se proteger e mais exigentes com a saúde no condomínio, será uma fase prolongada”, acredita. De outro modo, os gestores irão incorporar novos processos administrativos adotados na quarentena, como um fluxo mais ágil na troca de documentos entre os condomínios e as administradoras, exemplifica.

O que gera incerteza é a adoção ou não de novas regras no uso das áreas comuns. Por exemplo, um usuário com gripe terá que usar máscara ao frequentar uma brinquedoteca? Para os síndicos profissionais Roseane M. Barros Fernandes e Carlos Fernandes, qualquer mudança deverá passar por discussão em assembleia (virtual, por enquanto), para então ser regulamentada. Já a síndica profissional Ângela Merici observa que o condomínio terá que definir quantas vezes será necessário higienizar ao longo do dia os equipamentos da academia, do playground, entre outros, e qual responsabilidade será repassada ao usuário. “Cada um terá que estudar isso dentro de sua realidade”, arremata.

Barulho

A principal queixa que tem chegado aos síndicos durante a quarentena se relaciona ao barulho entre as unidades. Com muita gente trabalhando e/ou estudando em casa, o mínimo ruído provocado pelo vizinho ou até uma obra na rua vem incomodando os moradores, afirma Ângela. “Quem está no home office hoje desconhecia a rotina do prédio ao longo do dia, este morador quer silêncio absoluto para trabalhar e, conforme o tempo passa, sua paciência esgota.” O jeito, segundo Ângela, é conversar. Ela mesma tem feito exercícios em casa diariamente, às 18h, e falou ao vizinho que sua bicicleta faria ruído, pedindo-lhe um pouco de paciência. Ângela aposta que o home office veio para ficar e que esse tipo de demanda estará presente no “novo normal”.

Planejamento Orçamentário e Obras

Para o síndico profissional Nilton Savieto, outro tema que será questionado é se o condomínio fez ou não as manutenções necessárias no período. Ele acredita, por outro lado, que a contratação de novas obras estará atrelada ao comportamento da arrecadação, pois algumas foram adiadas provisoriamente como medida preventiva e não por falta de dinheiro em caixa. Nesse sentido, Kelly Remonti sugere que “síndicos e conselheiros discutam o escopo de obras necessárias no condomínio, classificando sua prioridade e estabelecendo um plano de investimentos”.

Boas Ações

Em termos de relacionamento, o “novo normal” após a pandemia poderá conhecer uma maior humanização no trato entre as pessoas, apesar do aumento das queixas com barulho, destaca a síndica Renata Linhares, do Condomínio Reserva Jardim Tarumã, na zona Leste de São Paulo. Gestora e moradora do residencial, ela tem observado maior reconhecimento e valorização dos funcionários pelos moradores.

Este foi o caso também de um condomínio administrado pela síndica profissional Vanessa Munis, no Itaim Bibi, na zona Sul de São Paulo, e do Edifício Mont Blanc, onde vive a síndica Maria da Conceição Campello de Souza Galli, na Vila Monte Alegre (zona Sudeste da Capital). No primeiro, um morador doou R$ 2.500, por dois meses seguidos, para serem divididos entre os onze funcionários do prédio (terceirizados e próprios), um sinal de gratidão pelo fato de ele receber muitas encomendas. E no residencial onde vive a síndica Maria da Conceição, o condômino Antônio Leite tem arcado com boa parte das despesas semanais de deslocamento do zelador, quando ele vai para casa no sábado, em Ferraz de Vasconcelos, na região metropolitana de São Paulo. O uso do aplicativo de transportes para ir e voltar a uma estação do metrô é pago por Antônio.

Síndicos Profissionais

Cuidados para execução de serviços e obras - A síndica profissional Roseane M. Barros Fernandes e o síndico Carlos Fernandes mantiveram a execução de serviços e obras no período da quarentena (foto ao lado). Mas protocolos de segurança foram adotados, como:

- Horário restrito, das 8h às 13h, de segunda à sexta-feira, “em respeito ao home office”. Ou até às 17h para obras ou reformas que não emitem ruídos;

- Obrigatoriedade de uso de EPI (Equipamentos de Proteção Individual) pelos prestadores de serviço, incluindo máscaras e luvas;

- Obras com duração de no máximo 15 dias úteis e sequenciais, evitando-se movimentação simultânea em mais de uma área do condomínio;

- Reforço da limpeza e da desinfecção do corrimão da escada (quando utilizada), das maçanetas das portas e do caminho percorrido durante a execução dos trabalhos;

- Fornecimento de um borrifador com água sanitária para ser aplicado nos solados de tênis ou de sapatos na portaria. (Por R.F.)

O que esperar do síndico no pós-pandemia?

Uma live promovida pela plataforma Encontros da Cidade, no final de abril passado, com a participação do advogado Cristiano De Souza Oliveira, da comunicadora Maria Isabel, da psiquiatra Tatiane Vasconcelos e do psicólogo Hernán Vilar, abriu o debate sobre o “novo normal” do pós-pandemia nos condomínios.

De acordo com Tatiane e Hérnan Villar, a quebra de rotina gerada pela quarentena desencadeou o aumento da ansiedade, insônia e do medo entre as pessoas. “Na transição, ainda estaremos com nível de ansiedade e estresse muito elevado. As pessoas estarão com seus sistemas de alerta ligados”, observaram. Por isso, a cautela deve predominar na fase da retomada, especialmente entre os síndicos.

“As pessoas poderão se descontrolar, isso tem que estar na conta. Muitos passaram por momentos de perdas, de lutos, de extrema preocupação, de descontinuidade, de desemprego.” Desta forma, “qualquer indivíduo que exerça a liderança deverá absorver essa expectativa e as necessidades manifestas para diminuir os conflitos, as insatisfações e reorganizar o convívio”. Neste momento, o síndico deverá priorizar a escuta. “Os líderes precisam passar para as pessoas uma noção de esperança, de olhar para o amanhã e dizer que ele vai ser melhor. O mais importante para o líder é ouvir e dar esperança às pessoas.”

Matérias complementares:

- “Plano São Paulo” de flexibilização da quarentena: Como ficam os condomínios?
Por Cristiano De Souza Oliveira (Advogado e consultor condominial)
- Reabertura de áreas comuns e liberações de obras em condomínios na “nova quarentena” em SP
Por Roger Prospero (Síndico profissional)
Os desafios dos síndicos e os ensinamentos do período da pandemia
Por Vanessa Gantmanis Munis (Advogada e síndica profissional)
- Quem cuida do síndico em tempos de pandemia?
Por Suse Paula Duarte Cruz Kleiber (Advogada e consultora condominial)
- O síndico tem poder de abonar multa e juros da taxa condominial por causa da pandemia?
Por William Luca Cabariti (Eng. Civil e síndico profissional)

Matéria publicada na edição - 257 - junho/2020 da Revista Direcional Condomínios

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