Zelador: Escala para a profissionalização e promoção na carreira

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A expansão dos serviços nos condomínios trouxe novas responsabilidades aos zeladores e transformou muitos deles em verdadeiros gestores, que aproveitaram a oportunidade para dar um bom salto na sua formação e condições de vida.

A figura clássica do zelador que passa boa parte do tempo em uma "mesinha secretária" instalada no hall social dos condomínios residenciais, e que vez ou outra recebe o morador e o ajuda a carregar as compras até o apartamento, praticamente saiu de cena das edificações em São Paulo. Boa parte dos prédios implantou guaritas independentes, normatizando o controle de acesso dos condôminos, funcionários e visitantes. Também deu outras tarefas ao zelador e, em alguns deles, desativou a moradia e restringiu o expediente de trabalho ao horário comercial. Em outros, a própria função foi extinta e deu lugar à presença do gestor ou gerente predial, que cuida desde a organização da equipe de colaboradores até de aparatos tecnológicos sofisticados, como o acionamento remoto dos sistemas de irrigação do prédio.

A síndica profissional Ana Josefa Severino relata que um dos condomínios que administra, um residencial de 13 unidades localizado no bairro do Tatuapé, zona Leste da cidade, não tem zelador e preferiu contratar um profissional de manutenção que desempenha algumas das funções daquele, "ganhando acúmulo de função". A moradia foi alugada e o valor da locação entra como receita mensal ao condomínio. Ana Josefa comenta que os condôminos não sentem necessidade de ter um profissional presente no local dia e noite, de domingo a domingo, pois já há uma equipe de limpeza e portaria revezando-se em todo esse período.

Já no edifício em que reside e que também administra como síndica, o Piazza Di Toscana, situado na Vila Alpina, Ana Josefa conta que a moradia foi extinta e destinada à administração, mas que o profissional foi mantido. Ele cumpre jornada de 44 horas semanais, mora fora e, nos momentos de sua folga, o condomínio recebe o suporte do funcionário da manutenção. Na verdade, pondera Ana Josefa, mediante todo a estrutura tecnológica e de profissionais de um condomínio como o seu, a figura clássica do zelador nem faz mais sentido.

CULTURA ARRAIGADA NO CONDOMÍNIO

O administrador Omar Anauate, diretor de condomínios da Aabic (Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo), observa que a exigência do zelador de maneira intermitente ainda está muito forte "na cultura do prédio". Mais por uma questão de "flexibilidade" para fazer frente a emergências ou cobrir folgas da portaria do que propriamente de necessidade. É o caso dos condomínios-clube, que dispõem hoje de equipe de segurança, portaria e manutenção 24 horas por dia e que, em tese, não precisariam de um zelador residente, mas sim de um gestor predial.

É um momento de transição, pois há mesmo condomínios que remanejaram a função para gerente predial, mas não abriram mão da residência do funcionário, conforme testemunha um gestor, Francisco Feitosa, que administra um residencial de alto padrão localizado na zona Leste de São Paulo, no Jardim Anália Franco.

A história de Francisco personifica a trajetória de ascensão profissional de grande parte dos zeladores de São Paulo e ilustra as mudanças recentes. Ele veio do interior do Piauí com 18 anos para trabalhar como porteiro terceirizado em um condomínio residencial. Em apenas oito meses foi promovido a zelador e, desde então, investiu maciçamente em cursos de qualificação profissional, ao mesmo tempo em que passou a buscar novos desafios. Não queria ficar restrito às funções tradicionais do zelador, assim, logo assumiu o cargo de coordenador de implantação de condomínios junto a uma construtora.

Mais recentemente, Francisco Feitosa foi promovido a gestor predial no residencial onde hoje comanda 25 funcionários e coordena serviços "100% automatizados", como o sistema de iluminação, irrigação e CFTV, que podem ser acionados e controlados remotamente via internet. "Consegui quase 50 certificados de cursos na área", diz Francisco, que pretende retomar o curso de graduação em Administração de Empresas e fazer uma especialização. "O zelador para esse tipo de empreendimento não existirá mais", acredita o gestor, destacando ainda que a formação mínima exigida do gerente ou coordenador predial é a de nível superior.

Quanto a residir no local, onde exerce jornada de 44 horas semanais, ele reconhece que não haveria mesmo necessidade, "mas a moradia entrou como proposta de benefício salarial", explica Francisco, que construiu toda essa carreira em apenas dez anos de trabalho e estudo em São Paulo.

Matéria publicada na Edição 172 - set/12 da Revista Direcional Condomínios.