Quinta, 25 Setembro 2014 00:00

Drogas lícitas no condomínio – Álcool (Parte 1)

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Continuando a série de artigos sobre Dependência Química que visam a orientar os síndicos, onde procuramos mostrar a importância de que eles abordem o assunto com os pais e demais condôminos, torna-se necessário agora apresentar-lhes as causas e consequências da utilização dessas substâncias pelos dependentes, desde as mais usadas, até as menos usadas.

Neste artigo falarei sobre o Alcoolismo, que é sim considerada uma droga, mas lícita, e que, infelizmente, está entre os produtos mais consumidos pela população, sendo que a juventude tem iniciado seu consumo cada vez mais cedo, como, por exemplo, a partir de 10 anos de idade. Existem ainda casos de experimentação a partir de 7 anos de idade, através dos próprios pais, os quais permitem “experimentar” a espuminha da cerveja, não pesando as consequências futuras.

O material apresentado a seguir encontra-se atualizado pelo SENAD (Secretaria Nacional de Políticas sobre drogas) em conjunto com a UNIFESP (Universidade Federal do Estado de São Paulo) e o SUPERA (Sistema para Detecção do Uso Abusivo e Dependência de Substâncias Psicoativas).

A partir desta leitura, é de máxima importância uma séria reflexão que deve ser repassada para todas as famílias, como forma de despertar uma maior conscientização sobre a problemática do desenvolvimento da Dependência Química, doença incurável, mas tratável e preventiva, mas que infelizmente vem num crescente a cada dia.

Álcool é uma droga psicotrópica

Para muitas pessoas, Droga é somente aquela substância cujo consumo é proibido, no entanto, é importante lembrar que existem Drogas Lícitas, cuja venda e consumo são permitidos por lei. O álcool é uma delas.

O uso do álcool é aceito socialmente e pode, em alguns casos, não desencadear problemas. Isso dificulta lidar com o fato de que para cerca de 30% das pessoas este uso torna-se abusivo e gera problemas, entre eles a dependência.

Segundo o VI Levantamento Nacional sobre o Consumo de Drogas Psicotrópicas entre Estudantes do Ensino Fundamental e Médio das Redes Pública e Privada de Ensino nas 27 capitais brasileiras, realizado em 2010, o uso pesado (maior ou igual a 20 vezes/mês) no Brasil atingiu a 1,6% dos estudantes, sendo maior o uso pesado de álcool em estudantes de escola pública (1,7%), se comparado com os alunos das escolas privadas (1,1%). Contudo o consumo é maior entre estudantes das escolas privadas (47,5%) se comparado com as públicas (41,1%).

Outros levantamentos indicam que:

  1. O uso de álcool nas 108 cidades com mais de 200 mil habitantes é de 74,6% e o uso pesado (maior ou igual a 20 vezes/mês) é de 7,0% (dados do II Levantamento Domiciliar – 2005);
  2. A prevalência de dependência de álcool na população é de 6,8% (Dados do II LENAD / Levantamento Nacional de Álcool e Drogas).

Bebidas alcoólicas e seus efeitos no organismo

O álcool presente nessas bebidas é o etanol, produzido pela fermentação de frutas e grãos ou destilação de seus produtos – como ocorre com a cana-de-açúcar. No Brasil, há uma grande diversidade de bebidas alcoólicas, cada tipo com quantidades diferentes de álcool em sua composição.

Mas que fatores influenciam a ação do álcool?

A frequência de ingestão, a quantidade de álcool ingerido, a quantidade de álcool absorvido, sua distribuição pelos tecidos do organismo, a sensibilidade individual dos diferentes tecidos e órgãos e a velocidade de metabolização afetam os efeitos do álcool.

Você sabe qual a quantidade de álcool existente nas bebidas alcoólicas?


BEBIDA

PORCENTAGEM DE ÁLCOOL

Cerveja light

3,5%

Cerveja ou cooler

4,5% a 6,5%

Vinho

12%

Vinhos fortificados

20%

Uísque, vodca, pinga.

40%

Você sabe o que é uma dose “padrão” de álcool?

É uma quantidade de bebida alcoólica que contém em torno de 14 gramas de etanol puro. Como a densidade do álcool é 0,79 g/ml, em 17 ml de álcool (etanol) puro existem 14 gramas de álcool. Considerando a concentração das diferentes bebidas:

UMA DOSE PADRÃO DE ÁLCOOL EQUIVALE A:

  • 40 ml de pinga, uísque ou vodca;
  • 85 ml de vinho do Porto, vermutes ou licores;
  • 140 ml de vinho de mesa;
  • 340 ml de cerveja ou chope = 1 lata;
  • 600 ml, 1 garrafa grande de cerveja contém 2 doses.

As mulheres são mais sensíveis aos efeitos do álcool e atingem níveis de concentração mais altos com menores quantidades da droga.

Qual a relação entre as doses ingeridas e a concentração de álcool no organismo cerca de 30 minutos após ingestão?

CONCENTRAÇÃO DE ÁLCOOL (em gramas por litro de sangue)


Doses Padrão

Homem com 60 kg

Homem com 70 kg

Homem com 80 kg

1

0,27

0,22

0,19

2

0,54

0,44

0,38

3

0,81

0,66

0,57

Como o álcool é metabolizado pelo organismo?

Cerca de 90% do álcool (etanol) é metabolizado no fígado, transformando-se em acetaldeído ou aldeído acético, devido à ação da enzima álcool desidrogenase. O acetaldeído é então transformado em acetato, que será eliminado do organismo pela urina. O acetaldeído, que se forma no processo de metabolização do álcool, aumenta a pressão arterial, os batimentos cardíacos e pode causar rubor facial, náuseas e vômitos.

Muitos efeitos observados após a ingestão de bebidas alcoólicas são, na verdade, efeitos do acetildeído, que permanece no sangue por mais tempo do que o álcool.

Medicamentos como o Antabuse contêm dissulfiram, uma substância que inibe a enzima aldeído desidrogenase, responsável pela eliminação do acetaldeído.

Esses medicamentos ainda são usados em alguns locais para auxiliar no tratamento de pessoas dependentes de álcool, com a única finalidade de ajudá-las na decisão de não beber, pois se beberem enquanto estiverem sob efeito do medicamento (que dura até uma semana depois de ingerido o comprimido) podem: sentir mal-estar forte, com elevação da pressão arterial, aumento dos batimentos cardíacos, chegando até a morte, por parada respiratória ou cardíaca.

A ideia é fazer com que o paciente tenha de decidir apenas uma vez por dia se vai beber ou não. Se ele tomou o comprimido NÃO PODE BEBER por até 7 dias, pois poderá sofre forte mal-estar.

Faz diferença beber lentamente ou rapidamente?

Como o organismo é capaz de eliminar 1 dose padrão por hora, se a pessoa beber várias doses seguidas, seu organismo irá acumular mais álcool no sangue. Algumas formas de beber, como o “vira-vira”, são particularmente desaconselháveis, porque aumentam muito rapidamente os níveis de álcool no sangue.

Quais são os efeitos do álcool no Sistema Nervoso Central?

Seus efeitos podem ser divididos em estimulantes e depressores do organismo:

  1. Inicialmente (doses baixas ou na fase inicial do efeito de doses altas), o álcool age como estimulante do sistema Nervoso Central, levando a sensações de euforia, desinibição, sociabilidade, prazer e alegria;
  2. Em um segundo momento, o álcool age como “depressor” do Sistema Nervoso Central, reduzindo a ansiedade, contudo prejudicando a coordenação motora. À medida que aumenta a concentração de álcool no sangue, ocorre a diminuição da autocrítica, que por afetar a capacidade de avaliação dos perigos, pode levar a comportamentos de risco, como beber e dirigir ou operar máquinas, levando a acidentes;
  3. Pode haver lentificação psicomotora, deixando a fala “arrastada”, redução dos reflexos, sonolência e prejuízos na capacidade de raciocínio e concentração;
  4. Em doses altas, a visão pode ficar “dupla” ou borrada, ocorrendo também prejuízo de memória e da concentração, diminuição da resposta a estímulos, sonolência, vômitos e insuficiência respiratória, podendo chegar à anestesia, coma e morte. Por essa razão diz-se que o álcool tem efeito bifásico no organismo.

Estes efeitos dependem da quantidade de álcool que o indivíduo bebe. Doses moderadas de álcool podem provocar sensação de bem-estar, relaxamento e desinibição. No entanto, com o aumento das doses, os reflexos ficam prejudicados e a pessoa pode se envolver em acidentes.

Embora o álcool seja uma droga bifásica, é classificado como depressor do Sistema Nervoso Central, pois a fase depressora é mais intensa e prolongada.

Como lidar com as pessoas enquanto estão intoxicadas pelo álcool (bêbadas)?

Há várias maneiras populares de lidar com a intoxicação alcoólica, mas nenhuma delas é tão eficaz quanto o tempo. Deixe a pessoa em um local tranquilo e isolado e espere o organismo eliminar o álcool.

Muito bem meus amigos, finalizando esta primeira parte referente ao Álcool, espero que todos façam uma reflexão através deste material, utilizando-o como aprendizado para que vocês possam praticá-lo em sua família, objetivando diminuir ou até eliminar o consumo que porventura exista.

No próximo artigo, darei continuidade ao assunto Álcool abordando mais aspectos importantes sobreas causas e consequências do consumo dessas bebidas.
Boa leitura e até o próximo artigo.

Nelson Luiz Raspes

Psicólogo com formação em Dependência Química pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). É especializado em Capacitação em Dependência Química pela Universidade de Santa Catarina. Atuou durante quinze anos junto ao Centro de Tratamento Bezerra de Menezes.
Mais informações: nelsonpsico@hotmail.com