Conflitos no condomínio: “O síndico é uma espécie de médico que precisa olhar para o paciente de forma global”

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Como líder de uma coletividade, o síndico pode contribuir para baixar a temperatura das tensões no condomínio, tanto pelas posturas próprias quanto por medidas que adote em prol desse ambiente. A reportagem da Direcional Condomínios conversou com o psicólogo clínico e monge budista Hernán Vilar e a médica psiquiatra Tatiane Vasconcelos para colher orientações que possam ajudar esse gestor a impedir que "o caldeirão pronto" chamado condomínio "entre em ebulição". Abaixo, os principais trechos da entrevista concedida pelo casal.

Síndico

O psicólogo e monge budista Hernán Vilar e a médica psiquiatra Tatiane Vasconcelos

Foto Edmilson Guedes de Magalhães

- Por que há conflitos nos condomínios?

"O condomínio, como todo grupo, tem conflitos e demandas. Por exemplo, antes da pandemia já havia problemas causados por barulho, por antipatias entre vizinhos e pela discordância de alguns com a decisão da maioria. Esta gera insatisfação, angústia e frustração entre aqueles que não têm o seu voto acolhido. Então, o condômino precisa aprender a lidar com essa frustração, precisa entender que a sua vontade está submetida à do grupo. E os indivíduos têm desejos que nem sempre serão correspondidos pelo coletivo, por isso o condomínio enquanto grupo já é um potencial gerador de conflitos. As famílias são diferentes, têm necessidades e interesses diversos, nem sempre atendidos. Cabe ao gestor administrar todo esse caldo emocional, de maneira que obtenha um consenso que corresponda à harmonia do grupo em geral."

- Sintomas potencializados pela pandemia

"A pandemia trouxe novas situações que ganharam peso para as famílias, além dos problemas habituais. Por exemplo, pessoas trabalhando em casa precisam de silêncio, mas crianças em casa geram barulho. Isso tudo provocou conflitos pessoais, emocionais, psicológicos de relacionamento, além dos práticos, exigindo que alguém [o síndico] viesse a assumir o papel de apaziguar os ânimos. Formou-se um caldeirão pronto para entrar em ebulição e temos vivido desde o início da pandemia um abalo na saúde mental, pois quando estamos mediante uma ameaça real como o novo Coronavírus, ou uma ameaça imaginada ou sentida (como uma ansiedade ou angústia que não se sabe de onde vem), as pessoas tendem a entrar num estado de alerta permanente. Esse estresse leva à manifestação de sintomas e sentimentos que tiram a estabilidade da pessoa. Viver sob risco leva à sensação de insegurança, abandono, angústia, ansiedade, faz aflorar emoções e perda do controle. E viver sob estresse constante pode desencadear transtornos mentais (de ansiedade, depressivo, síndrome do pânico).

Do ponto de vista dos problemas práticos, como aumento do barulho, uso obrigatório de máscaras e restrições ou não ao uso das áreas comuns, é preciso que o gestor entenda as necessidades de cada condomínio para saber manusear suas decisões. Pois a quarentena vem impactando na saúde física e emocional, tanto no caso de se restringir totalmente os espaços quanto de liberá-los completamente. Já se o condomínio tiver casos mais severos de saúde mental, sem que haja discernimento do próprio morador, o síndico deve acionar a família e exigir que ela se comprometa com o comportamento do indivíduo e dê suporte a ele. Sem esse cerceamento, a pessoa se tornará um risco para si e para o outro".

- Os síndicos & A sua saúde mental

"Diante do conflito, o gestor precisa não se colocar dentro da emoção das partes envolvidas, não adotar para si emoções como raiva, tristeza etc. Se fizer isso, ele acabará 'escolhendo' uma das partes, trazendo um problema para o grupo. Tampouco, como líder, ele deve decidir a partir da própria crença ou necessidade, porque isso é particular. É preciso considerar o desejo da maioria e perguntar o que vai fazer diferença ao bem estar de todos, apresentar soluções dentro disso, dando às pessoas a opção de escolha, pois a discussão por si só gera mais angústia. Por fim, é importante comunicar-se de forma clara, sem julgar nem ser impositivo ou agressivo. O organismo condomínio está passando por estresse há muito tempo e se não tratar todos os seus membros, vai continuar dando problema de saúde. O síndico é uma espécie de médico que precisa olhar para o paciente de forma global."

- Humanização, Empatia & Flexibilidade baixam tensões

Acolhida

'Um ambiente onde uma pessoa com estresse ou algum tipo de transtorno se sinta bem acolhida, poderá ajudá-la a encontrar uma saída. O morador que se sente ouvido, acolhido, encontra no condomínio um ambiente de segurança, sem que ele seja julgado, apontado. É a casa dele e o coletivo precisa entender que se trabalhar junto com os gestores, o condomínio se tornará um ambiente seguro para todos. Ninguém quer chegar em casa e ser olhado, julgado etc. Construir ambiente familiar saudável e harmônico é benéfico para todo mundo e o gestor precisa ser aquele que dará início a esse movimento de proteção aos moradores.

Distanciamento & Escuta

"Muitos problemas surgem de reações desproporcionais, quando as tornamos mais importantes que são, por isso é importante que se tome um distanciamento deles. Os seres humanos têm a capacidade única de se distanciar dos problemas e, olhando-os dessa forma, ele consegue pensar, ponderar e encontrar novas formas de lidar com o problema. Desta forma, a mais efetiva ferramenta que o síndico pode utilizar é a escuta. Ouvir não só o que é imediatamente expresso na narrativa, mas também aquilo que está por detrás dela, como medos, desejos, angústias etc. o distanciamento também é fundamental para que se tenha uma visão menos emocional e menos enviesada do problema que está surgindo. Essas duas por si só são capazes de levar as pessoas a uma reflexão.

Flexibilidade

"A regra funciona de maneira geral, é para todos, mas será que em algumas situações especiais não se poderia abrir exceções? Por exemplo, permitir que uma moradora instale um quadro do lado de fora de seu apartamento, que cultive um jardim etc. Tudo depende de bom senso, não é possível fazer tudo o que se quer, a regra existe para que as situações sejam controláveis, mas toda regra tem exceção por uma necessidade de humanização das relações. Além disso, estamos em constante mudança, o condomínio também, e as novas necessidades precisam ser olhadas."

Humanização frente à dor

"A pandemia trouxe momentos de muitas perdas, de lutos, em que as famílias não puderam muitas vezes se despedir apropriadamente das pessoas que faleceram. Os condomínios poderiam fazer um pequeno memorial daqueles que partiram, ter um local, independente da fé, da religião de cada um, onde mostre a sua compaixão através de um jardim, de campanhas, entre outros, levando às pessoas uma mensagem de esperança. O momento é de humanizar as relações, e algo que se observa nos condomínios, com a correria do dia a dia, é que eles têm pouco espaço para isso."

Motivando a solidariedade & O sentimento coletivo

"As pessoas precisam de um objetivo comum para se unirem. Isso faz com que se engajem, se comprometam e se sintam motivadas, criando um sentimento de pertencimento ao grupo. Pois todo mundo quer se sentir acolhido. E o líder desse grupo pode trabalhar no sentido de que cada família se sinta parte do coletivo, por exemplo, estimulando o comércio entre elas, trocas de experiências, de conhecimento etc. Ao dar oportunidade de as pessoas fazerem trocas dentro desse grupo, desde seus anseios e expectativas a alguns bens, colocando um plano para o futuro, o síndico poderá engajar a todos nesse propósito maior de passar pela pandemia. Quanto mais as pessoas se sentirem conectadas umas às outras, menos sofrido será este momento." (Edição Rosali Figueiredo)


Matéria publicada na edição - 261 - outubro/2020 da Revista Direcional Condomínios

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