Condomínio-Cidadão: Sustentabilidade na relação de vizinhança

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Economia de água e energia, coleta seletiva de lixo e ampliação de áreas verdes já formam um cardápio razoável de sustentabilidade nos condomínios. Mas o adensamento populacional e o aperto das cidades exigem que eles se preocupem também com seu impacto sobre a vida do bairro.

Os bairros de Pinheiros e Vila Madalena, na zona Oeste de São Paulo, vivem grande processo de adensamento. No momento, o advogado Michel Rosenthal Wagner, presidente da Comissão de Direito Imobiliário, Urbano e de Vizinhança da OAB/SP – Seccional Pinheiros, estima que estejam em construção pelo menos 40 edifícios comerciais e residenciais na região.

E é de um dos condomínios residenciais do bairro que Michel Wagner extrai vários exemplos de como as obras ou o funcionamento de uns impactam fortemente sobre a qualidade de vida de outros. São situações que produzem muito barulho, sujeira, trânsito, prejuízos à saúde, além de perdas materiais e econômicas.

Aspectos que estão relacionados ao conceito de sustentabilidade, o qual envolve três vertentes: a econômica, social e ambiental.

A síndica do residencial, Carla Marangolo, explica: “O prédio comercial tem sido um vizinho incômodo desde a época da construção. Em princípio, ficamos felizes com a chegada de um edifício de alto padrão, mas não imaginávamos que haveria tantos problemas. Quando pintaram o prédio, pintaram o nosso junto. Com muito custo, aceitaram lavar porcamente nossa fachada, estouraram o jardim, foi uma afronta! Tivemos problemas de rachaduras também. Depois, os transtornos vieram da gestão do condomínio, no pós-obra. O funcionamento dos aparelhos de ar condicionado gera um estresse geral por conta do ruído. Luzes acesas em alguns escritórios durante toda a noite obrigaram nossos moradores a providenciarem cortinas do tipo blackout. Eles também instalaram janelas antirruído”.

O transtorno afeta as unidades cuja fachada principal dá de frente para a área técnica do edifício comercial. O residencial tem 25 anos, 100 apartamentos duplex, e exibe um projeto arquitetônico moderno, apesar de seu quarto de século. O que a síndica deseja é que os administradores do vizinho comercial adotem regras internas para controle do barulho e providenciem a vedação acústica da área técnica de cada pavimento.

Segundo o advogado Michel Rosenthal Wagner, “um prédio não precisa dar tanto trabalho para seu vizinho”. De maneira geral, durante a construção dos edifícios, emerge a falta de cuidado com o vozerio na obra, problemas na conservação da calçada, o barulho das máquinas, a descarga e manuseio dos materiais. Da parte do poder público, sobressai a desconsideração com o comprometimento da paisagem e perda de areação e insolação. Também não se observam os impactos sobre a vizinhança gerados pela construção de vários prédios ao mesmo tempo em uma mesma região. “O custo que se paga é altíssimo.” E após a implantação dos condomínios, destacam- -se ausência de cuidados com regras internas de uso e ocupação.

No caso da síndica Carla Marangolo, o advogado afirma que foram adotados vários procedimentos em relação ao comercial nos últimos cinco anos, especialmente por causa das emissões de barulho e poeira. Outro cuidado foi obter uma “garantia de que a solidez do solo estava mantida”, face às rachaduras que surgiram e porque o comercial situa-se bem ao lado de uma nova estação do metrô, ainda em construção. “Solicitamos, através de representação junto ao Ministério Público, que a construtora apresentasse laudo de segurança.” O comercial também prejudicou o residencial em termos de vista, areação e insolação. E quando entrou em operação, o barulho se transformou no principal pesadelo, com o funcionamento intermitente dos aparelhos instalados na área técnica.

A administração do prédio comercial foi procurada pela reportagem da Direcional Condomínios, mas não se pronunciou sobre as queixas de seu vizinho.

“CÍRCULO VIRTUOSO”

Os síndicos figuram como um dos personagens centrais do chamado “círculo virtuoso da sustentabilidade”, diz Geraldo Bernardes, diretor de Sustentabilidade Condominial do Secovi-SP. Com essa imagem, ele procura reforçar a ideia de que atitudes em prol de um consumo mais consciente e de uma relação mais cidadã com o ambiente urbano e social exigem mobilização coletiva, com impactos coletivos.

Ao separar o lixo reaproveitável do molhado, o condômino ajudar a diminuir o volume da coleta regular, alimenta a cadeia econômica da reciclagem, contribui para o emprego etc. Já ao diminuir o gasto com a água, seja nos hábitos de sua unidade, ou apoiando programas do condomínio, ele consegue formar uma poupança e investir em novos projetos de sustentabilidade. “A economia de um leva a mais recursos, para se investir em outras ações”, analisa Geraldo.

Marcelo Takaoka, pesquisador da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e presidente do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), ilustra o imenso benefício proporcionado pelo uso mais racional dos insumos naturais: “Se o mundo todo utilizasse os recursos disponíveis para economizar energia [diminuindo o consumo em torno de 30%], pouparíamos U$ 1,6 trilhão ao ano, o que equivale a três vezes o montante da crise que envolveu a Grécia”. “E estamos falando de tecnologias já existentes”, ressaltou o especialista. Ou seja, é preciso arregaçar as mangas.

Matéria publicada na edição - 191 de jun/2014 da Revista Direcional Condomínios