Síndica relata como enfrentou situações de morte em seu condomínio

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“Sem duvida é desejável morrer sem se perceber, mas também convém morrer sem que os outros percebam” (De Philippe Ariés)

Morte é assunto tabu nos condomínios tanto quanto o sexo, porque ambos pertencem à natureza de todo ser vivente. Mas ela traz também preocupação aos condôminos por temerem desvalorização do imóvel, como se estas ocorressem somente em um dado condomínio. Vivemos esses temores também aqui em meu condomínio, desde a morte, há cerca de 20 anos, do zelador Lázaro, que faleceu após infarto fulminante na garagem do subsolo. Desde essa época fui eleita como síndica e administradora do condomínio, sem zelador, com suas 128 unidades habitacionais.

A primeira situação que nós condôminos enfrentamos na época com essa fatalidade foi a falta de recurso financeiro para o enterramento e a devida indenização da família residente. Vieram então outras “surpresas”, como a tomada de conhecimento de que o próprio condomínio estava em risco de também “perecer”, ameaçado de ruína total por falta de segurança. Nosso prédio já havia sido intimado pelo Contru, órgão da Prefeitura que controlava a segurança das edificações e que foi recentemente extinto.  Havia entre os proprietários o medo da perda do patrimônio ainda financiado, situação que enfrentamos através de mudanças na administração do condomínio, como a adoção do sistema de autogestão.

Nos anos seguintes, lidamos com situações de mortes de muitos moradores, como aqueles que não retornaram de suas viagens de férias, ou foram vítimas de latrocínios, ou eram doentes que faleceram em hospitais. Mas tivemos situações como daqueles que abreviaram a própria vida. A primeira vez em que nos deparamos com um caso desse foi em um sábado, dia 17 de setembro de 2011. Às 16h30, o porteiro tocou meu interfone avisando que um de nossos conselheiros me chamava em uma determinada unidade habitacional. Quando o porteiro disse o número do apartamento, meu pressentimento se confirmou. A transexual Roberta (nome social), que residia desde outubro de 2006 naquele imóvel, e se encontrava doente, sem condições de trabalhar e pagar o aluguel, estava morta havia dias.

Não fazia muito tempo que Roberta havia pedido que enviássemos um e-mail à proprietária do imóvel, desculpando-se pelos atrasos do aluguel e que não gostaria de mudar-se daqui, onde, segundo ela, pela primeira vez se sentira respeitada em sua condição. Como Assistente Social - ocasionalmente solicitada pelos moradores atuo na área -, não estranhei quando ela espontaneamente apresentou um atestado de não portadora do vírus HIV. É importante que os síndicos conheçam a obrigatoriedade de comunicação de doenças que podem requerer medidas de isolamento ou quarentena, de acordo com o Regulamento Sanitário Internacional e o Item V, do Artigo 482, do Código Sanitário do Estado de São Paulo.

A proprietária do apartamento ocupado por Roberta estava certa de sua mudança pelos atrasos no pagamento das contas, achava que o imóvel havia sido abandonado, pois a inquilina devolvera a chave no escritório dela (advogada). Assim, a proprietária foi ao apartamento naquele sábado, mas chegando lá, ao abrir a porta, sentiu forte cheiro que pensara ser vazamento de gás. Por isso resolveu descer até a portaria, sem entrar no imóvel. Ao descer o elevador, encontrou-se com o Conselheiro, para quem eu já tinha comentado sobre o “sumiço da Roberta”. Ele subiu então até o apartamento, onde encontrou seu corpo jazendo no quarto, em cama preparada com lençóis e roupas pretas, já em decomposição avançada.

Chamei a Policia (através do 190), depois fomos à delegacia do bairro para o registro do Boletim de Ocorrência, sob a classificação de óbito por morte suspeita. A Autoridade Policial acionou a Perícia Criminal, que ao chegar ao local identificou evidências de envenenamento autoinfringido. Em seguida, o Instituto Médico Legal retirou o corpo e todas estas providências, que acompanhei, adentraram pela madrugada. Perturbador foi verificar as péssimas condições materiais de trabalho dos técnicos do IML, sem saco adequado para o transporte do cadáver, o que nos obrigou a retirar uma cortina do apartamento e a improvisar uma solução. Eles estavam ainda sem máscara e o odor da morte contaminou por onde o corpo passou dentro do prédio, até chegar à rua. Eu mesma tive que desinfetar o elevador e pisos e promover a desinsetização do apartamento na segunda-feira seguinte.

Infelizmente, depois desse triste episódio, tivemos mais dois casos de morte no condomínio, com a retirada dos corpos repetindo a mesma situação vergonhosa de falta de condições para o trabalho das equipes do IML.  Sentimos falta também de um serviço especializado da Prefeitura ou do Estado que providenciem medidas sanitárias cabíveis nessas situações, restando aos familiares, ou à administração do condomínio, a desinfecção da unidade autônoma. Para o condomínio e familiares, é uma perda dupla.

 

Rejane de Albuquerque é síndica e administradora há quase 20 anos do Condomínio Ana Carolina, localizado em Santana, zona Norte da Capital Paulista (SP). É também assistente social.
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Foto: Rosali Figueiredo

 

São Paulo, 23 de agosto de 2013