Zelador, um novo perfil

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A data de 11 de fevereiro remete a um personagem que exerce um papel indispensável ao bom andamento da vida condominial. É Dia do Zelador, função que tem crescido em importância e responsabilidade conforme os condomínios abraçam novos equipamentos e serviços.

Peça-chave de uma engrenagem que expandiu sua rede de serviços e teve as obrigações ampliadas nos últimos anos, especialmente nos condomínios-clube, o zelador cresceu em importância, responsabilidades e funções. E neste início de 2012, no mês em que se comemora seu dia, é possível afirmar que seu status se aproxima hoje ao de um gerente predial, mesmo que a investidura não esteja oficializada.

Com experiência de 30 anos na área condominial, diretor de uma grande administradora, Renê Vavassori considera o zelador o funcionário mais importante para o andamento da vida em uma edificação. A média salarial praticada pela administradora fica entre R$ 3 mil e R$ 3,5 mil mensais, mas pode chegar a R$ 5 mil no caso dos comerciais. “Hoje não se considera mais essa nomenclatura ‘zelador’, mas sim a de ‘gestor’. Antigamente, o prédio padrão tinha apenas uma torre, uma piscina e um salão de festas. Agora, os condomínios-clube, por exemplo, trazem uma exigência fenomenal, pois têm cerca de 50 equipamentos e além da sua operação diária, é preciso cuidar da relação entre os condôminos, ter preparo emocional e comportamental.”

Segundo Renê, o zelador ainda é a pessoa de relacionamento mais próximo com os moradores, e agora deve zelar para que as normas mais complexas de segurança, de uso das quadras e demais equipamentos de lazer, da garagem, de circulação com animais, entre muitas outras, não apenas sejam cumpridas, como não criem conflitos nem atitudes de rebeldia. Um verdadeiro gerente.

Francisco das chagas: Exemplo de transição

A mudança de papel foi um processo lento e acompanhou as transformações sociais e urbanas. Sua linha do tempo pode ser muito bem delineada pela história de Francisco das Chagas Ribeiro Matias, gerente condominial do Edifício Practical Way, conjunto de três prédios, 288 apartamentos e quase dez anos de vida localizado no bairro de Vila Leopoldina, zona Oeste de São Paulo.

Em sua mais recente assembleia geral, os condôminos aprovaram a substituição da empresa terceirizada que presta serviços de limpeza. Poderia ter sido uma deliberação corriqueira, afinal, a nova prestadora apresentou a melhor proposta financeira entre várias cotações, não fosse o detalhe de que o dono da empresa é nada mais que o próprio gerente do condomínio. Chagas iniciará, desta forma, uma nova jornada no local, combinando suas funções gerenciais com as empresariais, já que montou há pouco tempo sua prestadora, após passar pelo programa de empreendedorismo no Sebrae (o Empretec Brasil).

Os condôminos do Practical Way resolveram lhe dar um voto de confiança, pois o serviço será regido por normas contratuais, assim como aconteceria com qualquer outra prestadora. E no mais, trabalhando há quase nove anos no local, Chagas acaba exercendo informalmente o papel de supervisão dos funcionários da limpeza, montando escalas de serviço, fiscalizando e distribuindo tarefas. Esta, na verdade, foi sua primeira função no Practical Way, pois chegou como encarregado geral de limpeza e manutenção em outra terceirizada. Logo foi contratado como zelador do condomínio então recém-implantado e, desde 2008, tem como registro em carteira a função de gerente condominial. “Sou uma pessoa que gosta de desafios e ainda não me dou por satisfeito com o cargo que ocupo, gosto de ser desafiado para ir crescendo”, afirma Chagas.

Com 37 anos, casado, um filho adolescente, Chagas veio do interior do Piauí aos 18 anos. Órfão de mãe desde os oito, começou a trabalhar aos nove para ajudar o pai e ainda hoje envia a ele um auxílio mensal. Chagas se considera uma pessoa reservada, mas muito empenhada. Concluiu a 8ª série no Piauí e o Ensino Médio em São Paulo, onde frequentou inúmeros cursos, entre eles, Técnico de Administração pelo Senac e o de empreendedorismo pelo Sebrae. Em seu primeiro emprego quando chegou ao Sudeste, ficou apenas quatro meses como servente de pedreiro de uma construtora, que o promoveu a auxiliar de almoxarifado. Chagas não saiu mais da área administrativa.

Seu envolvimento com condomínios aconteceu quando participou da construção da atual sede do Secovi em São Paulo, na Vila Mariana. De encarregado de almoxarifado na empresa responsável pela obra, assumiu como subgerente operacional junto ao Sindicato da Habitação. Foram seis anos de vínculo empregatício junto ao Secovi e de muito aprendizado na área, período em que aproveitou para participar de todos os cursos que pôde. Com esse aprendizado, tem procurado adotar procedimentos que tornem mais eficiente o funcionamento das instalações do Practical Way. O condomínio possui sistema de aquecimento central, com seis caldeiras; guarita blindada; identificação biométrica para prestadores de serviço; cartão magnético de acesso dos condôminos pela entrada social; coleta de lixo seletiva; mais de 500 vagas de garagem; bicicletário; salões de jogos e festas; sala de recreação; espaço gourmet; churrasqueiras; cyber room; academia; quadra; playground; sauna e piscina. Há quatro funcionários próprios, além de dez da empresa de segurança e seis de limpeza.

Para manter tudo em ordem, Chagas criou um sistema de vistoria em 20 diferentes pontos do condomínio, os quais devem ser percorridos a cada hora pelo funcionário, que munido de um bastão de ronda, registra eletronicamente a inspeção. Os dados são baixados via porta USB para o computador do gerente condominial.

Um dos pontos críticos, segundo ele, são as caldeiras, cuja performance deve ser anotada em uma planilha própria, a cada hora. Parece exagero ou perfeccionismo, mas conforme comenta o administrador Renê Vavassori, “o condômino quer tudo bonitinho, funcionando e sentir um bom nível de segurança”. Para tanto, Chagas implantou, por exemplo, o “alerta vigia” na guarita, que deve ser acionado a cada hora pelo porteiro, sob pena de ser flagrado em um cochilo e ver o alarme disparar na casa do gerente condominial.

“Acredito muito no trabalho, no incentivo, acredito que com autoconfiança a gente consegue tudo, pois fui praticamente jogado no mundo para me virar”, comenta Chagas, que procura estimular sua equipe a crescer profissional e financeiramente. Ele reside em apartamento cedido pelo condomínio, mas tem casa própria e outras três alugadas na zona Sul de São Paulo. Acaba de adquirir um apartamento na planta de um condomínio-clube localizado na região do Campo Limpo. Sem modéstia e reconhecendo o próprio valor, Chagas não se furta a dizer que “as pessoas que querem ir para algum lugar, veem um exemplo em mim. Minha história me orgulha”, finaliza o hoje empresário e gerente condominial.

Perfil do zelador: Em pauta, mobilização e qualidade de vida

Com uma trajetória um pouco diferente da protagonizada por Francisco das Chagas, o zelador José Zilmar Miranda personifica outro perfil também bastante valorizado nos dias atuais: a de um mobilizador, que cuida não apenas da integração da categoria, como também da melhoria do bairro de Moema, onde trabalha e reside. Atuando há 21 anos no Edifício Maria Francisca, com apenas 19 apartamentos, um por andar, José Zilmar não precisou incorporar tantas funções gerenciais. Mas abraçou a defesa da Escola Estadual Professor Napoleão de Carvalho Freire, onde faz parte do conselho, e do meio ambiente - integrando o respectivo conselho na subprefeitura de Vila Mariana. É um homem de mídia, uma espécie de porta-voz informal da categoria.

Segundo ele, existem em Moema 387 condomínios, cerca de 330 com zeladores. Há cinco anos José Zilmar mobiliza os zeladores mais próximos de seu trabalho, organiza encontros semanais numa quadra de esportes, reuniões periódicas com seus familiares e mutirões de limpeza para ajudar a Escola Napoleão de Carvalho. Ele se autodefine como um líder nato, que galgou todas as funções no condomínio e também frequentou os cursos que pôde, até chegar a zelador, em 1994.

Matéria publicada na Edição 165 - fev/12 da Revista Direcional Condomínios.