Trabalho nas fachadas vai muito além do “efeito vitrine”

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Parece simples passar algumas camadas de tinta sobre a superfície sem envolver obra com muitas quebradeiras, a exemplo de uma impermeabilização de laje, mas não é. A pintura ou aplicação de textura nas fachadas requer atenção a detalhes que ficam ocultos sob a nova aparência dos edifícios, mas que são fundamentais para um bom desempenho e durabilidade de todo o sistema. Isso vai além do emprego adequado da tinta e do efeito estético obtido. Envolve, por exemplo, o preparo correto do substrato que receberá a pintura e/ou textura. Ou, ainda, o controle da qualidade desse material aplicado sobre o substrato, “de forma a se obter uma película com a espessura recomendada pelo fabricante”, analisam os especialistas em fachadas, Osmar Hamilton Becere e Carlos Carbone.

Ambos explicam que é comum se observar “a aplicação de tintas sobre substratos pulverulentos [empoeirados], de baixa resistência superficial, entre outras anomalias”. Osmar e Carlos chamam atenção dos síndicos para também considerarem que os revestimentos devem contribuir para a “estanqueidade” das fachadas, impedindo a penetração da água. Esta é uma função que não depende exclusivamente das pinturas, “mas sim de todo o sistema de revestimento (como alvenaria, chapisco e emboço)”. “Daí a importância de um projeto de vedação e de revestimento que seja pensado considerando as condições de exposição da edificação, de forma a se projetar o sistema de cobertura mais adequado”, alertam.

Nesse aspecto, “as fissuras e trincas visíveis devem ser recuperadas antes da lavagem que precede a pintura, de modo a evitar a penetração de água no interior dos edifícios”. Já aquelas que forem identificadas depois da lavagem, devem ser recuperadas a posteriori, antes da pintura. “O importante é que a correção das irregularidades no substrato seja realizada adequadamente”, evitando anomalias que comprometam o desempenho do novo sistema.

Osmar, que é Mestre em Habitação e pesquisador do Laboratório de Materiais de Construção Civil do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), e Carlos Carbone, engenheiro e Mestre em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da USP, deixam a seguir mais orientações importantes aos síndicos sobre pintura e aplicação de textura nas fachadas.

MATERIAIS: APLICAÇÃO & DURABILIDADE ARGAMASSA

“A vida útil das argamassas inorgânicas pode ultrapassar décadas, por isso esse tipo de revestimento permanece como o substrato mais usual para a aplicação de placas cerâmicas, tintas e texturas acrílicas. No caso das argamassas cinza, empregadas como emboço [aplicação inicial] e que contam com normas técnicas de especificação e procedimentos, é sempre recomendável sua aplicação por profissionais e/ou empresas especializadas. Além disso, o sistema de chapisco mais emboço deve ser submetido a ensaios de recebimento, antes da aplicação do revestimento final (tinta, textura acrílica, placa cerâmica etc.).”

Por sua vez, as argamassas inorgânicas pigmentadas, também conhecidas como monocamada, apesar de não normatizadas, devem seguir especificação do Ministério das Cidades (Diretriz Sinat / Diretrizes para Avaliação Técnica de Produtos).”

TINTAS DE BASE ACRÍLICA

“Elas não têm função somente estética. Devem também contribuir para a estanqueidade das fachadas, ou seja, ter propriedades que impeçam a penetração da água (baixa capilaridade) no interior das edificações durante as chuvas dirigidas (com ventos). Elas devem permitir que o pouco de água que venha a ser absorvida pelo sistema de revestimento (chapisco + emboço + pintura) possa ser devolvida ao exterior em forma de vapor (permeabilidade ao vapor de água). São características fundamentais para evitar que haja infiltração, mas que precisam ser estabelecidas em função do ambiente de exposição da edificação, considerando principalmente os índices de precipitação. O mercado dispõe de empresas capacitadas para produzir tintas com essas propriedades. Mas o usuário deverá enviar o produto para um laboratório de ensaio, procurando confirmar se a tinta adquirida atende às especificações estabelecidas, inclusive durante a obra, com coleta aleatória do produto em uso.”

TEXTURAS ACRÍLICAS

“As texturas acrílicas são constituídas basicamente pelos mesmos componentes das tintas imobiliárias: resinas acrílicas ou estireno-acrílicas, pigmentos, cargas minerais e aditivos. Porém, elas contêm cargas de maiores dimensões para proporcionar o efeito texturizado. Quando corretamente formuladas e devidamente aplicadas, apresentam vida útil superior a dez anos e das próprias tintas acrílicas, podendo atingir até 15 anos sem reparos, desde que sejam adotados os procedimentos de limpeza periódica recomendados pelo fabricante. Os cuidados de especificação, de seleção e de aplicação são os mesmos recomendados às tintas acrílicas. Também apresentam maior capacidade de dissimular (ocultar) fissuras no substrato, até certos limites; maior resistência à penetração de chuvas devido a maior espessura da camada em relação às tintas de acabamento liso; maior resistência ao intemperismo, além de a texturização disfarçar as alterações ocorridas; e, normalmente, apresentam economia nos custos de mão de obra em relação às tintas em função de: (a) requererem apenas uma demão; e (b) por apresentam maior capacidade de correção de irregularidades superficiais do substrato, dispensando na maioria das vezes a aplicação de massa corrida. Mas cabe ressaltar que o emboço deve apresentar resistência superficial adequada para a correta ancoragem da textura acrílica. Também, para o caso de emboços novos, deve-se aguardar a cura por no mínimo 28 dias.”

Matéria publicada na edição - 191 de jun/2014 da Revista Direcional Condomínios